Acabo de ver uma reportagem na TV com a seguinte chamada: “mais da metade das mulheres não usam camisinha na primeira relação sexual”. No final, uma mulher, “que não quis se identificar”, narrando, com voz e rosto distorcidos, como deixou de utilizar o preservativo após um tempo de namoro. Enquanto assistia a reportagem, eu imaginava que aquele vulto sombrio iria finalizar relatando ter pegado alguma doença sexualmente transmissível, algo que justificasse o medo de se expor; mas não. O que ela tem a esconder é simplesmente o fato de não usar camisinha com o namorado. Esse foi o seu “crime”.
Ora, dirão, pode não ser um crime, mas é um comportamento que não deve ser estimulado, especialmente em época de carnaval. Que a AIDS, as outras DSTs, a gravidez indesejada e todas as conseqüências de uma sexualidade irresponsável são problemas graves e devem ser assunto de prioridade das nossas políticas de saúde, concordo com todas as minhas forças. O que me pergunto é se não estamos fazendo isso de uma forma moralista demais – e, talvez por isso, não esteja funcionando como deveria.
Sim, você entendeu bem: eu não disse “liberal demais”, mas “moralista demais”. Me peguei pensando se esse tipo de campanha da “saúde politicamente correta”, com tanto esforço para parecer liberal e descolada, não está, na verdade, se tornando mais moralista que o “moralismo” que tanto tentam combater…
Explico. “Moralismo” geralmente é uma palavra usada em sentido pejorativo, oposta a uma ética mais “humana”. Um “excesso de preocupação com questões de moral, tendendo para a intolerância e o preconceito; puritanismo”, segundo um dicionário web que achei. É quando, numa tentativa de tornar as coisas mais corretas, as pessoas se apegam exageradamente à moral, achando que o simples cumprimento delas vai fazer com que a situação melhore.

É o caso de como o sexo era geralmente tratado até algum tempo atrás . Para se ter uma vida sexual correta não era preciso pensar, analisar, raciocinar de forma responsável; bastava seguir o que diziam ser “certo” e “errado”.
Bem, mas como bem lembram as propagandas, “os tempos mudaram”. Hoje é preciso pensar. E aí o que as campanhas fazem para estimular nossos jovens, herdeiros da liberdade pela qual nossos pais tanto lutaram, a ter a devida responsabilidade para utilizá-la?
“Faça de tudo, mas faça com camisinha”
Me pergunto: será que essas mulheres que não utilizaram o preservativo na primeira relação, não o estavam fazendo por estarem com um companheiro fora de risco (seja por também ser sua primeira vez, seja por terem apresentado-lhes o teste de HIV negativo, seja por simplesmente ser alguém realmente confiável?). Será que não tiveram um comportamento mais “seguro” que alguém que usou camisinha com 20 pessoas diferentes no carnaval?
“Não se pode confiar em ninguém”, dirão. Ora, um dia na vida você vai ter que confiar em alguém com quem faz sexo. Nem que seja com quem quer ter filhos – afinal, pra isso não se pode usar camisinha, não é mesmo?…
Há um programa e prevenção à AIDS que obteve grandioso sucesso em países africanos onde a infecção pelo HIV encontrava índices assustadores, o qual baseia-se em três pontos básicos, o “A.B.C.”: Abstinência, Fidelidade (Be faithful) e Preservativo (Condon). As orientações são: se pode, seja abstinente (mais aplicável aos adolescentes). Se tem um(a) companheiro(a), seja fiel. E, se por acaso não seguir as primeiras duas regras, use preservativo.
Seria um programa moralista? Bem, não me parece uma regra fechada, mas algo que, se bem aplicado, pode ser adequado à realidade de cada pessoa. Não demoniza nem quem faz sexo antes do casamento, nem quem não usa camisinha, mas apresenta várias possibilidades de segurança. Ou seja, dá escolhas, faz pensar. Toca-se num ponto importantíssimo, que nossas campanhas insistem em ignorar: a promiscuidade. E evoca a responsabilidade crítica.
Mas, apesar do sucesso na África e sua disseminação por outros países como os EUA, o programa simplesmente não é divulgado por aqui. É difícil encontrar páginas em português que simplesmente o mencionem – e, quando o fazem, ora veja, geralmente relacionam com o moralismo.
Será que nós é que não precisamos abrir um pouquinho mais a cabeça para idéias diferentes – ou seja, sermos um pouco mais “liberais“?…





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