Reflexão

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Quando passei no vestibular, ouvi aquela célebre frase: “sinta-se privilegiado, pois apenas 10% da população do nosso país conseguem entrar numa faculdade. Se você conseguir se formar, aí então fará parte de um grupo mais seleto ainda: o dos 3% de brasileiros que têm um curso superior completo!” Dizem que foram esses tais “3%”, número tão difundido por aí quando se quer ilustrar a desigualdade social brasileira, que inspiraram Pedro Aguilera e um grupo de cineastas a elaborar uma série de ficção distópica com esse nome: “3 por cento”.

A série, cujo episódio piloto está fazendo um bom sucesso na internet (com todo o mérito, pois é de prender a respiração do início ao fim), nos apresenta um mundo em que há 2 lados bem definidos: o “Lado Bom” e o “Lado Ruim”. No Bom, segundo a narradora, “tem tudo o que a gente precisa, todo mundo é tratado igual”. Já no lado ruim o trabalho (ou melhor, o “serviço”) é pesado, e a vida é muito dura pra todos. Mas, neste primeiro episódio, não vemos diretamente nem o “Lado de Cá”, nem o “Lado de Lá”. Só o que acompanhamos é o início do Processo de Seleção que concede uma única permissão, ao longo de toda a vida, ao sujeito que nasce do lado “Ruim” e quer ir pro “Bom”. Só se pode tentar uma vez, ao completar 20 anos. E, todo ano, só 3% dos que se inscrevem podem passar.

Narrando assim, parece mais uma história louca de ficção científica, mas ao assistir a impressão que se tem é de que é algo bem real. Não só pelo fato de ser uma produção brasileira “que não deixa nada a dever pras gringas”, com atores bons, anônimos (poderia ser um amigo seu) e falando nosso bom e claro português, sem dublagens. Mas por retratar, claramente, situações exageradas de processos seletivos com os quais nos deparamos o tempo todo. Entrevistadores bem-treinados para nos deixar inibidos, perguntando astuciosamente coisas como “qual seu ponto fraco?”, “você seria um bom líder?”, “se você tivesse que mudar o Pão de Açúcar de lugar, o que você faria?”, e dinâmicas de grupo cujo único objetivo é vencer os adversários, sendo o mais esperto possível, não são ficção nenhuma em nosso “mundo corporativo”…

Por enquanto, só têm o primeiro episódio, produzido com verba de um concurso do Governo Federal e disponibilizado no Youtube “pra ver se conseguem financiamento de um canal de TV”. A promessa dos diretores é fazer algo do tipo Lost, em que a cada episódio as coisas vão ficando mais complexas, lançando novas possibilidades, aprofundando nas realidades dos personagens e dos mundos. Mas só este episódio, de rápidos e impactantes 27 minutos, já nos dá material pra boas reflexões… Veja por você mesmo – assiste aí (aconselho a botar em tela cheia, pra aproveitar a imagem em HD) e depois volta pra continuar lendo o texto:

Clique para assistir ao 1º episódio da série no Youtube (27 min)

Na realidade, 3% é uma crítica não somente ao vestibular – processo que, pela carga pejorativa que carrega, parece estar com os dias contados, sendo cada vez mais substituído por outros sistemas como o ENEM (trocando, a propósito, o sujo pelo encardido…). Até porque a tal porcentagem da população do país com mais de 25 anos que tem Curso Superior já está acima dos  3% pelo menos desde o Censo 2000, quando atingiu cerca de 7% – e hoje, após tantos programas de inclusão, deve estar bem maior. O que eles querem mostrar com a série é que, em nosso mundo, a competitividade vai muito além de uma prova pra entrar numa faculdade – até porque, a meu ver, o simples fato de ter um curso universitário qualquer tende a ser cada vez menos um “diferencial” no currículo – sem falar no mundo do empreendedorismo, em que cada vez mais gente consegue “chegar longe” sem necessariamente depender de diploma. E, cá entre nós, já passou da hora de voltarmos a valorizar os Cursos Técnicos, em vez de massacrar tanto a molecada durante 3 anos da flor de sua juventude num Ensino Médio que não lhes prepara pra absolutamente nada além do tal do vestibular…

Os 3% de chance são, na verdade, a forma como muitos encaram a vida, a qual parece não dar alternativa: muita gente, poucas oportunidades, só os “melhores” sobrevivem. Estes, mesmo tendo poucas chances, saberiam aproveitá-las. “Se apegue aos seus sonhos, com eles você chegará onde quiser, se for um brasileiro e não desistir nunca”, talvez tenham ouvido os personagens “do Lado de Cá” ao longo da vida, antes de se arriscarem a tentar ir para o lado dos vencedores. O lado onde ser “competitivo” é o maior dos elogios, onde não basta ser qualquer um, há de se ter um “diferencial”…

Mas… tem mesmo que ser assim?

Será que o “Lado de lá” é realmente um mundo melhor?…

Pois, numa das cenas do episódio, a entrevistadora pergunta ao jovem: “Se você pudesse escolher entre ser um herói sem ter feito nada, e salvar algumas pessoas sem ninguém nunca saber, o que faria?” Ante a resposta “solidária” já esperada, ela passa da teoria à prática, lhe dando a oportunidade de trocar sua aprovação pela reprovação das 3 próximas pessoas, ou vice-versa. Ou um ato de extremo altruísmo, ou um de grande egoísmo; sem meio-termo. O garoto escolheu o egoísmo, e passou. É como o mundo quer que pensemos que tudo funciona: “ou você, ou os outros”. É como as pessoas pensam do “Lado de Lá”…

Mas talvez o verdadeiro “Lado Bom” seja aquele em que o “ou” possa ser substituído pelo “e”. Sem necessidade de heróis ou vilões. Só eu, você, e quem mais quiser. Com competência, com competições saudáveis, sim… Mas com um mínimo de respeito, de ética. Senão, amigo… não há 3% que salvem a humanidade. Mesmo se forem “os melhores”…

PS: Se gostou da série, não deixe de clicar em “gostei” no Youtube e em “curtir” na página do Facebook, pra ajudá-los a conseguir financiamento pra produzir a série inteira!

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PreconceitoDia desses, estava conversando pela rua com um novo amigo, que acabou de se mudar cá para Juiz de Fora. Estávamos falando sobre a cidade, quando ele comentou:

_ Outra coisa boa daqui é que a polícia de Minas é educada, trata a gente com respeito…

Ele estava vindo de uma cidade de outro Estado.

_ Lá era horrível, policial não respeitava mesmo. Nem pedia documento, já vinha tudo mal-encarado, tapinha na cara, mandava deitar no chão… Me abordavam sempre, eu tinha que andar fugindo de polícia, não gostava de ficar onde tinha policial por perto.

Olhei para ele. Não era, definitivamente, um sujeito mal-encarado, suspeito, mal-vestido. Pelo contrário, é uma pessoa simpática, alegre, passa uma boa impressão. Pelo pouco que o conhecia, via que não era de se meter em encrenca, andar com gente estranha; nem ao menos bebia. Ora, por mais imbecil que um policial seja, ele não sai revistando qualquer um na rua, tem que haver um motivo qualquer, por mais besta que seja, que o leve a suspeitar de alguém. Mas bastou um pouco mais de conversa para que a minha suspeita se confirmasse…

Era a pele. Meu amigo tem a pele morena, tem traços negros. “Motivo” mais que suficiente.

Embrulha o estômago imaginar que esse tipo de coisa acontece. Pior – imaginar que, infelizmente, não é um caso nada raro. Além de ser uma injúria sem tamanho, um crime, é uma atitude simplesmente burra. Pare pra imaginar quantos policiais, financiados pelos nossos suados impostos, estão neste exato momento “dando uma dura em cima de um nêgo” enquanto os verdadeiros marginais, de qualquer cor e classe, ainda circulam por aí. Aqui em Minas, no Rio, no Acre…

O fato é que a conversa me intrigou, e me fez ficar filosofando sobre as origens do preconceito. Como será que esse tipo de pensamento surge na cabeça de uma pessoa? O que o causa?…

Pois hoje acordei com a campainha tocando. Minha irmã atendeu, e me chamou.

_ Bom dia, senhor… Desculpe incomodar, eu moro aqui na redondeza…

O mesmo papo de sempre, pensei. Ontem mesmo fiquei um pouco chateado com um rapaz que nos abordou na rua, enquanto andava com minhas irmãs e minha cunhada, pedindo uns trocados. Não gostei da forma como insistia, e sobretudo como olhava para as meninas. O tipo de situação que nos força a ser um pouco mais ríspidos, algo do qual realmente não gosto.

prestobarbaMas o homem de hoje continuava:

_ …é que eu tenho uma entrevista de emprego hoje, e estou passando nas casas pra ver se consigo um prestobarba usado, ou qualquer coisa…

_ Só um instante – eu disse da janela, enquanto pegava uma cartela com dois aparelhinhos novos e descia pra entregar. Mas fui ainda um pouco ressabiado, pensando que ao entregá-los ele pudesse pedir um também algum dinheiro, naquele estilo “dá a mão, quer o pé”. E qual não foi a minha surpresa pelo seu contentamento:

_ Mas são novos!

_ Sim.

_ Puxa, obrigado! Obrigado mesmo!!

E se foi.

E agora, relembrando uma gratidão tão sincera por algo tão simples, que me custa tão pouco, eu fico me perguntando porque raios não lhe dei também um sabonete, um pincel de barbear, ou algo que servisse como espelho. Acho que são os pequenos preconceitos do dia a dia, que infelizmente nos deixam tão “armados” nas situações, tão preparados para desconfiar das pessoas, evitando até perguntar se precisam de mais alguma coisa… Poderia ao menos ter-lhe desejado uma boa entrevista, e um “que Deus lhe abençoe”, além do meu tímido “de nada”…

Fico aqui me cobrando… Mas, ao mesmo tempo, agradeço a Deus por ter me dado essa pequena oportunidade de ajudar alguém com tão pouco, com meus prestobarba e meu simples sorriso. E rezo para que aquele homem tenha tudo o que merece na vida, enquanto eu vou aprendendo mais um pouquinho, a cada dia, a lidar com meus preconceitos, lembrando que as pessoas são diferentes. Como o rapaz de ontem e o de hoje. Como meu amigo e um marginal.

Como eu e você.

Dia desses, estava conversando na rua com um novo amigo, que acabou de se mudar cá para JF. Estávamos falando sobre a cidade, quando ele comentou:

_ Outra coisa boa daqui é que a política de Minas é educada, trata a gente com respeito…

Ele estava vindo de uma cidade de outro estado.

_ Lá era horrível, policial não respeitava mesmo. Nem pedia documento, já vinha tudo mal-encarado, tapinha na cara, mandava deitar no chão… Me abordavam sempre, eu tinha que andar fugindo de polícia, não gostava de ficar onde tinha policial por perto.

Olhei para ele. Não era, definitivamente, um sujeito mal-encarado, suspeito, mal-vestido. Pelo contrário, é uma pessoa simpática, alegre, passa uma boa impressão. Pelo pouco que o conhecia, via que não era de se meter em encrenca, andar com gente estranha; nem ao menos bebia. Ora, por mais imbecil que um policial seja, ele não sai revistando qualquer um na rua, tem que haver um motivo qualquer, por mais besta que seja, que o leve a suspeitar de alguém. Mas bastou um pouco mais de conversa para que a minha suspeita se confirmasse…

Era a pele. Meu amigo tem a pele morena, tem traços negros. “Motivo” mais que suficiente.

Embrulha o estômago imaginar que esse tipo de coisa acontece. Pior – imaginar que, infelizmente, não é um caso nada raro. Além de ser uma injúria sem tamanho, um crime, é uma atitude simplesmente burra. Pare pra imaginar quantos policiais, financiados pelos nossos suados impostos, estão neste exato momento “dando uma dura em cima de um nêgo” enquanto os verdadeiros marginais, de qualquer cor e classe, ainda circulam por aí. No Rio, aqui em Minas, no Acre…

O fato é que a conversa me intrigou, e me fez ficar filosofando sobre as origens do preconceito. Como será que esse tipo de pensamento surge na cabeça de uma pessoa? O que o causa?…

Pois hoje acordei com a campainha tocando. Minha irmã atendeu, e me chamou.

_ Bom dia, senhor… Desculpe incomodar, eu moro aqui na redondeza…

O mesmo papo de sempre, pensei. Ontem mesmo fiquei um pouco chateado com um rapaz que nos abordou na rua, enquanto andava com minhas irmãs e minha cunhada, pedindo uns trocados. Não gostei da forma como insistia, e sobretudo como olhava para as meninas. O tipo de situação que nos força a ser um pouco mais ríspidos, algo do qual realmente não gosto.

Mas o homem de hoje continuava:

_ …é que eu tenho uma entrevista de emprego, e estou passando nas casas pra ver se consigo um prestobarba usado, ou qualquer coisa…

_ Só um instante – eu disse da janela, enquanto pegava uma cartela com dois aparelhinhos novos e descia pra entregar. Mas fui ainda um pouco ressabiado, pensando que ao entregá-los ele pudesse pedir um também algum dinheiro, naquele estilo “dá a mão, quer o pé”. E qual não foi a minha surpresa pelo seu contentamento:

_ Mas tão novos!

_ Sim.

_ Puxa, obrigado! Obrigado mesmo!!

E se foi.

E agora, relembrando uma gratidão tão sincera por algo tão simples, que me custa tão pouco, eu fico me perguntando porque raios não lhe dei também um sabonete, um pincel de barbear, algo que servisse como espelho. Acho que são os pequenos preconceitos do dia a dia, que infelizmente nos deixam tão “armados” nas situações, tão preparados para desconfiar das pessoas, evitando até perguntar se precisam de mais alguma coisa. Poderia ao menos ter-lhe desejado uma boa entrevista, e um “que Deus lhe abençoe”, além do meu tímido “de nada”…

Fico aqui me cobrando… Mas, ao mesmo tempo, agradeço a Deus por ter me dado essa pequena oportunidade de ajudar alguém com tão pouco, com meus prestobarba e meu simples sorriso. E rezo para que aquele homem tenha tudo o que merece na vida, enquanto eu vou aprendendo mais um pouquinho, a cada dia, a lidar com meus preconceitos, lembrando que as pessoas são diferentes. Como o rapaz de ontem e o de hoje. Como meu amigo e um marginal. Como eu e você.

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presepio 2Estamos hoje celebrando um marco histórico no calendário cristão, repetido há 20 séculos no mundo todo, unindo povos, cores e línguas. É o nascimento de Jesus! O filho do justo carpinteiro José e da jovem e bela Maria.

Seu nascimento trouxe mudanças no mundo! Provavelmente, se Jesus não tivesse nascido, o mundo como conhecemos hoje, com sua cultura e costumes, não seria o mesmo.

A mensagem daquele menino, divulgada desde cedo em Belém, alcançou toda a Palestina:  Jerusalém, Caná, Jericó, Samaria, e até Betânia, um leprosário. Mesmo após a morte de Jesus, a mensagem chegou como luz em Damasco, e posteriormente iluminou a Ásia Menor, Grécia e Roma, estendendo-se para além do judaísmo convertido, alcançando toda a humanidade!

E que mensagem é essa? Em uma simples definição: A mensagem do Amor e da Vida. O cristianismo, nome dado à religião definida, traz um novo sentindo à existência humana e às relações sociais dos homens. É a ‘Boa Nova’ do Cristo Jesus! Sua mensagem expandiu pelo mundo inteiro não por forças políticas ou interesses econômicos. Claro que em algum momento da história pode ter havido interesse, pois tudo que é infinitamente belo, infelizmente, no nosso mundo, remete à lucratividade! Todavia, sua mensagem veio mostrar que vale a pena viver e amar! Vale a pena ser gente! Vale a pena acreditar no amor!

A mensagem do menino Jesus, ou do jovem nazareno ou do velho JC, continua a mesma! E como é interessante ver o Amor e Vida sendo celebrado no Natal em todo tipo de família, tanto as padronizadas (com papai, mamãe e filhinhos), quanto as “modernas” e já normais no século XXI, com vários modos e agrupamentos. Como é interessante ver o Amor e a Vida sendo celebrados em mansões com ceias fartas e presentes caros e ao mesmo tempo em favelas sem ceias e presentes, mas com presença! Como é interessante ver o Natal ser celebrado com Amor e Vida em todos os cantos da Terra, mesmo sabendo que o mundo em que vivemos e desejamos está longe do ideal de Amor e Vida pregado pelo aniversariante do dia!

cristo-redentor-e-sua-sombraMas é neste antagonismo que o menino nasce de novo. O Deus que escolheu ser homem constrange os homens que querem ser reis e os reis que querem ser Deus! Há muita beleza em ser homem, há muita dignidade em ser mulher. Uma pena que no mundo da política, o que importa não é a dignidade da pessoa humana ou o ecossistema do planeta, mas o desenvolvimento, a todo custo, da economia do meu país, independente da destruição da natureza e o que deixo para a posteridade!

Uma pena também que no cristianismo muitos querem ser anjos perfeitos e se esquecem que bom mesmo é ser gente! Como é estranho ver cristãos que destroem humanidades dizendo que a luz que existe dentro deles é fraqueza! Essa é a tática de pessoas cruéis que procuram destruir a bondade, a ternura, a fé nas pessoas em nome da ‘virtude perfeita’. Esqueceram-se que a mensagem do Mestre é o Amor e não há nada de errado em amar!

“Não é função do Cristianismo, antes de qualquer outra coisa, ensinar-nos doutrinas, mas sim como viver a VIDA! (…) doutrinas e práticas religiosas são úteis quando auxiliam minha capacidade de viver com autenticidade”. (Linn, Matthew. Abuso Espiritual & Vício Religioso. Ed. Verus. p. 23). E desconfio que aqui esteja a essência da mensagem daquele jovem que mudou o mundo! Mensagem antiga e tão nova! Por isso é sempre uma Boa Nova, principalmente no Natal, onde os sentimentos e emoções renascem de maneira nova em poemas velhos!

É neste espírito de Natal que desejamos a você uma celebração de Vida Pela Vida! Encha sua vida de novidades… Quem sabe a Vida de Jesus de Nazaré e sua mensagem não sejam uma!

UM FELIZ NATAL A TODOS!

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Natal

Este fim de ano, pra variar, está sendo puxado (um dos motivos do meu sumiço aqui do site…). Tem muita coisa acontecendo, mas basta dizer três palavras pra todo mundo entender perfeitamente a gravidade da situação e nem querer saber do resto: “Reta Final do Mestrado”.

Nessas situações, a gente fica sempre querendo se concentrar no que é mais “importante”, deixar o resto de lado. Mas aí vem o Natal. Sim, o Natal: luzes, papais-noéis, rua movimentada até de noite, sorrisos, amigos-ocultos, músicas da Simone… Este ano pensei que iria passar praticamente imune a isso tudo. Mas, felizmente, não consegui. Em parte, graças à prefeitura de Juiz de Fora – impossível passar pelo centro da cidade e não desviar o olhar pra decoração de Natal, esse ano eles capricharam. Sem perceber, você já parou. E refletiu.

Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora
Cine-Theatro Central – J. de Fora

E foi o que fiz domingo, enquanto o padre dizia na missa que o Natal “é a maior festa da humanidade”. Na hora, qualquer um com um pouco de conhecimento sobre doutrina se sentiria impelido a corrigi-lo, a lembrar que a maior festa do Cristianismo é a Páscoa… Mas – péra lá! Ele disse “da humanidade”, não foi? Foi. Então talvez ele tenha razão. O Natal está além das fronteiras do Cristianismo, unindo tantas culturas diferentes em torno de uma mesmo clima… Cada uma do seu jeito, é verdade: na Europa celebram o dia de S. Nicolau (o “Papai Noel de verdade”); nos EUA gostam de duendes, renas, da tal da “magia”; no Japão fazem um boneco com olhos na nuca que vigia as crianças arteiras. Mas o fato é que o Natal está muito além de ser uma festa “só” cristã. A própria origem da data tem a ver com o dia da celebração pagã ao deus sol – já que não sabiam ao certo quando Jesus nasceu, resolveram dizer: “comemoremos no dia do maior dos deuses, que é o mesmo em qualquer lugar”.

Mas por que será que é normal ouvir um hare krishna, budista ou ateu desejando “feliz Natal” a alguém, sem nenhum constrangimento? Se muitos que a comemoram sequer acreditam em Deus (muito menos em Papai Noel), o que há de tão universal assim nessa data, para ser tão lembrada?…

Ceia de NatalBem, Natal é um tempo de solidariedade, de paz. E, é claro, da tríade família-presentes-comida, que não pode faltar. Natal, pra todo mundo, é tempo de trocar presentes regados a uma ceia apetitosa ao lado dos parentes mais próximos (ou não tão próximos assim…). Seja uma família pequenininha mãe-pai-e-filho ou aquelas enormes de quem tem 3 casamentos no currículo, cada um com dois filhos e uma ex-sogra. Natal é sagrado: tem que passar todo mundo junto.

E, convenhamos, é bonito. Presentes são uma bela forma de demonstrar carinho, e fazer a alegria do outro. Compartilhar uma boa ceia é comungar o prazer, a fartura, e todo o simbolismo que essa refeição traz. E é muito bom ter uma data em especial no ano pra reunir toda a família num clima de confraternização (ao contrário dos velórios…).

Papai Noel e a alegria do NatalMas então… Surge outra pergunta. Se é algo assim tão universal, por que tem tanta gente que não gosta de Natal?

Sim, senhor. Tem muita gente. E nem é preciso recorrer a blogueiros mau-humorados ou piadistas de Stand-up. Você provavelmente deve conhecer alguém pra quem essa data tenha um sentimento meio melancólico, triste – mesmo que essa pessoa não conte isso pra ninguém…

Mas… Por quê? Justo numa data que deveria trazer tanta alegria?… Bem, talvez exatamente por pensar nessas coisas que condicionamos à alegria, nessa época. Tem gente que passa o Natal sem paz, sem solidariedade – ou que passa a noite se lembrando de tanta gente carente dessas coisas, pelo mundo afora. Para muitos, não há presentes. Não há comida. E a família não é o ideal que se imagina…

Sim, é triste. Talvez essa melancolia seja também um pouco constitutiva do Natal, lado a lado com a alegria. Talvez o Natal não seja tão colorido quanto os dos comerciais na TV…

Noite de NatalMas aí, sabe… Me pego a pensar no primeiro Natal. Que também é uma cena universal. Não precisa ter um credo específico pra se emocionar com a bela história de uma Maria, um José e um pequeno filho… Que, naquela noite, ao que parece, não tiveram a solidariedade dos próprios familiares de José, ficando sem abrigo e talvez sem comida. Os presentes dos Reis Magos? Só algum tempo depois, ué. Nem com um boeing eles chegariam a um fim-de-mundo como Belém na mesma noite…

Foi uma noite que não lembra em nada as nossas noites de Natal, hoje. Mas talvez não tenha existido noite mais Feliz

Em homenagem a essa Noite, então, relembrarei aqui, a partir de amanhã, um desafio que me fiz no ano passado, no meu blog pessoal: imaginar como teria sido aquela primeira noite. Deu um conto interessante, profundo pra uns, estranho pra outros; mas de forma alguma definitivo, pretendendo seguir algum rigor. Me inspirei nos Evangelhos, mas foi sobretudo uma liberdade que tomei, deixando a criatividade reinar no Natal, assim como deve ter reinado na cabeça daquele casal, ao preparar um berçário num curral…

Naquela noite nasceu a Esperança. Em meio a toda a alegria dos perus, Papais-Noéis e tios bêbados, não nos esqueçamos, pois, do que é mais importante. Não a deixemos morrer.


“O Amor nasceu em meio ao frio de uma noite…”

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solidaomomentos na vida em que parece não nos restar mais nada.
Mesmo que ainda haja algo a se apegar – e sempre há – esses apegos parecem não surtir o mesmo efeito de antes, não ter a mesma graça, o mesmo sabor. Nada mais é como era, e parece só nos restar uma pergunta: “E agora, José?”

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?

Buscamos segurança, amor, admiração… e tantas vezes conseguimos, nos vemos artistas, poetas, humoristas, transformadores do mundo… mas sem base pra sustentar as próprias pernas.

Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Pois há momentos em que a muleta cai. Crenças, prazeres, fugas, vícios… Nada mais funciona. Não há mais fantasia, não há mais Pasárgada, Éden ou Pirlimpimpim. Só a realidade.

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

luz_camimhoE agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Nunca tentamos de tudo, mas há momentos em que tudo o que tentamos parece ser, realmente, tudo. E tudo já era.

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Por um instante tudo perde a cor, não sentimos, não agimos… não vivemos.

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

“Viver é foda, morrer é difícil”, dizia alguém. Mas ninguém quer a morte, queremos é viver de verdade, gritar, gemer, dançar até morrer de cansaço! Mas viramos pedra…

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia, sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Não dá pra continuar. Não dá mais pra marchar sem rumo. Não dá pra ser mais um José.

alone
(continua…)


Referências:
José (Carlos Drumond de Andrade)
Vamos fazer um filme (Renato Russo)
O que é, o que é? (Gonzaguinha)

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Sócrates

“A vida sem reflexão não merece ser vivida”

Sócrates

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