Felicidade

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Nessas férias estamos fazendo uma arrumação aqui em casa, dessas de revirar o fundo dos armários e se desfazer da papelada que fará mais bem ao planeta e ao nosso espaço doméstico se for parar em alguma usina de reciclagem. Aliás, já repararam como a maioria das cidades do nosso país trata a reciclagem de forma tão estúpida que, ao invés de instalarem uma coleta seletiva efetiva, relegam a função de separação do lixo aos pobres “catadores”? Antes eram os cachorros que reviravam o lixo e causavam preocupações na vizinhança. Hoje, somos rodeados por seres humanos “vira-latas”, que fazem disso o seu sofrido ganha-pão, sem as mínimas condições de higiene… e nos acostumamos. Achamos normal…

Mas, em meio a tantos papéis aqui em casa, não encontramos só lixo. Naturalmente nos deparamos com muitas preciosidades, e esta é a razão desse trabalho durar dias, semanas: impossível “achar” coisas tão significativas pra sua vida e não se absorver na descoberta. Meu primeiro caderno de redação, o primeiro livro que usei na escolinha, o primeiro desenho… Vamos nos embrenhando nessa viagem pelo passado, geralmente gostosa, às vezes um pouco triste.. mas sempre emocionante.

Meu pai, por exemplo, fez da leitura de suas próprias cartas um passatempo diário. Todo dia, na hora do almoço ou à tardinha, quando chega do trabalho, ele sobe no terraço e se põe a reviver coisas tão bem guardadas que nunca mais tinham sido lidas. Só no tempo de namoro com minha mãe foram 5 anos de cartas trocadas – fruto da distância que enfrentaram, sem nem ao menos um serviço telefônico decente à época…

Dia desses, à tarde, ele nos chamou à mesa. Queria compartilhar algumas dessas pérolas conosco, aproveitando uma das raras ocasiões em que a família toda estava em casa (somos quatro filhos, todos hoje espalhados por outras cidades): a carta em que ele pediu minha mãe em namoro, reflexões existenciais profundas que fazia consigo mesmo… Foi simplesmente impossível não ficarmos completamente emocionados junto com ele, que teimava em persistir na leitura mesmo com a voz completamente embargada…

Ao fim, nos deu aqueles papéis, dizendo para fazermos o que quiséssemos com eles. Pedi autorização para publicar aqui o trecho final de uma pesada carta endereçada ao seu próprio “cotovelo” – “para você, e só para você”. Eram meados de 1985, e ele estava passando por um longo período de angústia, envolto em problemas, sentindo mais do que nunca o peso de comandar uma família com dois filhos pequenos, e buscando em um colega de trabalho que passava por problemas maiores – o câncer do filho mais velho, que tinha, como eu, 3 anos na época – uma inspiração para enfrentar a vida. Estava no trabalho, escrevendo, quando resolveu ir à janela, olhar um pouco a rua.

A partir daí, deixo vocês, então, com ele.

Cheguei na janela agora há pouco e vi dois meninos, entre sete e onze anos, embrenhados na catação de papéis velhos. O mais novo deles estava com uma lata de doce vazia nas mãos e de quando em quando passava o dedo dentro dela e levava à boca. Senti pena, pena passageira, pois não é que dali a pouco ele colocou a latinha sobre o capô do meu “belo” carro? Aí senti raiva da irresponsabilidade do “moleque”. Aos seus sete anos já devia saber que a lata poderia arranhar a pintura de meu tão “valioso” veículo. Estava para chamá-los a atenção; parei, pensei, e concluí que um arranhão no meu “belo” carro não iria significar nada em comparação ao sorriso que eu iria apagar naquele rostinho sofrido mas que ainda sabia sorrir.

Desisti.

Carlos Roberto da Silva – Juiz de Fora, setembro de 1985.

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Queria fazer agora uma canção alegre
Brincando com palavras simples boas de cantar
Luz de vela, rio, peixe, homem, pedra, mar
Sol, lua, vento, fogo, filho, pai e mãe, mulher.

felicidade


Milton Nascimento

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Essa semana, em meio a tantas notícias ruins, uma me chamou a atenção dada a felicidade da história…

Quem é que nunca ficou com medo no primeiro dia de aulas do colégio? Confesso que até mesmo no mestrado, varei a noite acordado, devido a ansiedade do “primeiro dia“.

Essa semana, na Tailândia, um menino autista de 8 anos também ficou com medo do primeiro dia em uma escola para alunos com necessidades especiais.

No meio desse medo todo, ele acabou preso no parapeito de uma das janelas do prédio, podendo cair a qualquer momento.bombeiro_aranha

Foi neste momento que apareceu o “Herói“, o bombeiro Sonchai Yoosabai se vestiu de Homem-Aranha, aproximou-se e  disse ao menino: “o Homem-Aranha está aqui para salvá-lo, nenhum monstro vai atacá-lo”.

Nesse momento, o menino foi direto aos seus braços… Parece até desenho da Disney, não é?

Mas é vendo a criatividade, boa vontade e a dedicação de várias pessoas pelo mundo, que eu acredito que muita coisa ainda é possível…

Uma ótima semana!

Veja a história completa.

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propiciatorio

Estudando um pouco sobre a cultura e a religião judaica descobri, dentre outras coisas, um objeto interessante usado nas celebrações do Templo. É um instrumento parecido com uma bacia, usado nos rituais de sacrifício com a finalidade de conservar o sangue dos animais ofertados pelo povo que eram imolados pelos sumo-sacerdotes. Esse sangue era depois aspergido sobre os fieis como sinal de purificação do homem e expiação dos pecados.

Esse material “litúrgico” dos judeus era chamado de Propiciatório, que vem de propiciar, estar propício, favorável. Ou seja, a “bacia” estava ali para servir, para ser solícita; na prática, para guardar o sangue que era a “salvação” de muitas pessoas que sofriam diversos males. Essa era a crença daquele povo que buscava o conforto para suas almas fatigadas, suas mentes perturbadas e seus corpos oprimidos. Sintomas não muito diferentes dos de hoje – psicólogos e religiosos que o digam…

Não é verdade que o ser humano está em constante busca de um sentido pra vida? Buscamos e às vezes achamos… Seja na religião, nas filosofias, nas ideologias, nas magias ou qualquer outra manifestação. O importante é o encontro da integração do corpo, da mente, com o espírito. Daí então oferecemos em sacrifício o carneirinho ou boizinho – comprado com desconto com alguns cambistas do “Templo” (Jo 2, 14) – para recebermos em troca a tão desejada felicidade. Mas o que há de errado nisso?! Vou ser direto: Poucos, bem poucos, querem propiciar a alegria dos outros. Esquecem que isso é um dos maiores deveres de ser feliz. O propiciatório dos judeus, aos olhos de um leigo, não tinha validade. O sangue dos animais poderia ser derramado em qualquer tigela ou vaso porque, o atraente mesmo, era o rubro líquido salvívico que trazia o alívio.

O perigo na busca da felicidade pode ocorrer na concepção que temos dela. Talvez, na ânsia de possuí-la e de abrandar depressa nossos sofrimentos, damos espaço para um vírus microscópico, típico do homem moderno chamado egoísmo. O mercado do mundo fácil das religiões e as quimeras das ideologias (que se dizem desalienantes das classes) fazem o homem refém de ciclos viciantes de ilusão.

Muitos querem a paz, a revolução, a fama, o dinheiro, o conforto, a alegria, as soluções a qualquer preço. Ingressam num clube ou numa igreja e logo saem se essas não lhes garantir mais a prosperidade que queriam. E assim continuam vagando à procura de um jeito mais fácil de viver. Almejamos a salvação, mas não queremos ser o propiciatório da salvação.

Ser um propiciatório é ser um servidor. As luzes do mundo nem sempre apontam para o servente. Mas qual a verdadeira luz que precisa iluminar o nosso mundo? Deve ser por isso que o saudoso João Paulo II disse numa oração: “Francisco, o mundo tem saudades de ti”. O pobre de Assis, assim como tantos outros protagonistas da verdadeira alegria, descobriu que é dando que se recebe – mesmo que seja uma punhalada pelas costas – mas é também morrendo (para si mesmo) que ganhamos a vida eterna.

Como disse E. J. Hardy, citado outro dia neste site: “A felicidade se faz, não se acha”. Então, vamu que vamu!

Pedro Barbosa Lima Junior

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ideograma-felicidade

“A felicidade se faz, não se acha.”

E. J. Hardy

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