_ “O medo de altura não é o medo de cair; é o medo de saber que nada te impede de se jogar lá de cima”, dizia alguém…
Boto o pé no parapeito. É bom se apoiar, ficar mais próximo da pequena imensidão da vista do terceiro andar. Ver melhor tudo o que me circunda, lembrar que sou pouco.
_ “Do alto da pedra eu busco impulso pra saltar”, dizia uma música que não me saía da cabeça…
Todo aquele que procura uma verdade acaba, mais cedo ou mais tarde, descobrindo a primeira delas: a vida é mais forte que nós. Somos sempre fracos demais para encará-la. Não há relativismo que ignore isto, não há ego que suporte saber aquilo que tanto tenta esconder: a vida vence sempre. Nem que seja na hora da morte – eis, pois, seu triunfo maior! A morte é a vitória da vida: só morre quem está vivo. Não há como lutar contra o mais inevitável de todos os destinos. Ninguém tem esse poder.
E quanto mais se escancara essa verdade, quanto mais descobrimos nossa miséria e nossa inevitável derrota – na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza – mais nos sentimos desnudos, desarmados, acuados. Que posso eu diante de um tsunami, um raio ou um carro desgovernado? Quem sou eu para que a crise da bolsa não me atinja? Que é a ONU frente ao terrorismo suicida? Os direitos humanos frente à “lógica do mercado”?…
Que é o coração diante de uma louca paixão?
A mente diante do desejo?
A mãe diante do filho enfermo?
O diploma diante do desemprego?
Sim, até há como negar. Há como fingir, há como ofuscar. Há quem passe a vida num castelo de areia, faz-se rei. Mas a verdade – a Verdade! – é que o mar está lá. Hoje só ouço as ondas, mas um dia elas me alcançarão…
É preciso encarar o alto da pedra.
Da pedra se vê a imensidão do oceano, a batida das ondas, a vastidão do horizonte. Pisando na pedra vejo o quanto a vida é grande diante de minhas minhas idéias tortas. O quanto sou fraco e ela é forte. O quanto não tenho chance alguma.
É preciso pular.
Do alto da pedra vê-se outras pedras lá embaixo, onde posso cair. Mas também vê-se o mar.
Há como lutar e há como fugir. Há como pular. Há como sentir o vento a indicar o caminho. O vento sopra onde quer, não se sabe pra onde vai. Mas há como segui-lo…
Cair no mar. Ser um pedaço do oceano, nadar no infinito, consubstanciar-se naquilo tudo. Viver é escolher onde pular: pedra ou mar. Fugir da vida ou mergulhar nela.
É bom apoiar o pé no parapeito, aqui em cima. Curtir a paisagem. Não ter medo de altura.
Vivo de pequenos pulos… Um dia ainda dou um grande. Basta aprender que as asas do ser humano quem faz é o próprio vento…
Viver é mergulhar.
Amar é desarmar-se…
(originalmente publicado no Humanando)



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