
Me lembro da minha primeira aula de História das Religiões, no mestrado, em que o professor (um padre, por sinal), sugeriu não que não abordássemos o Cristianismo durante o curso, por ser um assunto sobre o qual “todo mundo já sabia” um pouco, já que haviam tantas outras grandes religiões a serem estudadas. A turma, naturalmente, começou a debater tal decisão, e só naqueles poucos minutos de discussão já deu pra perceber o quanto o assunto era controverso. Pedi a palavra, então, e questionei se o fato de temos naquela sala visões tão diferentes sobre uma religião tão importante para a formação de todos nós, não seria um bom argumento para discutirmos sobre ela durante o curso. E então o padre-professor concordou em dedicar duas aulas do programa para falar mal tratar dos primórdios da sua própria religião.
Este episódio, assim como tantos outros vivenciados por aí, me fazem pensar em como temos os ensinamentos cristãos como coisas “que já sabemos”, já trazemos de berço, independente da nossa religião. Perdi a conta de quantos ateus vi se dizerem mais entendedores da bíblia que os próprios cristãos; de quantos crentes divergirem sobre questões fundamentais de sua crença, de quantas pessoas se acharem capacitadas para debater sobre o cristianismo baseado apenas no que aprenderam na catequese que fizeram para receber a primeira comunhão.
Buscando, pois, uma forma de desenvolver não só o conhecimento de estilo acadêmico, mas sobretudo possíveis aproximações dos ensinamentos evangélicos para os dias de hoje, que inauguramos hoje uma nova sessão do blog, apresentada pelo nosso novo colaborador (mas já velho amigo) Pedro Barbosa Júnior. Pedro é formando em História pela UFJF, e um grande curioso na arte de ver além através dos escritos bíblicos. Mais do que um estudioso do assunto, ele é um amante do que faz – o que o capacita grandemente para fazer parte do nosso time.
Seja você cristão ou não, com toda certeza carrega um grande peso do cristianismo em sua história. Encare como bom ou mau este peso, é preciso conhecê-lo para viver a vida. E, acredite, ele não é do tipo da coisa que se vê somente “com os olhos“…
A dignidade de Deus
Por: Pedro Barbosa Júnior
Certo dia eu li uma frase na agenda de uma amiga que dizia: “todo homem quer ser Rei, todo rei quer ser Deus, mas só Deus quis ser homem”.
Frase inquietante que me fez pensar que essa pretensão do homem de situar-se no lugar de Deus não traz consigo o mérito de possuir a “dignidade de Deus”.
Por exemplo: Vejo essa questão no caso de perdoar pecados. Não estou aqui a definir teologicamente o que seja pecado, mas vamos entendê-lo como ações que alguém realiza que atinja negativamente o próximo, no qual esse alguém ou esse próximo pode ser você, leitor, ou eu mesmo.
Se perdoar pecados é uma questão exclusiva de Deus (assim é a doutrina judaica e cristã) é estranho quando um homem ou uma mulher assuma pra si essa função. Talvez fosse por isso o estranhamento dos escribas aos ouvir Jesus dizer a um paralítico: “Filho, teus pecados estão perdoados”. (Mc 2, 5)
Seria mais fácil ouvir Jesus dizer ao paralítico: “levanta e anda”. Assim o show da fé seria menos blasfêmico que perdoar pecado… Aliás, esse negócio de perdoar quem gosta e quem entende é Deus!
Analisando a divindade de Cristo, observamos que Jesus de Nazaré sendo Deus – e um Deus que escolheu ser homem – Ele sem dúvida assumiu a pretensão divina que leva à compaixão, ao amor, à ternura, à bondade…
Contudo, se Jesus não fosse Deus, ele, com certeza, teria sido um homem nobre, um Rei (dos judeus e de quem quisesse ser seu súdito) que fazia escolhas divinas nos sentimentos do seu coração, preferindo a bondade ao invés da crueldade, a misericórdia à condenação, a amabilidade ao egoísmo, a ternura ao ódio, a esperança ao desespero, enfim, a Vida à morte!
O filme “O Todo Poderoso”, encenado pelo ator Jim Carrey, mostra, entre outras coisas, o quanto que o poder desmedido nas mãos humanas toma caminhos desastrosos. Mesmo que o sucesso do filme de comédia tenha sido mostrar o poder sobrenatural de Deus nas mãos de um simples sujeito e, a partir daí, as confusões que o personagem criou (que, aliás, são hilárias) não posso deixar de observar que, ao contrário do filme, foi o poder “sobrenatural” de amar e perdoar que Jesus copiou de Deus – e quis mostrar ao homem que este consegue viver a “dignidade de Deus” a partir de sua personalidade comungada com pequenos fragmentos do céu!
Deste modo, acredito que o extraordinário se torna ordinário através de pequenos-grandes atos, como a capacidade de perdoar e dar o perdão, mesmo sabendo que essa é uma tarefa exclusivamente divina, e por isso tão difícil – mas não impossível a gente como nós!…
P.S. (do Luis): Um banco, para ficar em pé e cumprir sua função, necessita de pelo menos 3 pernas. É com muita ALEGRIA que recebemos o Pedrão no time, que além de todas as características já citadas pelo Gabriel, também tem uma série de outras afinidades conosco: A intermitente falta de parafusos, o bom gosto, um senso de humor particular e a busca ousada da vida.


Comentários