Zilda Arns

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Dra. Zilda: "Medidas educativas e preventivas são as únicas soluções para o problema das gestações não desejadas”

Eis uma questão muito importante a ser lembrada, quando se fala dos feitos da Dra. Zilda Arns. Era uma pessoa radicalmente contrária ao aborto, e mais do que isso: ela tinha respaldo suficiente na área de Saúde Pública para propor soluções para o problema. Para aquela que já é considerada por alguns a maior ativista social da história do país, legalizar o aborto seria admitir uma derrota do poder público em fornecer o que é realmente importante: uma educação de qualidade, nas famílias, nas escolas, nas políticas de saúde.

Vejamos então, abaixo, trechos de uma entrevista proferida por Dra. Zilda à revista eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos, em 2007 (veja a íntegra aqui), em que ela explica, com mais propriedade que muita gente que na época a criticou (e que hoje lhe presta homenagens), porque existe uma solução para o problema do aborto, e porque ela está longe de ser a legalização. E que, a seu exemplo, aprendamos a nunca aceitar a falta de esperança como argumento!

IHU On-Line – Em que a senhora fundamenta sua posição radicalmente contrária ao aborto?

Zilda Arns - Sou absolutamente contra o aborto. Em primeiro lugar, sou a favor da vida, e fundamento meu ponto de vista não somente na fé cristã, mas também na ciência e em aspectos éticos e jurídicos (…).

Sou médica pediatra e sanitarista, com mais de 47 anos de experiência em saúde pública. Além disso, estou nos últimos 24 anos à frente da Pastoral da Criança (instituição que acompanha 1,9 milhão de crianças com menos de seis anos, em 42 mil comunidades pobres do país). Por isso, tenho a convicção de que medidas educativas e preventivas são as únicas soluções para o problema das gestações não desejadas.

pastoral-da-criancaTentar solucionar problemas, como a gravidez indesejada na adolescência, ou atos violentos, como estupros e os milhares de abortos clandestinos realizados a cada ano no País, com a legalização do aborto, é uma ação paliativa, que apontaria o fracasso da sociedade nas áreas da saúde, da educação e da cidadania e, em especial, daqueles que são responsáveis pela legislação no país. (…) É preciso investir na educação de qualidade, nas famílias e nas escolas.

É preciso, antes de tudo, refletir. Será que nos países em que esse e outros abortos são permitidos, os jovens e as mulheres estão mais conscientes e têm menos problemas?

IHU On-Line – Como podemos formular a questão do estatuto do embrião, considerando sua implicação na questão do aborto?

Zilda Arns - O embrião é um SER HUMANO completo em fase de crescimento tanto quanto um bebê, uma criança ou um adolescente. Com a evolução das ciências da reprodução humana, mais especialmente nas últimas duas décadas, não há a menor dúvida de que a vida do SER HUMANO se inicia no momento da concepção. Não se trata de um amontoado de células. Quando se dá o encontro gamético, produz-se a primeira unidade da vida, que contém toda herança genética e todos os requisitos para caracterizar a vida…

IHU On-Line – Como se caracteriza a abordagem ética do aborto?

Zilda Arns – Existe um princípio de injustiça nessa prática. Mais uma vez, ao invés de consertar o tecido social roto, querem jogar sobre a mulher o pesado fardo da injustiça social, oferecendo-lhe a oportunidade de abortar o filho que veio abrigar-se em seu ventre, filho esse que não planejou ou que foi concebido como conseqüência de um ato violento. (…) A ética e a moral não são exclusivas da religião. Devem servir de guia para toda a sociedade, incluindo a ciência e a técnica. Não faltam cientistas, juristas e legisladores que, no exercício de seus mandatos e profissões, têm como objetivo maior a defesa e a promoção da vida, a serviço do bem comum.

pastoral-da-criancaIHU On-Line – O aborto é um problema que precisa de uma solução, ou ele pode ser uma solução?

(…) Para gerar desenvolvimento e, por conseqüência, boas condições de saúde e de vida, é preciso investir em educação de qualidade e criar políticas públicas de assistência materno-infantil, de orientação aos adolescentes, às mulheres e às famílias, a fim de que elas tenham melhores oportunidades de estudo e de desenvolverem-se no futuro. A prática de abortos seria um retrocesso da saúde pública, que, ao invés de investir na qualidade de vida da população, passaria a reproduzir uma cultura de incentivo à morte, à violência.

IHU On-Line – Uma lei a favor pode ser a única resposta ao problema do aborto?

Zilda Arns - Sob o ponto de vista de políticas de saúde, seria muito mais humano e econômico à nação investir em qualidade de vida e melhor assistência à saúde do que investir contra o ser humano indefeso. Não se pode eliminar a pobreza por meio da eliminação dos pobres, assim como não se pode eliminar a violência de uma gravidez indesejada mediante outra forma de violência, como é o aborto. Tenho certeza de que nossos deputados e senadores não se deixarão seduzir pela cultura da morte e da corrupção e lutarão pelo respeito à vida e por melhor qualidade de vida para todos…

IHU On-Line – Como lidar com a mentalidade abortista, tão presente na sociedade, que banaliza a questão do aborto?

Zilda Arns - Feministas famosas, realmente comprometidas com o bem-estar das mulheres, (…) deixaram a bandeira do aborto e optaram pela bandeira da erradicação da pobreza, da miséria, da ignorância que oprime as mulheres, principalmente nos países em desenvolvimento. Lembro-me de médicos, tais como o Dr. Bernard N. Nathanson, M.D. co-fundador da Liga Nacional pelos Direitos ao Aborto nos Estados Unidos, e responsável por mais de 75 mil casos desse tipo, que se converteu em defensor da vida, devido a um conhecimento mais profundo do ser humano, pelos avanços da ciência e dos aparelhos de tecnologia avançada. Dr. Nathanson convenceu-se da existência da vida humana desde o momento da concepção…

bebêIHU On-Line – Podemos conciliar a autonomia e a liberdade da mulher com a vida e a defesa do embrião?

Zilda Arns - Trata-se de um princípio de convivência de dois seres humanos. O “outro” é o limite de nossa liberdade. Se a mulher tem direitos e deveres, eles não podem interferir ou impedir o direito à vida de outro ser humano.

FONTE: www.ihuonline.unisinos.br

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Hoje está sendo um dia triste pra mim. Me lembro de poucas notícias de morte, dentre pessoas que não conhecia pessoalmente, que me deixaram assim. Morreu Zilda Arns, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança. Uma pessoa que fez muita coisa pela vida. E nos ensinou a viver.

Poderia aqui fazer uma bela homenagem, comentar sobre a tragicidade de sua morte junto aos militares, numa missão que buscava levar um pouco de paz a um lugar já tão massacrado como o Haiti – sem falar na própria tragédia de um terremoto tão grande para um povo que imaginávamos não poder sofrer mais do que já sofre. Mas creio que ao mistério da morte já basta o aperto no peito ao ver tantas homenagens pelos meios de comunicação afora, do Twitter a várias igrejas espalhadas pelo país. À morte, em si, não cabe sentido. Cabe o sentir.

Falemos, pois, de sua vida. Eu, particularmente, me emocionei ao ver o quanto era uma pessoa amada e conhecida, o quanto tanta gente de tantos credos – e tantos sem-credos – se comoviam de verdade com sua história. Não sabia que era tão conhecida, achava que eram poucos os que, como eu, gostavam de lembrar seu exemplo em inúmeras situações em que me diziam: “não tem jeito”. Os números são impressionantes: a Pastoral da Criança chega a reduzir pela metade a mortalidade infantil nos locais em que atua, a um custo de menos de R$1,00 por mês por criança. Zilda não fez tudo sozinha, mas fez mais que isso: soube levar centenas de milhares de pessoas a lutarem pela vida, levando-a a milhões de outras pessoas.

zilda arnsQual o seu segredo? Talvez soe simplório dizer que foi sua fé. Mas não há outra forma de dizer: Zilda, e tantos e tantos outros voluntários que realmente fazem a diferença por onde passam, o fazem por fé. Fé na vida, fé em algo melhor, fé que o mundo pode ser mudado – senão o mundo todo, ao menos o “mundo” de uma criança. Esse é o Deus de Zilda: um Deus que não acha que o Amor universal é algo demasiadamente abstrato, bonito em palavras mas longe da realidade. Um Deus que é o Amor em si, e nos dá força para amarmos também.

Talvez ainda tenhamos que esperar muito pelo dia (se é que ele vai chegar) em que o Estado faça realmente o que lhe pagamos para fazer, trabalhando com o devido respeito e dedicação por todos, sem por a culpa na falta de recursos (que, cá pra nós, são bem maiores que R$1,00 por pessoa) ou no que quer que seja. Talvez um dia todos consigamos fazer do nosso sustento uma forma de ser sustento para quem está ao nosso lado; façamos o que deve ser feito. Mas, enquanto isso, aprendamos com quem faz sem ter a obrigação de fazer. Aprendamos a amar!

Bela reportagem de 2000 que mostra o trabalho da Pastoral da Criança e sua luta pela conscientização nas eleições: “Educação é mais importante que cesta básica.”

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