Não faço média para poder fazer mídia.
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E não é que alguém ouviu as minhas preces?… Há algum tempo eu resmungava aqui de curiosidade por imaginar como teria sido o “encontro improvável” entre Zeca Baleiro e Pe. Zezinho, num evento ocorrido em S. Paulo em 2005. Pois não é que pouco tempo depois colocaram este videozinho no Youtube?..
É um trecho da música “Eu tenho fé“, do Pe. Zezinho, que o Zeca Baleiro “desenterrou” do LP Estou pensando em Deus, de 1972. Época em que ele ainda era criança, e a voz do jovem padre ecoava da vitrola levando um pouco de paz à sua casa, como levou à minha… e ainda leva.
Aos mais nerds, provoco inveja dizendo que lá em casa (na dos meus pais) tem o LP original, tal qual essse aqui. Fica lá guardadinho junto com os outros, só esperando eu chegar de viagem pra limpar a agulha e ficar curtindo a saudade de uma época que não vivi… Época em que ele falava para os jovens, com canções calmas que nem sempre agradavam os mais libertários, mas já deixavam os tradicionalistas de cabelo em pé. Em que ele reconhecia: “Eu sei que da verdade eu não sou dono” – mas isso nunca foi problema. As canções serenas e fortes, daquela paz inquieta toda, já transmitiam, por si, a Verdade.
Veja o videozinho, acho que você vai entender. E sim, eu vou mandar uma mensagem pra quem o postou, perguntando se não tem também “Heavy Metal do Senhor” na voz desses dois Zés pra mostrar pra gente… Afinal, Deus canta ou não canta?
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Por Pe. Zezinho, scj
Chamava-se Cristina e tinha 23 anos e uma história de marejar os olhos. Família de onze irmãos. Das treze pessoas sobraram ela e dois irmãos, um dos quais não via há cinco anos. O pai fora morar com outra depois de encher a mãe de filhos. Fez mais três na outra matriz. Morreu aos 50 anos de cirrose hepática, a mãe morreu de complicações no pulmão.
Um por um os irmãos foram morrendo: Numa só noite dois irmãos foram esfaqueados; quatro deles em três anos por atropelamento, overdose, ataque epiléptico e doença que ela nem sabia dizer qual. Para resumir: ela e o Cristiano só tinham um ao outro. Ele com dezesseis anos, dependente dela. Queria uma ajuda porque Cristiano andava mexendo com maconha e ela não podia perdê-lo. O rapaz deu de não mais estudar nem trabalhar.
O dinheiro do aluguel mal dava para se manterem. Uma escola mudaria o Cristiano. Fiquei olhando aqueles olhos tristes e vermelhos de chorar, pelo único irmão que lhe sobrara. Indiquei um grupo católico que ajudava rapazes drogados. Conseguimos internação. Ontem fiquei sabendo que há 6 meses o rapaz morreu afogado em Santos.
Sobrou a Cristina. Veio me ver. Está envelhecida aos 27 anos.
Só no mundo e literalmente só. Pediu licença e fez-me uma pergunta:
- Deus quis tudo isso, padre?
Se eu fosse da linha fundamentalista, iria citar umas 20 frases da Bíblia, para dizer que Deus sabe o que faz e que isso tudo foi para o bem. Como minha fé não tem resposta para tudo , respondi:
- Gostaria de saber porquê, mas não sei. Gente como você Cristina, faz a gente repensar o conceito de vida e de Deus. Agora você sofre. Daqui a 15 anos teremos outras respostas. E quem sabe você estará me explicando a dor da cruz.
Apertou-me, abraçou-me e disse:
_ Não lhe contei. Estou namorando e vamos nos casar no fim do ano. Reze por nós.
E eu…
_ Olha aí uma resposta!
26/11/2007
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Por Pe. Zezinho, scj.
O que houve com Susan Boyle, voz fenomenal, 47 anos, internada em maio de 2009 com sinais de colapso nervoso e com a menina Maísa, 7 anos, que chorou duas vezes por sentir-se deslocada diante das câmeras que ela parecia dominar; o que houve com centenas de pessoas a quem a fama feriu por alguns momentos ou para sempre, merece reflexão.
A notoriedade não é para qualquer pessoa nem para qualquer idade. Há formigas que carregam pesados fardos e chegam ao formigueiro. Outras, sucumbem à caminho, ou abandonam a carga. Têm acontecido com cantores, artistas, sacerdotes, jogadores e atletas. A mídia é veículo, mas pode se tornar um fardo acima da capacidade da pessoa. Isso explica os desvios de conduta de alguns jogadores de futebol que jogam tudo para o ar e tiram férias por própria conta; também artistas que abandonam o set de filmagem e vão embora cuidar de sua vida pessoal; também os religiosos que rompem com a vida espiritual pregressa e partem para o seu projeto pessoal, e isso, em todas as igrejas. 
Foram milhares os famosos feridos pela fama. Suicídios, crimes, desrespeito à palavra dada e aos contratos assinados, graves desvios de conduta, sucessivos matrimônios falidos, perda de rumo, graves problemas com a lei ou com o seu público mostram que, tanto entre eles, os notórios e famosos, quanto entre os não notórios cansados de algum fardo, há feridas incuráveis. Mas o drama ganha dimensões catastróficas quando alguém galgou os degraus da fama.
Álcool, drogas, superdoses de medicina, tendência à autodestruição estão na ordem do dia de muitos famosos; não porque são famosos, mas porque no caso deles, a fama tornou-se peso impossível de administrar. Pensaram controlar e acabaram controlados. É que ninguém fica famoso sozinho. Há todo um mecanismo de marketing atrás da fama. É esse mecanismo que sustenta os famosos que, desde o começo, se revela maior do que a pessoa promovida.
Os famosos são mais levados do que imaginam ir. Como a criança no carrinho dos tutores que não deseja ir onde a levam, alguns famosos esperneiam, querem fugir do contrato, tentam saltar fora e arcar com menos compromissos, mas nem sempre conseguem. “The show must go on” dizia-se em Hollywood. Pararam de dizer, mas ainda o fazem. Em outras palavras, vale o show e não o artista, nem mesmo o artista número um! Há milhões de dólares em questão!
Aí a fama começa a doer. E é sofrimento mortal que alguns tentam amenizar com drogas. Em alguns casos, como o de Elvis Presley, Marilyn Monroe e Michael Jackson e Elis Regina, que perderam o controle do que ingeriam e do pastor Jim Jones que perdeu o controle da fé que anunciava, chega-se ao ponto do não retorno. Algum dia virá a super-dosagem. O tristemente famosos pastor matou-se e matou mais de 800 fiéis ao ver que sua Jonestown corria o risco de não dar certo… Não soube voltar atrás. Apostara demais no seu projeto.
Crianças pagaram um alto preço pela notoriedade. De Shirley Temple a Maísa, há que se distinguir o que para uma criança é brincadeira e quando deixa de ser. No caso de Maísa, a simpática e prendada menina de sete anos, sinalizou com clareza que a brincadeira do ancião e famoso apresentador tinha ido longe demais. A brincadeira dele a feriu. Shirley Temple que, na sua época, encantou milhões de cinéfilos, amargou um terrível ostracismo ao deixar a infância. Com ela, Pablito Calvo e centenas de crianças midiáticas. A vida se lhes mudou radicalmente depois daqueles dias de holofotes.
Marilyn Monroe, Janis Joplin, Elvis Presley, Judy Garland, Michael Jackson, Elis Regina, Cássia Eller, quinze ou vinte famosos brasileiros, são apenas alguns dos mais conhecidos entre os mais de mil nomes de pessoas famosas que por um momento, ou por anos a fio perderam o controle e a paz. O caso da subitamente famosa Susan Boyle que, vivendo fama súbita de algumas semanas, precisou de ajuda logo após ter perdido uma competição, mostra que, às vezes, o peso da fama tira a pessoa do seu eixo.
Não acontece apenas no mundo artístico. Jogadores de futebol, atletas e até religiosos guindados à fama perderam com facilidade o referencial e mudaram radicalmente de postura. Pensavam controlar a publicidade, mas foram por ela controlados. A fama, tanto quanto a mídia, são cavalos xucros. Feliz de quem consegue montá-la por anos a fio, sem cair. Na arena, a média é de cinco a oito segundos. Na vida, alguns passam décadas diante das luzes. Outros, porém, em menos de dois anos acabam cegos pelos mesmos holofotes que tanto cortejaram. A formiga cortara pedaço maior do que poderia carregar!
Quantos entre nós podem garantir que seriam mais fortes? Oremos pelos famosos. Alguns buscaram desesperadamente os pesos que hoje carregam. Outros não buscaram, mas descobriram-se famosos. Uns e outros sofrem. Mas quem quis a fama sofre mais. Muito provavelmente fez concessões que não deveria ter feito.
Fonte: www.padrezezinhoscj.com
(os grifos, as imagens e os links são nossos)
Tags: Fama, Maísa, Michael Jackson, Padre Zezinho, suicídio, Susan Boyle, vida


Citar o Pe. Zezinho no último “Pensamento do Dia” me fez ficar pensando um pouco nele… Verdadeira lenda vida da comunicação cristã, ou melhor, da música popular brasileira (quem mais teria ganho 25 discos de ouro, um de platina e um de diamante sem nunca ter aderido à grande mídia?) e mundial (é tido como “o padre cantor mais conhecido do mundo”), o cara é do raro tipo que consegue ser respeitado por todas as “alas” da Igreja Católica (e fora dela também) – com excessão, é claro, daqueles que não respeitam ninguém… E, apesar de tantos superlativos, é daquelas pessoas com quem vale a pena bater um bom papo, quem sabe tomar uma cervejinha (ou um vinhozinho, o que é mais provável…).
Pois ontem acordei lembrando, não sei por que, de uma musiquinha dele que ouvi apenas uma vez, há muito tempo, mas que ficou gravada na memória… Com as graças da Internet, achei-a. É de 1998, se chama “Canção ao Deus Cantor”:
Canção ao Deus cantor
(Pe Zezinho, scj)
Eu acredito
Que Deus existe e fez o mundo e tem amor
Eu acredito
Que o céu existe e lá no céu se canta e dança
Eu acredito
Que Deus faz versos e canções que os anjos cantam lá no céu.
Se Deus existe, ele é amor,
Se Deus existe, ele é cantor.
Eu acredito
Em fazer versos e poemas e canções.
Eu acredito
Em quem se senta a uma varanda e canta e canta.
Eu acredito
Que Deus faz versos e canções que anjos cantam lá no céu.
Por isso quando é nuvem negra eu canto paz
Por isso quando é céu azul eu canto mais
E quando escuto o mar cantar me chamar
Eu canto com o mar.
O universo é uma canção…
Por isso eu sei que Deus existe… e é cantor!
Uma canção simples, mas que pela credibilidade do autor tem certo “peso teológico”. “Se Deus existe, ele é cantor”. É o que ele acredita, e por vezes me pego pensando nisso também. Fala a verdade: a música é algo muito louco para ser simplesmente uma invenção humana. A mais universal das artes, o jeito mais globalizado de fazer desabrochar uma emoção, seja ela qual for. Acho que não tem forma melhor de pensar no conceito de “alma” do que imaginar alguém totalmente mergulhado, absorto, ao interpretar ou escutar uma música qualquer…
Pois essa musiquinha do Pe. Zezinho me remete a outra, de um doido manso lá do Maranhão, que atende pelo nome de Zeca Baleiro.
Heavy Metal Do Senhor
Zeca Baleiro
O cara mais underground que eu conheço é o diabo
Que no inferno toca cover das canções celestiais
Com sua banda formada só por anjos decaídos
A platéia pega fogo quando rolam os festivais…
Enquanto isso Deus brinca de gangorra no playground
No céu com santos que já foram homens de pecado
De repente os santos falam “Toca, Deus, um som maneiro!”
E Deus fala “Agüenta, vai rolar um som pesado!”
A banda cover do diabo acho que já tá por fora
O mercado tá de olho é no som que Deus criou
Com trombetas distorcidas e harpas envenenadas
O mundo inteiro vai pirar com o heavy metal do Senhor…
Do Senhor! Do Senhor!
Deus fazendo Heavy Metal, e o diabo copiando. Estranho? Bem, Rogério Feltrin, fundador do primeiro grupo de heavy-metal católico de que se tem notícia, o Rosa de Saron, escreveu no livro de memórias dos 20 anos da banda sobre a suposta “origem demoníaca do rock”:
“‘A arte é uma forma de expressão propriamente humana, nascendo de um talento dado pelo Criador e do esforço do próprio homem’ (Catecismo da Igreja Católica, nº 2501).” Ou seja, “o demônio nada cria, no máximo destrói”.
E ora vejam: este livro, chamado “Rock, Fé e Poesia“, tem o prefácio de ninguém mais, ninguém menos que ele – o Pe. Zezinho, que, apesar de não fazer mais músicas “antenadas” com o mundo jovem já há algum tempo, afirma sua admiração por um rock’n roll bem feito: “Chego a imaginar uma ópera-rock baseada no Dives in Misericórdia. João Paulo II bem que o merecia! Ele viu valor nesse gênero de música”.
Ok, ok… Mas daí a imaginar Pe. Zezinho cantando “Heavy Metal do Senhor” seria demais, não é?
Não é?…
Pois…
Eis que, no longíquo ano de 2005, num congresso em São Paulo, eu recebo um folhetinho com programações culturiais da cidade e, ao folhear, me deparo com uma foto do bom e velho padre com a seguinte legenda: “A série ‘Encontros Improváveis’ reúne Pe. Zezinho e o cantor e compositor Zeca Baleiro no palco do CCBB”.
Sim. Esses dois já dividiram o mesmo palco. Cantando, contando casos e jogando conversa fora. Era um projeto que reunía as parcerias mais inusitadas, como Falcão & Zé do Caixão, Zé Rodrix & João Gordo, Lucinha Lins & Elke Maravilha… Mas, buscando pelo Google, o único comentário que achei sobre o encontro entre Baleiro & Zezinho foi que o Zeca, assim como o idealizador do projeto, “foi muito influenciado na infância” pela música do Pe. Zezinho, fato que justificou a escolha da dupla.
O que aconteceu naquele palco? Como não pude ir, só me resta alimentar a curiosidade mórbida. Se você, caro leitor, por um acaso qualquer, assistiu a esse encontro improvável, por favor atenda nossa súplica: descreva-nos como foi o Heavy Metal do Senhor. Sim, porque essa não pode ter ficado de fora do repertório. Nem que tenha sido numa versão mais light… Aliás, light? Não, obrigado. Assim como o Zeca, eu destesto Coca – e música – light. Seja música sacra, heavy metal ou bossa nova banquinho-e-violão, tem que vir de dentro.
Tem que ter alma.

Boa semana!
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Outro dia fui numa peixada com meus pais. Nada demais, uma reunião de amigos que jogam bola juntos – tilápia frita, arroz e pirão. Hum… mas tava bom, viu!…
Conversa vai, conversa vem… Lá pelas tantas, o papo caiu nas boas lembranças de passados simples, mas felizes. Me lembrei que uma das melhores épocas da minha infância foi justamente no ano em que moramos na pior casa de todas. Eu tinha 4 anos, foi quando chegamos (eu, meus pais e meu irmão) em Carangola. A coisa não era fácil, meu pai só dormia em casa de 15 em 15 dias, ele trabalhava em outra cidade pra conseguirmos pagar o aluguel – e dava uma saudade doída dele… Era uma casinha velha caindo aos pedaços, no fim de uma rua sem saída que dava pra uma trilha no meio do matagal. Atrás tinha um pequeno barranco, ao lado um terreno abandonado, do outro lado um córrego bem sujinho. Ou seja, barata era bicho pequeno pra aparecer por lá… não me lembro bem dos ratos, mas não me esqueço do meu pai matando as aranhas caranguejeiras. Dava medo!
Além disso, a casa não tinha forro embaixo do telhado, que por sua vez não tinha uma telha nova. Ou seja, impossível ficar livre das goteiras. Quando não era goteira, era cupim: aquele pozinho de madeira caindo do teto bem em cima da gente… Um dia meu irmão amanheceu encharcado, minha mãe pensou que tinha feito xixi na cama, mas era goteira…
Mas era o máximo. Brincar na rua à vontade, às vezes no terreno baldio; fazer “arte” com o barro do quintal, pique-pega nos corredores ao redor da casa. Ajudar o pai a pegar adubo no pasto lá atrás, pra por na hortinha que ele fez do lado da varanda dos fundos. Pegar goiaba direto do pé que cresceu no quintal. Se vislumbrar com a aventura que era cada vez que chovia: os móveis da casa arredados, panelas pra todo lado, aquele ping-ping chatinho…
Eu era tão feliz que minha pele nunca era completamente branca: estava sempre cheia de manchas e manchas de mercúrio-chromo, tudo vermelho. Um dia eu disse a uma amiguinha, vizinha de frente: “Graças a Deus, hoje eu só tenho um machucado, nesse joelho aqui!” E ela: “Graças a Deus, hoje eu não tenho nenhum machucado!”. Não acreditei: “Nenhum?” E ela confirmou: “Nenhum!” Achei fantástico aquilo, não sabia se seria capaz de algum dia atingir tal meta. Até que um dia, distraído na sala, analisei meu corpo e percebi que as últimas façanhas já tinham cicatrizado. Não acreditei, soltei um grito e fui correndo (literalmente) contar a novidade à vizinha – algo realmente perigoso numa casinha pequena, com os móveis apertados entre os cômodos. Fiquei na quina da mesa da cozinha. Uma pancada daquelas, bem no ombro. Não me esqueço: aquela foi a primeira vez que meu pai passou arnica – natural, embebida a álcool – num machucado meu, quando estava difícil dormir de tanto que o troço tava doendo à noite. Se fosse hoje em dia, provavelmente os vizinhos teriam chamado o Conselho Tutelar ao acordarem de noite com aquela potência sonora que só as cordas vocais da primeira infância conseguem atingir: “Aiiiiiii paaaaaaaaiiiii!!!”. Aquela doeu.
No Natal montamos um presepiozinho antigo, que fora da minha bisavó (e que montamos até hoje, aqui em casa). Meu pai colocou um abajur em cima pra iluminar, e brincou: “Abre e fecha o olho, pra parecer pisca-pisca!” Dormi cedo, acordei no começo da madrugada, os adultos ainda acordados: “Papai Noel já passou??” E a minha mãe com aquele sorriso: “Já sim!!” Naquele Natal eu não havia pedido nada específico, mas ganhei um monte de coisa: carrinho, um joguinho qualquer, bolinha perereca-voadora (daquelas de borracha que você joga na parede e ela volta com a mesma força, seja qual for o infeliz objeto ou pessoa que estiver em frente), e sei lá mais o quê… Tive que segurar os gritos de alegria, pra não acordar meus primos que dormiam na sala. No outro dia meu pai me explicou que Papai Noel não existia. Estranhei aquela história toda: quer dizer então que os pais do mundo inteiro conseguiam enganar os filhos todo Natal? Difícil de acreditar… Mas tudo bem. O próximo Natal não seria menos feliz.
Eu tinha apenas 4 anos, mas sou capaz de passar o dia relembrando histórias daquela época, com direito a detalhes novos, que não me lembrava há muito tempo. E olha que foi apenas um ano vivendo lá. Já mudamos de endereço inúmeras vezes, mas aquela foi a única vez em que chorei. Chorei de verdade, com o coração realmente apertado. Mesmo sabendo que iríamos para uma casa muito melhor…
Ás vezes preciso me lembrar dessa época. Me lembrar, sobretudo, de tanta gente que passa muito mais aperto do que nós já passamos, e estranhamente conseguem ser até mais felizes. Hoje eu vejo o quanto era sofrido morar lá, e o quanto seria cada vez mais difícil continuarmos. Mas, naquela época, eu só enxergava o que era o mais importante, o essencial. Não é função das crianças olhar o futuro ou resolver os problemas – para isto o mundo está cheio de adultos. Elas servem para nos lembrar da existência do céu…
Ouvindo Pe Zezinho e Silvio Brito: “Faltava tudo, mas a gente nem ligava”…
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