Páscoa

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Eba, está chegando a Páscoa! Uma grande festa. Para judeus, a lembrança da libertação do Egito. Para cristãos, a comemoração da ressurreição de Jesus. Para pós-cristãos pós-modernos ocidentais-consumistas, a orgia do prazer de poder se empanturrar de chocolate sem culpa, ao menos por um dia! (a culpa na verdade vem depois, quando chegam os gramas a mais na balança, as espinhas e a fatura do cartão de crédito…).

Bem, mas pra quem quer algo mais da vida do que simplesmente aproveitar o feriadão pra curtir aquele engarrafamento esperto tentando sair da cidade-grande, cabe aquela perguntinha básica: “o que essa data pode trazer pra mim?” (além de um ovo, dois ovos, três ovos assim?). Sim, pois independente da nossa crença religiosa, existencial-humanística-filosófica-ideológica ou o escambau, sempre podemos aprender um pouco com as tradições que nos circundam. Nem que seja aprender a questioná-las…

Nesse sentido, achei interessante esse videozinho da Marina Silva, em que ela lembra o “sentimento duplo” que a Semana Santa geralmente traz, na nossa tradição cristã: o sofrimento e a alegria. Me vêm à mente dois extremos religiosos: de um lado, o catolicismo “medieval”, que enfatiza o sofrimento como forma de se chegar à salvação; e de outro, a Teologia evangélica neo-pentecostal da Prosperidade, pregada por quem parece buscar só as realizações pessoais, principalmente as materiais. Pra muito católico, em especial os mais “antigos”, a triste  procissão do enterro (quando se simula um enterro de Jesus, após a descida de seu corpo da cruz) é mais frenqüentada e mais marcante que a celebração da ressurreição. Já pra muito evangélico, em especial os mais “novos”, uma vez tendo Jesus sofrido e morrido por nós, só nos resta gozar a vida com todo o conforto que Ele nos permite ter.

Talvez seja o caso de nos lembrarmos um pouco dos amigos budistas, aqueles que adoram falar do tal “equilíbrio”: nem tanto ao Céu, nem tanto à Terra. Embora, como a Marina ressaltou no vídeo, o mais importante da Páscoa seja realmente a alegria, penso se ela seria realmente tão grande se não passássemos antes pelo sofrimento. Não, não tô falando que é preciso ficar se remoendo como um emo pelos cantos (ó céus, ó vida, ó azar…), mas sim nos lembrarmos que o sofrimento existe. Não ter medo de encarar a parte trágica da vida. Lembrar que o mal está por aí, e que o ser humano é capaz, sim, de barbaridades… Por fraqueza de caráter, como Judas, ou por pura maldade, como os que meteram o chicote no pobre do nazareno.

Mas por que isso? Primeiramente, por realismo. Pra ter o pé no chão. E, segundamente, pra nos lembrarmos que há algo maior que esse mal todo. Veja só a quanta maldade a humanidade já sobreviveu. Basta estudar um pouquinho de História pra ficar embasbacado – quanta atrocidade, meu Deus!… mas estamos aqui. E quanta coisa boa já fizemos, apesar disso tudo! Sinal de que podemos, ainda, fazer muito mais, talvez sobreviver a muito mais. Só depende da gente.

Aí entra a grandeza da ressurreição. Quanto maior o mal, maior terá de ser o bem para vencê-lo. Foram capazes de maltratar e matar covardemente, por pura inveja e conflitos políticos, um cara tão sensacional como Jesus… Mas ele era tão sensacional que ressuscitou, mostrando que a força do Amor é maior que tudo, que todo o mal que se possa imaginar! Mesmo se ele não tivesse ressuscitado, só a expansão impressionante da sua mensagem, pelo mundo todo até os dias de hoje (com sinais de que vai durar ainda muito tempo), já seria uma baita duma vitória. Uma vitória sobre a morte. Muito maior do que o poder “mundano” de alguma Igreja, enganações e politicagens que se aproveitaram da fé… uma ressurreição “sobrevivente” a isso tudo!

Portanto, antes de se esbaldar na bacalhoada da Sexta-feira Santa pra fingir que “segue a abstinência de carne que a Igreja manda” e achar que garantiu sua vaga no céu, talvez seja interessante pensar um pouquinho no sentido da introspecção desse dia, no porquê disso tudo. E daí, sim, ter grandes motivos pra comemorar – com ou sem chocolate – essa tal de Páscoa!…

PS: Ah, e sobre o “raio do coelho”, que eu falei no título… É que eu acho que deveria cair um raio em cima dele. Porque pudera, quem foi a bendita alma que teve a idéia de enfiar um coelhinho rosa saltitante na Páscoa, viu??…

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Passagem

Acho que inventei uma tese: A Páscoa é o Reveillon do Cristianismo. Esta palavrinha que vem do hebraico Pessah e que significa “passagem” tem muito a nos dizer. Já o reveillon é o tempo onde muitos renovam a esperança, fazem inúmeros desejos, adquirem bons propósitos para a vida e criam-se deliciosas quimeras para o mundo.

Sem querer ser cético, mas, se pensarmos bem, dia 1º de janeiro é simplesmente um dia depois do outro. Até concordo com Drummond que disse que Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Confesso que também faço minhas mandingas para que novas realizações aconteçam a cada ano. Sem dúvida é bom recomeçar, porém, não só com propósitos novos, seria bom também recomeçar com uma vida nova!

A Páscoa nos traz essa reflexão, mas, nem sempre lembramos disso. Como um livro velho, antiquado e comido pelas traças, nós esquecemos o sentido real da Páscoa, dando mais atenção aos símbolos do mercado que, em tempo de crise, luta para que o doce não se torne tão amargo e o coelhinho fofinho não vire um bichinho aterrorizante.

Mas pode a Páscoa mudar a vida de alguém? Ela nada mais é do que uma simples festa que se repete todo ano, sempre com as mesmas coisas e ritos? Concordo que a Páscoa é Festa das festas¹ e não simplesmente uma festa entre outras. Você pode até discordar de mim, amigo leitor, mas permita-me mostrar meu ponto de vista.

O período que antecede a Páscoa é um momento forte e privilegiado onde temos a oportunidade de refletir sobre a nossa vida. São 40 dias de quaresma em que, se levados a sério, numa constante busca de renovação e transformação, perceberemos claramente que a Páscoa possui um significado todo especial e diferenciado das demais datas da liturgia e das datas civis.

Pensar sobre nossa vida, atitudes, opções, opiniões, nos fará descobrir muitas coisas boas e coisas más também. A cada descoberta damos um passo em direção dessa grandiosa Festa, tornando-a diferente a cada ano, pois minha vida e concepções estarão mudadas à medida que, sem medo, me permito mudar.

Dessa forma, dependendo de minha condição espiritual, emocional e psicológica no momento, a Páscoa nunca será uma simples festa que se repete todo ano, sempre com as mesmas coisas e ritos, pois os sentimentos vivenciados nos darão uma nova visão e percepção. Nos damos conta também que, como Cristo, precisamos ressuscitar. Primeiramente devemos morrer para as coisas ruins que descobrimos durante todo o percurso reflexivo, que nos impedem de sermos felizes, para então ressuscitarmos para as coisas que realmente nos tornam mais felizes e mais humanos, indo além dos bons propósitos de uma mágica e fugaz festa de Reveillon.

A cada ano a Páscoa terá um brilho diferente, uma surpresa agradável se, sem medo, nos abrirmos para o novo. E o Novo mora em você, mora em mim e em todos nós. Só precisamos rolar a pedra que nos impede de sair e de ver o Sol e o seu brilho escondido em cada pessoa; de sentir o cheiro das flores e de um gostoso bolo de fubá da vovó; de ouvir os cantos dos pássaros, cachoeiras e de uma boa e velha música; de tocar em toda criação divina e humana também, para assim declaramos bem alto que existe uma Vida Nova.

A passagem, portanto, acontece neste momento. Em poucas palavras, passamos da morte à vida. Se de repente você se deu conta que não aproveitou nada da quaresma para refletir sobre sua vida, não percebeu que precisava mudar certas atitudes, morrer para certos vícios e ressuscitar para alguns valores, não temas! Experimente fazer essa passagem no dia de hoje. Não tenha medo… Coragem!

Sisifo

Garanto que os chocolates e os ovos de páscoa terão um sabor diferenciado neste domingo, não porque o chocolate seja de uma outra marca, mas porque você estará diferente, isso se você se permitir. Pois lembre-se, a decisão de rolar a pedra continua sendo sua!

Nós do “vivopelavida” desejamos a todos os amigos e amigas

UMA FELIZ PÁSCOA, UMA FELIZ PASSAGEM!

Forte abraço,

Pedro Jr.

¹ C.I.C., parágrafo 1169

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