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Tiririca

Outro dia estava assistindo à reprise do especial de 10 anos do Programa do Jô, no qual ele fez um bate-papo coletivo com alguns comediantes da “nova geração”. Uma das perguntas foi sobre os “limites” do humor. Até onde pode ir uma piada? Como fazer rir sem ofender, sem brincar com coisa séria demais, sem baixar o nível? No geral, a resposta dos convidados girou em torno do bom-senso e da própria graça como medida desse limite. Alguns disseram que, se algo é muito apelativo, acaba perdendo a graça por si.

Pois fui dormir pensando em como algumas coisas ruins podem, sim, fazer rir… Quem já foi vítima de bullyng, é gago, anão, fanho, etc, sabe o quanto algo que é extremamente sofrido para uns pode ser engraçado para os outros. Há momentos em que temos até consciência de que algo é sério, mas é difícil segurar a vontade de rir. É claro, muitas vezes o riso pode dar leveza a uma situação mais tensa, tornando-se “um bom remédio” – mas há um sério risco de deixarmo-nos levar por ele e esquecer que esse alívio não resolve o problema. É como um analgésico: ajuda – e muito!– a levar a vida, mas não cura a dor. Em muitos casos, ainda piora a situação, pois a mascara.

Quer ver? Dá uma olhada nesse videozinho de campanha eleitoral. É do Tiririca. Sim, ele mesmo.

Eu sou o Tiririca da televisão. Sou candidato a deputado federal. O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim, que eu te conto!
Vote em Tiririca. Pior do que tá, não fica!
O povo não é palhaço! Mas eu sou.

Impossível não rir desse cara. Ele mesmo parece não estar se agüentando com a maior piada que já contou na vida: se candidatar a deputado federal pelo maior colégio eleitoral do país (São Paulo), não como cidadão “real”, mas como o próprio personagem-palhaço, e ainda tirar um sarro mais do que explícito dos seus colegas políticos. A ponto de causar certo incômodo às alianças do seu partido…

É verdade: candidatos bizarros nunca foram novidade; só nessa eleição tem um monte. Mas o cômico é a crítica que ele faz, ao dizer coisas do tipo: “Estou aqui para pedir o seu voto ‘pusquê’ eu quero ser um deputado federal. Para ajudar os mais ‘necessitado’. Inclusive a minha família”. Muitos já fizeram isso em programas de humor, mas ele faz no próprio horário eleitoral. Ele não está fingindo ser um candidato, ele é um candidato. É de tirar o chapéu.

É muito engraçado, sem dúvida! Mas… o problema é o limite. O limite da piada.

Tiririca de ternoSim, porque… Ele pode ganhar. Tem grandes chances disso. Freqüentemente um ou outro candidato bizarro é eleito, muitas vezes ficando entre os mais votados do país. O povo vota na piada, no riso como remédio pra um problema sério. No analgésico, no alívio instantâneo de “tirar uma” com a cara dos outros “palhaços” que tanto nos passam a perna. E o Tiririca é o mais escrachado, é como se dissesse: “palhaço por palhaço, vote no mais engraçado”. E somos levados a premiar sua ousadia humorística, dando-lhe o voto.

Depois? Ah, depois… Bem, eu vejo duas cenas. Claquete 1.

Tiririca vence como o deputado mais votado do país, seus eleitores se matam de rir, o resto do país torce o nariz. Após eleito, no entanto, evita dar entrevistas, causando suspense. Na primeira seção do plenário, tira a roupa de palhaço, toma o microfone e faz um discurso sério, tão sério como ninguém nunca o ouviu falar antes. Usa o exemplo de sua eleição, como um personagem cômico, para mostrar aos seus colegas a falta de seriedade reinante no meio parlamentar, mostrando sincera indignação. E dirige-se inclusive ao eleitor, visivelmente emocionado: “vocês elegeram um palhaço. Mas não merecem ser tratados como tal. Para isso, só depende de quem colocam cá em cima. Por favor, não percam a esperança. Não desistam!”

Claquete 2: Tiririca é eleito, o povo se mata de rir, a mídia cai em cima fazendo perguntas sérias ao novo deputado, para as quais recebe as respostas mais hilárias possíveis. Após algumas semanas de piadas, no entanto, ele começa a sentir-se perdido em meio às ocupações do cargo, e pede auxílio a seus acessores, para que lhe indiquem o que fazer. O partido, que já usou sua vitória cheia de votos para engordar a legenda e eleger outros candidatos que sozinhos não venceriam nem como vereadores, passa a usar também de sua cadeira para ter mais um voto garantido nos trâmites da casa. Tiririca vira mais uma marionete. Somos, mais uma vez, feitos de palhaços – mesmo quando achamos que nós é que estávamos rindo deles. Eles não riem conosco; riem de nós. Riem por último. E a piada, para nós, vai perdendo a graça…

Bem… na verdade há também uma terceira cena.

Mas aí depende de você.

Tiririca

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