Foi hoje à tarde. Estava muito calor. Eu estava muito cansado. E ainda não estava indo pra casa… Tinha ainda uma reunião num bairro distante.
_ Mamãe, dentro da sua barriga tem uma… uma sementinha?
_ Tem sim…
_ Que foi… que foi o papai que colocou, né?
_ Foi.
_ E vai crescer e crescer… e virar o meu irmãozinho!!
Ela não aceitou o acento que ofereci. Não a Clarinha, mas sua mãe. Recusou, disse que o ponto em que iam descer estava próximo. Recusou. Mesmo carregando a sementinha na barriga.
Deveria ter insistido mais. Com toda a certeza. Mas nem foi o cansaço que me impediu; foi a falta de jeito mesmo, perante a simpatia daquela mãe. O cansaço já tinha ido embora. Ou melhor, ainda estava lá… Mas o sorriso daquela menina deixou-o muito mais leve, e – por que não? – prazeroso…
_ Segura, meu anjo! Segura firme!
É nessas horas que eu gostaria de conseguir ser um pouquinho mais extrovertido com estranhos, insistir em algo que é óbvio: aquele lugar não era meu, era daquelas duas que estavam ali em pé, espremidas no ônibus cheio, e do garotinho-semente que, apesar de provavelmente estar mais confortável que todos nós ali, também merecia sacudir um pouco menos. Mesmo que os lugares reservados para grávidas estivessem lá na frente, ocupados por estudantes que conversavam, animadas. A barriga ainda estava pequena, vale dizer; provavelmente só eu, enxerido ouvindo a conversa alheia, havia percebido que tinha uma “sementinha” ali dentro…
Mas não deu tempo de pensar muito mais. Clarinha logo desceu com sua mãe, me deixando um sorriso no rosto, e um pequeno peso nos ombros por não saber como retribuí-lo…
O mínimo que posso fazer, pensei depois, é tentar passá-lo para frente. Não vai ser a mesma coisa, mas pelo menos é uma tentativa.
Que nossa semana seja, então, repleta de sorrisos de crianças! Se não de verdade, ao menos simbolicamente…
Há alguns dias recebemos, orgulhosos, um e-mail de um sujeito chamado Carlos José e Silva Fortes, mais conhecido como “Casé”, promotor de Justiça e membro da CPI da Pedofilia do Senado Federal. É ele, junto com o senador Magno Malta e outros corajosos, que estão encabeçando a campanha “Todos contra a Pedofilia”, que foi citada pelo Pe. Fábio de Melo na entrevista que deu ao Programa do Jô no dia 21/05/09.
Jô, Pe. Fábio e a Campanha contra a Pedofilia (a partir de 4:28)
O contato do Casé foi devido ao nosso post “Fábio de Melo, Jô e Pedofilia”, em que comentamos a dita entrevista. Na época, chamou-nos atenção o fato de, entre tantas discussões que o encontro gerou, vermos poucos comentários sobre a “gafe” de Jô Soares, que chamou a campanha contra a pedofilia de “supérflua” por, supostamente, “ninguém ser a favor da pedofilia”. O apresentador, considerado tão “inteligente” por tantos, chegou a comentar que ser contra a pedofilia é tão óbvio quanto ser contra o câncer.
Pois Casé enviou imediatamente um e-mail ao Programa do Jô, que infelizmente até hoje não foi respondido. Resta-nos, então, ajudar a divulgar esse verdadeiro desserviço que o tão aclamado apresentador global prestou a uma causa tãoséria, sem nem ao menos ter a humildade de reconhecê-lo…
Seguem alguns trechos do e-mail enviado. Todos pela Vida, e contra a Pedofilia!
Boa noite, Jô!
Estou assistindo neste momento sua entrevista com o meu amigo Padre Fábio. Eu sou o tal Casé, da campanha “Todos contra a Pedofilia”, de quem ele falou.
Sou Promotor de Justiça em Divinópolis/MG, Curador da Infância e da Juventude, e fui convidado para trabalhar no grupo de apoio técnico da CPI da Pedofilia, o que venho fazendo desde abril de 2008 (com muito sacrifício pessoal… a Tereza – minha mulher – que o diga!).
As camisas dizem “Todos contra a Pedofilia” porque, infelizmente, tem gente que é a favor! Acredite!
Temos várias e várias páginas na internet que estimulam esta prática, que não é doença, mas preferência sexual. Ensinam a assediar crianças (groomig), esconder o caso dos pais e até praticas sexuais explícitas.
Existe até um partido (na Holanda) que visa legalizar a relação sexual com crianças.
Existem excursões turísticas para o Brasil (e outros países) que objetivam turismo sexual pedófilo.
Entre outras coisas…
Aliás, a campanha tem dado certo. Basta olhar os jornais e revistas. O número de casos de abuso sexual cresceu significativamente, não porque ocorram mais, mas porque estão sendo denunciados (no artigo que te mando tenho algumas estatísticas)
A CPI já conseguiu aprovar uma Lei (11.829/2008), que criminalizou (de vários modos) a pornografia infantil. O que era uma lacuna na nossa Lei. (…)
A recente operação Turko, contra a pornografia infantil (especialmente no Orkut) foi muito bem sucedida, graças a essa Lei (11.829/2008), escrita por nós e entregue pessoalmente ao Presidente Lula. Que aliás recebeu um prêmio de personalidade do ano da União Internacional de Telecomunicações (UIT), pelo trabalho do governo na luta contra a pedofilia na internet, por conta da sanção dessa Lei. (…)
A criança que é vítima de pedofilia tem atacada drasticamente sua auto-estima, via de regra se torna depressiva e apresenta seqüelas para toda a vida, tendo atingidos, pois, seus direitos à saúde (também mental), à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização e à cultura. Além disso, as estatísticas mostram que há enorme tendência de que o abusado na infância se torne um abusador na idade adulta.
Por tudo isso sou contra a Pedofilia… e venho lutando em favor da criança.
Também sou contra o câncer de mama (até tenho a camisa do “alvo”), mas ninguém e a favor mesmo né? Rss…
Mas ser contra a Pedofilia é mais difícil… envolve luta e dor. Tristeza ao se deparar com a miséria humana. Alegria ao salvar ou recuperar uma criança.
Padre Fábio e muitas outras pessoas (famosas ou não) vem ajudando nessa luta.
Se tiver um tempinho, leia o artigo que mando em anexo. Visite os sites.
Um grande abraço!
Do seu admirador…
Casé – Carlos José e Silva Fortes
Promotor de Justiça – Ministério Público de Minas Gerais
Curador da Infância e da Juventude – Divinópolis/MG
No áudio acima, Casé dá mais detalhes de tudo que a CPI e a campanha contra pedofilia vêm fazendo. O artigo enviado por ele ao Jô, com mais informações, pode ser lido aqui.
Outro dia fui numa peixada com meus pais. Nada demais, uma reunião de amigos que jogam bola juntos – tilápia frita, arroz e pirão. Hum… mas tava bom, viu!…
Conversa vai, conversa vem… Lá pelas tantas, o papo caiu nas boas lembranças de passados simples, mas felizes. Me lembrei que uma das melhores épocas da minha infância foi justamente no ano em que moramos na pior casa de todas. Eu tinha 4 anos, foi quando chegamos (eu, meus pais e meu irmão) em Carangola. A coisa não era fácil, meu pai só dormia em casa de 15 em 15 dias, ele trabalhava em outra cidade pra conseguirmos pagar o aluguel – e dava uma saudade doída dele… Era uma casinha velha caindo aos pedaços, no fim de uma rua sem saída que dava pra uma trilha no meio do matagal. Atrás tinha um pequeno barranco, ao lado um terreno abandonado, do outro lado um córrego bem sujinho. Ou seja, barata era bicho pequeno pra aparecer por lá… não me lembro bem dos ratos, mas não me esqueço do meu pai matando as aranhas caranguejeiras. Dava medo!
Além disso, a casa não tinha forro embaixo do telhado, que por sua vez não tinha uma telha nova. Ou seja, impossível ficar livre das goteiras. Quando não era goteira, era cupim: aquele pozinho de madeira caindo do teto bem em cima da gente… Um dia meu irmão amanheceu encharcado, minha mãe pensou que tinha feito xixi na cama, mas era goteira…
Mas era o máximo. Brincar na rua à vontade, às vezes no terreno baldio; fazer “arte” com o barro do quintal, pique-pega nos corredores ao redor da casa. Ajudar o pai a pegar adubo no pasto lá atrás, pra por na hortinha que ele fez do lado da varanda dos fundos. Pegar goiaba direto do pé que cresceu no quintal. Se vislumbrar com a aventura que era cada vez que chovia: os móveis da casa arredados, panelas pra todo lado, aquele ping-ping chatinho…
Eu era tão feliz que minha pele nunca era completamente branca: estava sempre cheia de manchas e manchas de mercúrio-chromo, tudo vermelho. Um dia eu disse a uma amiguinha, vizinha de frente: “Graças a Deus, hoje eu só tenho um machucado, nesse joelho aqui!” E ela: “Graças a Deus, hoje eu não tenho nenhum machucado!”. Não acreditei: “Nenhum?” E ela confirmou: “Nenhum!” Achei fantástico aquilo, não sabia se seria capaz de algum dia atingir tal meta. Até que um dia, distraído na sala, analisei meu corpo e percebi que as últimas façanhas já tinham cicatrizado. Não acreditei, soltei um grito e fui correndo (literalmente) contar a novidade à vizinha – algorealmente perigoso numa casinha pequena, com os móveis apertados entre os cômodos. Fiquei na quina da mesa da cozinha. Uma pancada daquelas, bem no ombro. Não me esqueço: aquela foi a primeira vez que meu pai passou arnica – natural, embebida a álcool – num machucado meu, quando estava difícil dormir de tanto que o troço tava doendo à noite. Se fosse hoje em dia, provavelmente os vizinhos teriam chamado o Conselho Tutelar ao acordarem de noite com aquela potência sonora que só as cordas vocais da primeira infância conseguem atingir: “Aiiiiiii paaaaaaaaiiiii!!!”. Aquela doeu.
No Natal montamos um presepiozinho antigo, que fora da minha bisavó (e que montamos até hoje, aqui em casa). Meu pai colocou um abajur em cima pra iluminar, e brincou: “Abre e fecha o olho, pra parecer pisca-pisca!” Dormi cedo, acordei no começo da madrugada, os adultos ainda acordados: “Papai Noel já passou??” E a minha mãe com aquele sorriso: “Já sim!!” Naquele Natal eu não havia pedido nada específico, mas ganhei um monte de coisa: carrinho, um joguinho qualquer, bolinha perereca-voadora (daquelas de borracha que você joga na parede e ela volta com a mesma força, seja qual for o infeliz objeto ou pessoa que estiver em frente), e sei lá mais o quê… Tive que segurar os gritos de alegria, pra não acordar meus primos que dormiam na sala. No outro dia meu pai me explicou que Papai Noel não existia. Estranhei aquela história toda: quer dizer então que os pais do mundo inteiro conseguiam enganar os filhos todo Natal? Difícil de acreditar… Mas tudo bem. O próximo Natal não seria menos feliz.
Eu tinha apenas 4 anos, mas sou capaz de passar o dia relembrando histórias daquela época, com direito a detalhes novos, que não me lembrava há muito tempo. E olha que foi apenas um ano vivendo lá. Já mudamos de endereço inúmeras vezes, mas aquela foi a única vez em que chorei. Chorei de verdade, com o coração realmente apertado. Mesmo sabendo que iríamos para uma casa muito melhor…
Ás vezes preciso me lembrar dessa época. Me lembrar, sobretudo, de tanta gente que passa muito mais aperto do que nós já passamos, e estranhamente conseguem ser até mais felizes. Hoje eu vejo o quanto era sofrido morar lá, e o quanto seria cada vez mais difícil continuarmos. Mas, naquela época, eu só enxergava o que era o mais importante, o essencial. Não é função das crianças olhar o futuro ou resolver os problemas – para isto o mundo está cheio de adultos. Elas servem para nos lembrar da existência do céu…
Ouvindo Pe Zezinho e Silvio Brito: “Faltava tudo, mas a gente nem ligava”…
Seja você a favor ou contra a legalização do aborto, provavelmente concordará que o ideal deveria ser que ele não existisse. Digo “provavelmente” porque, acreditem, em alguns países não é raro encontrar quem considere esta uma prática natural, não mais do que uma espécie de “método anticoncepcional tardio”. Mas no Brasil, felizmente, todos parecemos estar [...]
Estou há 1 mês e meio morando em São Paulo. Antes disso, fiquei 7 meses em Campinas, vindo à capital pelo menos uma vez por mês. Ou seja, já deu pra sentir um pouco a “pegada” dessa cidade louca. Uma cidade em que, quem diria, eu nunca imaginei que estaria morando. “Já é muita gente, [...]
O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Fernando Pessoa Mônica e sua filha Giovanna, que nasceu com anencefalia: “Quem não tem vida chora?” (Conheça sua bela história aqui)
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