Andrej me escolheu e pediu minha mão
Aconteceu esta tarde, entre cinco e seis
Não me lembro da hora, porque não olhei o relógio,
Nem procurei vê-la na velha torre municipal.
Em momentos como esse não se liga para a hora
São momentos que fazem o tempo parar dentro de nós.
Mas, mesmo que me ocorresse olhar a velha torre,
Não poderia fazê-lo, porque teria de levantar
O olhar acima da cabeça de Andrej.
Estávamos rodeando a praça, à direita, quando ele disse:
“Quer ser a companheira de toda a minha vida?”
Disse assim mesmo. Não foi um “Quer ser minha mulher?”
Mas um “a companheira de toda a minha vida”.
Portanto o que tencionava fora bem meditado.
E o disse olhando para longe, como se tivesse medo
De ler nos meus olhos e, ao mesmo tempo, como
Para dizer que diante de nós havia uma estrada sem fim
Ou pelo menos haveria se eu respondesse “sim”.
Respondi “sim”. Não imediatamente,
Mas depois de alguns minutos,
Nos quais não fiz nenhuma reflexão
Nem lutei contra meus impulsos.
A resposta foi quase desnecessária.
Sabíamos ambos que ela se projetava no passado
E se desdobrava rumo a um futuro distante
Que se infiltrara na nossa existência como um novelo
Como o fio que determina o desenho do tecido.
Eu me recordo: Andrej não voltou logo os olhos para mim,
Mas olhou longamente para a frente, como se estivesse
Observando a estrada que iríamos percorrer juntos.
(Início de “A Loja do Ourives”, peça de teatro publicada em 1960 por um padre polonês, sob o pseudônimo de Andrzej Jawien)
Dedicado a Luís e Sandra, que adentraram sua lua-de-mel em 1º de maio, o exato dia da festa de beatificação do autor. Sim, ele era Karol Wojtyla, depois conhecido como papa João Paulo II.
(Fonte: Revista Manchete Especial, 1980. Créditos da foto: Artífice Studio)






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