Limites

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Enquanto vou acordando aos poucos, ouço a conversa lá na sala. Minha tia:

“…e eu sempre me perguntava quando é que eu ia comer a coxa do frango…”

Ela cresceu numa geração em que os mais velhos eram super-respeitados, criança não tinha vez. A elas restava o peito, a asa, o pé do frango… E, depois, foi vendo florescer uma época em que os filhos passaram a tomar conta da casa, e exigem a coxa com unhas e berros.

Felizmente hoje não é preciso mais tantas divisões, já vendem frango congelado em pedaços, pra uma distribuição de riquezas mais igualitária entre as “classes” familiares (hoje quem não tem vez é o frango, coitado, criado de forma cada vez mais desumana – ou “desfranguínea”, sei lá…). Mas, naqueles casos em que não há indústria alimentícia que dê jeito, alguns filhos literalmente matam os pais – e quem mais estiver pela frente – para conseguirem o que querem…

Isso me faz lembrar uma constatação de vários estudiosos do nosso tempo – inclusive dos psicanalistas, que em outra época tanto foram citados como responsáveis pela “liberalização” de tudo… Querendo ou não, a imagem de Freud sempre foi uma espécie de Che Guevara das rebeliões de costumes. Contra todas as repressões psicológicas, havia sempre quem citasse um “Freud diz”… “Freud explica”… Abaixo o machismo, a repressão sexual, a forma autoritária de criar os filhos… Abaixo tudo, acima a liberdade!

E foram mudanças importantes, não há como negar… mas quem realmente leva Freud e tantos outros estudiosos a sério sabe que hoje o problema é outro. Muitas revoluções, Pílulas e Conselhos Tutelares depois, a questão que mais tira o sono de quem estuda e cuida de pessoas e da sociedade em geral, embora ainda haja muito a ser “desreprimido”, é exatamente a falta de limites. Pulamos de um mundo altamente repressor, o do pé do frango, para um em que a coxa não é mais o resultado de uma conquista, mas uma exigência inegociável, doa a quem doer. Ninguém passou pelas lutas e pelo idealismo de outrora para chegar às conquistas, não vivenciamos as dificuldades, nem conhecemos a fundo o valor simbólico que uma simples coxinha tem. Mas já nascemos comendo coxa, então ai de quem nos vier com moela…

Esquecemos, no entanto, que nem sempre a falta de coxa é repressão. Ás vezes é só um limite, algo não só natural, mas também necessário para nós, reles humanos. Somos delimitados por natureza, sempre há uma criptonita a nos lembrar que até a maior das forças tem seu limite. A busca por descobri-lo, é claro, pode ser infinita, e isso é a vida: sempre desconfiar do dito “impossível”… Mas há um limite que somos nós mesmos que devemos demarcar: a fronteira do território alheio.

Enquanto não entendermos isso e nos esforçarmos por ensinar aos nossos filhos (para que não se tornem os roubadores de coxinhas de amanhã), vamos cansar de ouvir educadores, psicanalistas, psicólogos, sociólogos e esses “milionários” dos livros de auto-ajuda sempre baterem na mesma tecla: nossa sociedade carece de limites. Há tempos o problema já não está tanto no freio, mas no acelerador. Correr é bom, mas é preciso lembrar que a estrada não foi feita só pra gente. Tem mais gente no caminho.

Muito mais…

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