rio de janeiro

Arquivo da tag: rio de janeiro.

A última quinta-feira, 7 de abril de 2011, ficou marcada como o dia do maior “massacre escolar” de nosso país. Ao procurar, atônito em frente à TV, alguma explicação para que um sujeito de 24 anos – que, apesar de grande introspecção, nunca tinha demonstrado qualquer sinal de agressividade ao longo da vida – entrasse atirando numa escola em que estudou, provocando tanto terror, o sentimento era o de fatalidade. Tão imprevisível quanto um terremoto, tão incontrolável quanto um raio que nos atinge ao caminhar por uma estrada. Difícil dizer quem errou, difícil dizer onde está a culpa de tão grande tragédia, que ceifou 13 vidas tão jovens e deixou tantos outros feridos, no corpo e na alma.

No entanto, ao longo dos dias, o trabalho da perícia foi sendo aos poucos divulgado pela imprensa, revelando algumas pistas que parecem indicar que talvez não estejamos frente a algo tão aleatório, tão fruto do “acaso” assim. Não que haja, é claro, alguma justificativa para o ato – mas, ao menos, possíveis explicações. Wellington Menezes de Oliveira, o rapaz, deixou alguns indícios de como funcionava sua cabeça, e o que o levou a cometer o crime – revelando talvez menos um “monstro descontrolado” do que alguém perturbado, mas obstinado em cumprir uma missão. A investigação mais completa que vi sobre o caso, até o momento, foi esta reportagem do Fantástico de ontem, que mostra detalhes impressionantes do caso e da vida de Wellington.

Fantástico: em nova carta, atirador tenta usar bullying para justificar massacre

O ato foi cuidadosamente premeditado. A carta que Wellington levava consigo no dia do massacre trazia somente instruções práticas em relação ao seu sepultamento (dizia que os sexualmente “impuros” não poderiam lhe tocar) e ao destino que ele queria dar à sua casa: que fosse doada a uma instituição de amparo aos animais, “que são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos, que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se sustentar”.  Por alguma razão, Wellington quis que os motivos que o levaram a cometer o crime só viessem à tona algum tempo depois, quando a polícia revistasse sua casa. Lá estava uma segunda carta, com trechos fortes, perturbadoramente tocantes.

“Quero deixar bem claro que eu sou contra as guerras ou qualquer que sejam os atos de violência sem motivo justo, e também quero deixar claro que eu não sou o responsável por todas as mortes que ocorrerão, embora meus dedos serão os responsáveis por puxar o gatilho. Portanto, cada vez que vocês verem alguém ridicularizando uma pessoa pela sua aparência física, vestimenta ou qualquer que seja o motivo, cada vez que verem alguém sendo humilhado e agredido injustamente, cada vez que verem alguém sofrendo preconceito ou sendo discriminado, cada vez que verem alguém se aproveitando da bondade ou da inocência de um ser, lembre-se que esse tipo de pessoas foram responsáveis por todas essas mortes, inclusive a minha.”

Wellington sofreu bullyng pesado na escola. Uma vez, jogaram-no na lata de lixo. Outra, seguraram-no de cabeça para baixo, enfiaram sua cabeça numa privada e deram descarga. O que mais o marcou, entretanto, foi o falso assédio das meninas. Vários colegas da época, em relatos a várias reportagens, disseram que elas brincavam muito com o jeito tímido de Wellington, insinuando-se para ele, tocando-o e fazendo com que ele as tocasse, para depois desprezá-lo, debochando. Ele, afetiva e sexualmente retraído, parecia ficar bastante confuso e revoltado. “O repúdio das garotas era tão forte que hoje sinto nojo das coisas que elas faziam”, disse um ex-colega.

O motivo das brincadeiras? O jeito “diferente” do rapaz. Além de fiel religioso (sua família pertencia às Testemunhas de Jeová), Wellington já começava a mostrar sinais de esquizofrenia, e todos percebiam que ele não era normal, “não se enquadrava”. Muitas vezes, para as crianças e adolescentes, brincadeiras com os “diferentes” são consideradas normais, não são vistas como agressão, como maldade. Não raro, o objetivo no fundo é até mesmo uma estranha forma de tentar “enquadrar” o sujeito, fazê-lo “acordar” para sua diferença e passar a se integrar aos demais. Algo que se repete até mesmo nos trotes violentos das universidades: um estranho modo adolescente de incluir, um ritual para diferenciar os “fracos” dos “fortes”.

Na cabeça dos adolescentes, e de todos os que conviveram com ele, nunca se poderia imaginar que tudo iria reverter-se em uma violência tão extrema – até porque o rapaz nunca revidou, sempre sofreu sozinho. Sua doença, não tratada, fez com que não tivesse as habilidades sociais necessárias para expressar-se, incluir-se socialmente e resolver os conflitos “civilizadamente”. Não era capaz de se civilizar. Ao menos, não a este ponto.

Ao que parece, as brincadeiras foram mais intensas na sétima série, em 2001 – curiosamente, o ano em que ocorreram os atentados de 11 de setembro, que tanto fascinaram Wellington. Foi a primeira vez que o “império” dos EUA, símbolo de supremacia mundial, recebeu um ataque tão desmoralizador – e de guerrilheiros desconhecidos, de um país desconhecido. Na sua mente de adolescente delirante, uma possibilidade dos fracos vencerem os fortes. Dos “puros”, dos renegados, vencerem os dominadores.

Talvez os delírios de Wellington não tenham recebido a doutrinação de grupos terroristas religiosos como os dos rapazes igualmente insanos que pilotaram os aviões contra o World Trade Center. Mas ele se serviu da farta “oferta” religiosa de um mundo globalizado, pinçando elementos de várias crenças para traçar sua própria, como tantos hoje fazem. Criou uma religião que visava proteger os “inocentes” dos “maus” – e os animais seriam os mais inocentes, pois não possuiriam o livre arbítrio do coração humano que, mesmo podendo escolher, escolhe ser mau. “No fundo a maioria das pessoas são assim, ou agridem ou debocham dos agredidos”, disse em sua carta.

Com a morte da mãe, o mundo solitário do rapaz pareceu ruir de vez. Nada mais lhe restava, nenhum vínculo afetivo. Pediu demissão do trabalho e fechou-se ainda mais em seu mundo. Vibrava com jogos violentos, filmes de terror e notícias de ataques terroristas. E foi formulando seu plano macabro. Um plano de justiça, segundo sua mente doentia.

Os adolescentes atacados, a nosso ver, podiam não ter nada a ver com um passado tão distante, mas não na mente de Wellington. Lá estavam as salas da sétima série, que ele parece ter procurado saber quais eram antes de começar a atirar, segundo o vídeo das câmeras de segurança. Lá estavam as meninas, seu alvo preferencial. E lá estavam também os “puros”: os professores não sofreram nenhum ataque, e um garoto que orava para não morrer chegou a ter a arma apontada para sua cabeça, mas algo fez Wellington desistir: Relaxa, gordinho, eu não vou te matar. Ser alguém de fé, e um possível alvo de bulling por sua aparência física: talvez tenha sido o que, na mente de Wellington, fez o garoto Mateus Moraes merecer viver.

A interpretação que me vem é a de que, para a mente de Wellington, o que ocorreu parece ter sido, sim, uma fatalidade. Não parece ter havido prazer em matar ou uma total ausência de culpa, como um psicopata. Ele pediu, na carta que carregava consigo, a presença de um “fiel seguidor de Deus” para orar em sua sepultura, para que fosse assim perdoado e Jesus salvasse sua alma – ou seja, sabia que estava para fazer algo errado, mas que parecia ser a única alternativa que sua mente perturbada lhe propunha. Como se não lhe restasse mais nada na vida.

O que fazer para que algo tão assustador não se repita? Culpar a loucura, tentar domar os loucos? Restringir religiões? Cercar escolas, policiar paranoicamente locais públicos? Como fazer para que não haja mais “Wellingtons”??…

Talvez sempre haverão Wellingtons, assim como sempre haverão Mateus, Carolinas, Biancas, Jéssicas… cada um a seu modo. Mas talvez, cultivando mais o respeito ao diferente, o afeto, o amor (por que não dizer?), consiga-se criar uma sociedade menos cruel, que não alimente tanto a agressividade que todos temos guardada em algum lugar, como aquele rapaz tinha. E que nossa legítima fome de justiça não se torne um contraditório alimento para ainda mais ódio, como ocorreu com aqueles que picharam a casa da família de Wellington com xingamentos e ameaças – em atos tão insanos quanto os dele. Um grupo de moradores já está fazendo sua parte, se reunindo para retirar as pichações e pintar o muro, num grito de “chega de violência”.

E nós… estamos fazendo a nossa?

http://g1.globo.com/Tragedia-em-Realengo/noticia/2011/04/manuscritos-de-atirador-mostram-fixacao-por-terrorismo.html

Tags: , , , , , ,

Sérgio Cabral - foto Rafael Andrade / Folhapress

Foi a pergunta que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, fez hoje durante um discurso, para justificar a legalização do aborto. Ainda com as luzes dos holofotes sobre sua imagem, devido à aparentemente “bem-sucedida” guerra contra o tráfico (que, apesar de histórica, ainda me causa certo ceticismo, enquanto não estiver incrustada num projeto bem mais amplo, que envolva uma verdadeira mudança de mentalidade social e dure além das Olimpíadas), Cabral voltou a causar polêmica ao falar da situação do aborto.

A última tinha sido em 2007, quando insinuou que a legalização diminuiria a violência no Rio, uma vez que a alta taxa de natalidade das comunidades mais pobres seria, em suas palavras, “uma fábrica de produzir marginais”. Ou seja, aborto legalizado = menos pobres vivos = menos violência (sim, era dele que a Heloísa Helena estava falando no vídeo do post anterior)…

Hoje, a polêmica ficou por conta da forma “casual” com que o político tratou o ato de abortar. “Quem nunca teve que abortar um filho?” equivale, em sua fala, a “quem nunca dirigiu após beber?”, “quem nunca sonegou imposto?” ou “quem nunca surrupiou algo no supermercado?” (ele poderia, talvez, até ter perguntado “quem nunca recebeu um mensalãozinho?” – mas creio que a comparação iria causar certo desconforto com suas alianças….).

O problema, governador, é que não é por que “todo mundo” (ou ao menos um “todo mundo” dentre a sua roda de amigos, porque ao menos aqui onde eu moro isso é bem diferente…) comete determinado ato, que ele deveria ser lícito. A direção irresponsável e a corrupção política, por exemplo, são coisas tidas como “corriqueiras” pra muita gente, até mesmo culturais em certos meios. Mas são dois dos maiores problemas do Brasil. Causas das maiores mortes, e de grande parte da nossa miséria, do nosso sofrimento. Será que deveríamos legalizar a bebida ao volante? E a corrupção??

Governador, gostaria sinceramente que conhecesse o trabalho de pessoas como essa mulher, chamada Dóris Hipólito. Há vários trabalhos como esses aí no seu Estado, sabia? Eles enfrentam grandiosos sacrifícios em lugares onde políticos como o senhor só costumam pisar se puderem receber votos em troca, como a Baixada Fluminense, para tentar dar uma solução diferente para o que o senhor acha casual. Tentam resgatar a vida de pessoas que, por algum motivo (como o senhor mesmo falou, geralmente em meio a desespero), pensam em recorrer ao aborto. Eles não acham que os pobres devem ter o mesmo “direito” dos ricos de tirar a vida de seus filhos, até porque sabem que os pobres, geralmente, não pensam assim. Pobre, com toda a dificuldade do mundo, quer ter o filho. E é dever do Estado lhe dar uma vida digna. Não matá-lo, como num “BOPE pré-natal”...

Ouça este recado que ela mandou para o senhor, governador. E reflita.

Tags: , , , , ,

Lixão do Morro do Bumba em 1977
Lixão do Morro do Bumba em 1977

Como eu não costumo assistir televisão, fico sabendo da maioria das tragédias pela minha mãe. Ela é uma espécie de “Balanço-Geral” do MSN. Foi através dela que infelizmente fiquei sabendo da tragédia em Niterói.

Um antigo lixão habitado por centenas de pessoas, estima-se 40 a 60 casas (havia até uma pizzaria e uma igrejinha).

Toda uma comunidade soterrada…

Por incrível que pareça isso me lembrou uma música do Rage Against the Machine, Calmo como uma bomba (Calm like a bomb).  Era essa a situação daqueles que agora são vítimas de uma tempestade,  mas que antes disso foram vítimas da exploração, descaso e falta de comprometimento.

Toda uma comunidade, fruto do descaso e da exploração do poder que ironicamente os representa nos âmbitos Municipais, Estaduais e Federais.

Toda uma comunidade, e tantas outras que ficaram décadas esquecidas, ignoradas, e que agora são oportunidade de exploração política, misteriosamente a visibilidade  só existe quando vem o desastre… e mesmo assim, nem sempre.

Resgates no Morro do Bumba - 2010
Resgates no Morro do Bumba – 2010

Esperamos que esta e mais uma infinidade de outras comunidades, pelo Rio e pelo mundo, possam receber a ajuda de urgência e sejam tratadas com a dignidade que merecem…

Espero ainda que esse sistema exploratório seja destruído de vez e um novo, justo e perfeito, surja para toda a humanidade

Mas até lá, lutemos incessantemente por melhoras!

Clique aqui para saber como fazer doações de alimentos e produtos para as vítimas do estado do Rio de Janeiro.

Tags: , , , , , , , , , ,