Mundo

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Faz muito tempo que tenho relutado em escrever este pequeno post, não pelo texto em si, mas pelo seu conteúdo simbólico.

Ele marca uma espécie de retomada, um voltar a partir de outro ponto. Já dizia um velho provérbio latino que “O tempo muda e nós mudamos com ele“.

Acredito que também mudei um pouco nesse tempo em que estive um pouco de fora, acompanhando o site com relativa distância. Aconteceu que em um belo dia eu resolvi seguir o conselho de nosso “ADEVOGADO” e curtir uns momentos de necessário silêncio.

Muita coisa aconteceu neste intervalo, e talvez a frase que mais sintetize o meu espírito nesta retomada é: “Não tenho nenhum compromisso com as minhas idéias, o meu compromisso é com a verdade”, do genial Anísio Teixeira.

Não sei exatamente como será o prosseguimento das minhas idéias, mas que prossigam.

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fernando sabino(Fernando Sabino)

Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta para o céu com o dedo:

- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?

Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.

- Mas então o céu não é o teto do mundo?

- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o próprio ar. O Japão fica é lá embaixo – e apontei para o chão:

- O mundo é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum país não,  só o céu mesmo, mais nada.

Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:

- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem mais nada…

Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.

Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação japonesa, feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado –  e  assim  que  me  vi  só, tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova aquisição.

globo terrestre

Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias, onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou ficando bom em geografia.

Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o mundo.

De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus… Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação ao longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para lhe enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a nossa pobre humanidade.

Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta que  meu  filho Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

mundo

(Originalmente publicada na coletânea “Deixa o Alfredo falar”, de 1976)

Com o mundo nas mãos
Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta
para o céu com o dedo:
- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?
Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.
- Mas então o céu não é o teto do mundo?
- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o
próprio ar. O Japão fica é lá embaixo- e apontei para o chão:- O mundo
é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum não,  só
o céu mesmo, mais nada.
Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:
- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem
mais nada…
Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio
esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá em-
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baixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes,
andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.
Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi:
um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação  japonesa,
feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O
menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a
Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar
doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo
se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui
convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe,
por exemplo, que faz um ventinho engraçado-  e  assim  que  me  vi  só,
tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova
aquisição.
Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que
a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de
penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os
Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem
me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a
confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem
Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A
Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim
apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha
coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para
que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias,
onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo
de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou
ficando bom em geografia.
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Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a
quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é
logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê
quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em
compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o
Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o
mundo.
De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o
globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se
escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja
um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com
meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do
tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto
da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios
de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos
continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado
de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus..  .  Tudo  isso    pequenino,
insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se
maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação  ao
longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da
eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo
caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para  ele  enviar
através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a
nossa pobre humanidade.
Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja
redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta
que  meu  filho  Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório,  me
arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

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G.K. Chesterton

“O que está errado com o mundo é que nós não nos perguntamos sobre o que está certo”

G. K. Chesterton

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Gandhi

De modo suave, você pode sacudir o mundo.

Mahatma Gandhi

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Pai e Filho

Todo mundo se pergunta que mundo deixaremos para nossos filhos. Mas deveríamos nos perguntar que filhos deixaremos para o mundo.

Anônimo

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