crônica

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mãos

(Veja a primeira parte aqui)

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Estrela Natal

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando)

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…

Veja a primeira parte aqui) [LINK])

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando [LINK])

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…

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Pôr do sol

A garota corria radiante pelas ruas de pedra do pequeno vilarejo; quem a visse passar, nem que fosse por uma fração de segundo, certamente notaria o sorriso encantador que transfigurava-lhe todo o rosto, excedendo os limites dos lábios. Com certeza tinha algo muito bom a fazer, aonde quer que estivesse indo…

Chegou à pequena casa, bateu ansiosa à porta.

_ “Seu” Zé! “Seu” Zé!

José estava nos fundos, cortando pacientemente um duro pedaço de madeira, que parecia nunca ceder. Era daquelas madeiras enjoadas, difíceis de cortar, mas fáceis de lascar. Já lhe tomara boa parte da tarde, mas o pacato Zé não parecia angustiado; pelo contrário, mostrava-se excitado com o desafio de achar a dose certa de força a se aplicar. “Madeiras são como pessoas”, pensava. “Cada uma exige a habilidade certa para se lidar, o equilíbrio correto…”

Mas a notícia que receberia, ao abrir a porta assustado, lhe lembraria alguém capaz de lhe desconcertar por inteiro, fazendo-o se sentir sem habilidade alguma.

_ “Seu” Zé, a Maria chegou!

Imediatamente bateu na roupa para tirar o pó, pegou as sandálias e saiu afoito, andando o mais rápido que podia. A idade o impedia de correr como a pequena mensageira, mas não de sorrir como ela. Os observadores daquelas ruelas agora viam um jovem senhor a ir ansioso pelo caminho inverso ao da menina serelepe, num misto de encantamento e angústia.

Sim, aquele sereno coração de carpinteiro era capaz de se angustiar, como qualquer outro; mas a sensação agora era simplesmente aquela tênue angústia de quem não vê a hora de matar uma doce saudade.

_ Maria chegou! A minha Maria…

Chegou à casa, bateu na porta. Joaquim atendeu, jovial.

_ Ora, ora! Mas a noiva mal chegou e você já vem vê-la, heim? Não vai nem esperar a moça descansar da viagem?.Esse é o meu genro!…

Riu e o abraçou, caloroso. Não havia sogro mais bem-humorado.

_ Vamos entrando! Maria está no quarto com a mãe, arrumando suas coisas. Logo, logo aparece…

José sorriu, enquanto tentava segurar a ansiedade. Esse “logo, logo” poderia ser uma eternidade. Que remédio, teria mesmo que esperar! Mas paciência… pra quem já esperara mais de três meses…

Conversou longamente com Joaquim, até que chegou Ana.

_ Olá, José. Maria está lhe esperando. Ela quer muito falar com você.

Sorriu para os sogros, e foi ao tão aguardado encontro com a pequena noiva.

_ José, meu querido!

Abraçou-a forte, como se nunca mais a fosse largar. O coração disparado, os olhos brilhantes, quase transbordando, a denunciar a saudade contida. Nunca sentira aquilo por ninguém; Maria era capaz de desarmar-lhe, de fazê-lo render-se aos mais profundos sentimentos que lhe tomavam a alma. Com ela, ele tinha os sonhos mais encantadores, cheios de amor, de esperança; com ela, ele tinha .

Como sempre, ela estava linda. Aquela beleza encantadora, de quem comunica mais com um olhar do que com mil pergaminhos. “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam”, dizia Salomão em seu Cântico. Teria ele conhecido Maria?

_ Ah, José, como senti saudades suas enquanto estava na casa de Isabel! Nem pudemos nos despedir quando fui, pois você estava no campo e eu parti às pressas…

_ Sim, sim, eu soube!… Mas não importa, o que importa é que agora está aqui, comigo…

_ Ah, José…

E ria, radiante. Maria transmitia uma alegria serena, mas intensa. Estava, porém, diferente; não parecia mais aquela menina de quem José ficara noivo. O sorriso era o mesmo, mas não era o de sempre. Ela agora sorria como… como uma mulher.

_ Ah, José, quanta coisa linda vivi neste tempo… Quanta coisa maravilhosa! Acompanhei os três últimos meses de gravidez de Isabel, ela e Zacarias estão radiantes com o filhinho que Deus lhes deu, o pequeno João!…

_ Gravidez? Mas Isabel não era estéril?

_ Sim! Foi um grandioso presente de Deus, uma dádiva dos céus, José!…

Sorriu. Mas algo lhe dizia que Maria tinha uma coisa importante a lhe dizer. E não estava com cara de ser algo simples.

_ Maria…

_ Sim?

¬_ Sua mãe comentou que queria me contar algo…

Maria ficou séria. Continuava, contudo, serena, como se contemplasse algo.

_ Sente-se…

Sentaram-se. José a olhava fixamente.

_ Sim, José… tenho algo a lhe dizer. Algo muito importante, a transformar tudo… Tudo mesmo.

Silêncio. Mesmo sem perder a serenidade, por um instante os olhos de Maria vacilaram, desviando-se para o chão. Como contar? Como dizer o indizível? Não havia como explicar. Ele teria que sentir na pele, experenciar aquilo tudo.

_ José… me dê a sua mão.

Pegou a mão do noivo, com firmeza. Trouxe-a vagarosamente para junto de seu corpo, até que tocasse seu ventre, por cima do manto. José permaneceu alguns segundos ainda um pouco assustado, com a mão ali, tentando compreender do que se tratava. Notou que a barriga da noiva estava um pouco estufada e, de súbito, percebeu com o olhar que os seios estavam maiores, mais redondos – tirou então a mão num ímpeto, como se tivesse tocado uma chama ardente.

_ Maria!…

Os olhos estavam atônitos, a boca aberta, a mente ainda sem conseguir entender. Maria continuava serena, com um olhar compassivo.

_ Ah, minha pequena! – disse, enfim, enquanto a abraçava, lânguido. Como foi acontecer uma coisa dessas? Por Deus, quem foi lhe fazer uma coisa dessas?!

_ José…

Ele a olhava, transtornado.

_ Meu Senhor, quem teve a coragem de lhe fazer isso, minha Maria? Quem foi o homem sem coração que não teve piedade de ti?… Quem é este, que não ama a própria vida?…

_ José…

Parou, e olhou-a profundamente.

_ José, ninguém me fez mal algum.

Então o corpo de José paralisou-se. Entrou em estado de choque, não conseguia mover os olhos esbugalhados, a boca aberta, as mãos caídas ao lado do corpo. Sua face estava branca como de um cadáver, não conseguia sequer elaborar algum pensamento.

Aos poucos, porém, os movimentos foram voltando-lhe, conseguiu enfim balbuciar algo.

_ Maria… você…

Ela continuava séria, olhando-o com compaixão. Não parecia, de forma alguma, estar confessando um grave crime, que poderia custar-lhe a vida.

_ Não, não pode ser verdade. Você não, Maria. Não é possível!

O olhar mariano não mudava.

_ Maria, você seria a última mulher em toda a Terra a fazer isso algum dia. Você ama a vida, Maria. Não seria capaz de fazer algo assim…

Ela conhecia as regras para quem fosse apanhado em adultério – um provável apedrejamento.

_ José…

_ Não, minha amada, não é necessário proteger quem lhe fez isto desta forma, nós arrumaremos um jeito! Não é preciso sacrificar-se, nem a esta pobre criança que você carrega dentro de si! Por Deus, não será preciso derramar sangue algum!

_ José, você crê em Deus?

A pergunta o desconcertou. Ele temia profundamente a Deus, e Maria não só o sabia, mas era sua companheira de orações diárias. Por que lhe perguntava isso agora?

_ Maria, você sabe que minha vida é toda do de Deus. Do Deus de Abraão, de Jacó e do pai Davi. Sem Ele, sou como o pó da estrada… não sou nada.

_ Então, José, ore. Ore e creia que 0 Senhor cuidará de tudo.

Foi para casa ainda meio que em choque, olhando para o longe sem ver nada. Ainda não conseguia entender, enquanto milhares de pensamentos percorriam concomitantemente sua cabeça. Os passos lentos de agora em nada refletiam a ansiedade de quando viera, momentos antes, pelo mesmo caminho. Agora, sim, sentia angústia de verdade.

A tarde já se ia, a noite começava a despontar. O céu limpo ia tomando um azul cada vez mais escuro, enquanto estrelas iam surgindo aqui e a ali. No oeste, um vermelho-alaranjado denunciava que o sol ainda estava por perto, recém-escondido atrás do monte, enquanto a lua ganhava cada vez mais brilho no horizonte oposto. Ainda estava grande e amarela, insistindo em iluminar a escuridão que surgia.

O olhar de José foi se voltando para o céu, e sem perceber começou a contemplar aquela bela cena, que poderia tranqüilamente passar por corriqueira – e que, de certa forma, não deixava de sê-lo. Quando deu por si, estava parado no meio da rua, a olhar para o céu, sem pensar em nada. Por um instante, sentiu paz. Não estava sozinho.

Passou o resto da noite a meditar as escrituras, os preceitos que guardava com afinco na mente e no coração. Pensou nas penalidades aplicadas a cada caso, estupro, adultério, rejeição… A última coisa que queria era denunciar Maria, isso nunca! Morreria por ela, mesmo que tivesse cometido o pior dos pecados. Mesmo que fosse a última das pecadoras, aquela mulher merecia todo o perdão do mundo.

Sim, a lei era necessária, mas… Não seria justo! A lei servia para proteger o povo do pecado, e nisso era boa… mas como salvar a pobre alma que caísse em pecado? Quem salvaria a mulher pecadora, quem salvaria a todos?…

Pensou em abandoná-la em segredo. Fugiria para longe, sem nada dizer; assim pensariam que o filho era seu, e portanto dariam todo o amparo a ela e à criança. Toda a cidade iria amaldiçoá-lo para sempre, mas sabia que Deus seria sua testemunha, e lhe protegeria de qualquer desgraça.

Sim, era o melhor a fazer. Sangue algum seria derramado. Estava resolvido.

Mas… por que ainda algo não lhe parecia estar bem? Por que não sentia firmeza em seu coração?

Preparou-se para dormir. Já deitado, lembrou-se do pedido de Maria para que orasse. Dirigiu-se a Deus, já sem forças, entregando-lhe toda aquela situação. Agora tudo estava em Suas mãos, já não dependia da sua limitada inteligência humana, de simples carpinteiro. Que fosse feita a vontade divina, independente de qual fosse. Recitou alguns salmos, sussurrou profecias. Dormiu rezando.

Passou uma noite agitada, virando-se várias vezes na cama durante o sono. Até que uma luz fê-lo ir acordando aos poucos. Uma sensação misteriosa, então, foi apoderando-se de sua alma; arrepiou-se, sentindo um misto de temor e fascínio. Abriu os olhos devagar, distinguindo aos poucos uma figura difícil de descrever, só saberia dizer que, por algum motivo, sabia de onde aquela criatura viera. Sentia, naquele momento, que estava envolto ao sagrado.

_ José, filho de Davi!

Sim, era um anjo. Um anjo a falhar-lhe!

_ Não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o povo dos seus pecados.

Ele poria nome no menino!? Então Deus havia lhe escolhido como pai!

_ José, creia que tudo isto aconteceu para se cumprir o que Deus falou por meio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, Deus conosco!”

Sim, a profecia! Então ele fora o escolhido!

_ A profecia! – gritou, levantando-se num ímpeto. O anjo sumira, agora via seu quarto, e a manhã começando a despontar timidamente no céu ainda negro, lá fora.

Saiu correndo, do jeito que estava. Agora sim sentia-se um menino, a atravessas as ruas como um alazão, percorrendo o trajeto mais rápido do que nunca fizera.

_ Maria!!

Nem bateu na porta, foi direto à janela do quarto da noiva, assutando-a.

_ José!

_ Maria, não é preciso dizer nada, minha amada! Agora eu sei, agora eu vejo o que Deus realizou em ti! Eu sabia que seria incapaz de fazer algo assim, tu não tens pecado, minha doce Maria! Pelo contrário, és a mais pura das mulheres!

_ Eu nunca te trairia, meu José…

_ Nem a mim nem a Deus, minha Maria! Eu sempre soube disso. Por isso não conseguia entender… Mas Deus me iluminou a mente, e agora eu compreendo! E como me deixa feliz ver tudo que Ele está realizando em nós! Você alcançou graça diante de Deus, minha amada. Ele te escolheu entre todas as mulheres…

_ Ah, José! Te digo que meu espírito exulta de alegria pelas maravilhas que Deus está realizando! Deus se fez homem, e está aqui dentro de mim… Ele olhou para a nossa humildade, nós que somos simples servos, tão pobres… Veja, José: Ele retira o trono dos poderosos, dos gananciosos, e escolhe os puros e simples!…

_ E nós somos testemunhas disso, minha Maria. Nossa vida será um testemunho vivo das maravilhas que Deus realiza através do seu povo!

E assim foi…

Continua (amanhã!)…

flor no deserto2 pb

PS: Pelo terceiro natal consecutivo, estou publicando este conto. Gosto de fazer novas reflexões a cada ano, mas mais uma vez (especialmente pelo evangelho de hoje) me senti impelido a botar aqui este meu pequeno exercício imaginativo: “como terá sido o 1º natal aos olhos de S. José”? É uma das coisas que mais me alegro de ter conseguido fazer; não por ser uma “obra-prima”, mas pela reflexão que gera. Quais os detalhes daquela noite, e de tudo o que a antecedeu? Não percam, amanhã, as cenas do próximo capítulo… ;)

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fernando sabino(Fernando Sabino)

Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta para o céu com o dedo:

- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?

Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.

- Mas então o céu não é o teto do mundo?

- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o próprio ar. O Japão fica é lá embaixo – e apontei para o chão:

- O mundo é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum país não,  só o céu mesmo, mais nada.

Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:

- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem mais nada…

Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.

Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação japonesa, feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado –  e  assim  que  me  vi  só, tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova aquisição.

globo terrestre

Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias, onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou ficando bom em geografia.

Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o mundo.

De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus… Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação ao longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para lhe enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a nossa pobre humanidade.

Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta que  meu  filho Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

mundo

(Originalmente publicada na coletânea “Deixa o Alfredo falar”, de 1976)

Com o mundo nas mãos
Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta
para o céu com o dedo:
- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?
Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.
- Mas então o céu não é o teto do mundo?
- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o
próprio ar. O Japão fica é lá embaixo- e apontei para o chão:- O mundo
é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum não,  só
o céu mesmo, mais nada.
Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:
- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem
mais nada…
Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio
esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá em-
Observações – 47
baixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes,
andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.
Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi:
um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação  japonesa,
feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O
menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a
Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar
doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo
se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui
convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe,
por exemplo, que faz um ventinho engraçado-  e  assim  que  me  vi  só,
tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova
aquisição.
Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que
a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de
penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os
Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem
me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a
confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem
Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A
Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim
apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha
coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para
que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias,
onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo
de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou
ficando bom em geografia.
48
Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a
quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é
logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê
quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em
compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o
Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o
mundo.
De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o
globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se
escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja
um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com
meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do
tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto
da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios
de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos
continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado
de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus..  .  Tudo  isso    pequenino,
insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se
maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação  ao
longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da
eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo
caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para  ele  enviar
através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a
nossa pobre humanidade.
Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja
redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta
que  meu  filho  Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório,  me
arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

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mãos(Veja a primeira parte aqui)

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Estrela Natal

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando)

PS: Devido a problemas de conexão, só agora consegui postar essa segunda parte do conto, que estava prevista para hoje de manhã. Peço desculpas, mas creio que ainda é tempo: afinal o “amanhã” de ontem ainda não acabou… rsrsrs…

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…


Veja a primeira parte aqui) [LINK])

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando [LINK])

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…

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Pôr do sol

A garota corria radiante pelas ruas de pedra do pequeno vilarejo; quem a visse passar, nem que fosse por uma fração de segundo, certamente notaria o sorriso encantador que transfigurava-lhe todo o rosto, excedendo os limites dos lábios. Com certeza tinha algo muito bom a fazer, aonde quer que estivesse indo…

Chegou à pequena casa, bateu ansiosa à porta.

_ “Seu” Zé! “Seu” Zé!

José estava nos fundos, cortando pacientemente um duro pedaço de madeira, que parecia nunca ceder. Era daquelas madeiras enjoadas, difíceis de cortar, mas fáceis de lascar. Já lhe tomara boa parte da tarde, mas o pacato Zé não parecia angustiado; pelo contrário, mostrava-se excitado com o desafio de achar a dose certa de força a se aplicar. “Madeiras são como pessoas”, pensava. “Cada uma exige a habilidade certa para se lidar, o equilíbrio correto…”

Mas a notícia que receberia, ao abrir a porta assustado, lhe lembraria alguém capaz de lhe desconcertar por inteiro, fazendo-o se sentir sem habilidade alguma.

_ “Seu” Zé, a Maria chegou!

Imediatamente bateu na roupa para tirar o pó, pegou as sandálias e saiu afoito, andando o mais rápido que podia. A idade o impedia de correr como a pequena mensageira, mas não de sorrir como ela. Os observadores daquelas ruelas agora viam um jovem senhor a ir ansioso pelo caminho inverso ao da menina serelepe, num misto de encantamento e angústia.

Sim, aquele sereno coração de carpinteiro era capaz de se angustiar, como qualquer outro; mas a sensação agora era simplesmente aquela tênue angústia de quem não vê a hora de matar uma doce saudade.

_ Maria chegou! A minha Maria…

Chegou à casa, bateu na porta. Joaquim atendeu, jovial.

_ Ora, ora! Mas a noiva mal chegou e você já vem vê-la, heim? Não vai nem esperar a moça descansar da viagem?.Esse é o meu genro!…

Riu e o abraçou, caloroso. Não havia sogro mais bem-humorado.

_ Vamos entrando! Maria está no quarto com a mãe, arrumando suas coisas. Logo, logo aparece…

José sorriu, enquanto tentava segurar a ansiedade. Esse “logo, logo” poderia ser uma eternidade. Que remédio, teria mesmo que esperar! Mas paciência… pra quem já esperara mais de três meses…

Conversou longamente com Joaquim, até que chegou Ana.

_ Olá, José. Maria está lhe esperando. Ela quer muito falar com você.

Sorriu para os sogros, e foi ao tão aguardado encontro com a pequena noiva.

_ José, meu querido!

Abraçou-a forte, como se nunca mais a fosse largar. O coração disparado, os olhos brilhantes, quase transbordando, a denunciar a saudade contida. Nunca sentira aquilo por ninguém; Maria era capaz de desarmar-lhe, de fazê-lo render-se aos mais profundos sentimentos que lhe tomavam a alma. Com ela, ele tinha os sonhos mais encantadores, cheios de amor, de esperança; com ela, ele tinha .

Como sempre, ela estava linda. Aquela beleza encantadora, de quem comunica mais com um olhar do que com mil pergaminhos. “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam”, dizia Salomão em seu Cântico. Teria ele conhecido Maria?

_ Ah, José, como senti saudades suas enquanto estava na casa de Isabel! Nem pudemos nos despedir quando fui, pois você estava no campo e eu parti às pressas…

_ Sim, sim, eu soube!… Mas não importa, o que importa é que agora está aqui, comigo…

_ Ah, José…

E ria, radiante. Maria transmitia uma alegria serena, mas intensa. Estava, porém, diferente; não parecia mais aquela menina de quem José ficara noivo. O sorriso era o mesmo, mas não era o de sempre. Ela agora sorria como… como uma mulher.

_ Ah, José, quanta coisa linda vivi neste tempo… Quanta coisa maravilhosa! Acompanhei os três últimos meses de gravidez de Isabel, ela e Zacarias estão radiantes com o filhinho que Deus lhes deu, o pequeno João!…

_ Gravidez? Mas Isabel não era estéril?

_ Sim! Foi um grandioso presente de Deus, uma dádiva dos céus, José!…

Sorriu. Mas algo lhe dizia que Maria tinha uma coisa importante a lhe dizer. E não estava com cara de ser algo simples.

_ Maria…

_ Sim?

¬_ Sua mãe comentou que queria me contar algo…

Maria ficou séria. Continuava, contudo, serena, como se contemplasse algo.

_ Sente-se…

Sentaram-se. José a olhava fixamente.

_ Sim, José… tenho algo a lhe dizer. Algo muito importante, a transformar tudo… Tudo mesmo.

Silêncio. Mesmo sem perder a serenidade, por um instante os olhos de Maria vacilaram, desviando-se para o chão. Como contar? Como dizer o indizível? Não havia como explicar. Ele teria que sentir na pele, experenciar aquilo tudo.

_ José… me dê a sua mão.

Pegou a mão do noivo, com firmeza. Trouxe-a vagarosamente para junto de seu corpo, até que tocasse seu ventre, por cima do manto. José permaneceu alguns segundos ainda um pouco assustado, com a mão ali, tentando compreender do que se tratava. Notou que a barriga da noiva estava um pouco estufada e, de súbito, percebeu com o olhar que os seios estavam maiores, mais redondos – tirou então a mão num ímpeto, como se tivesse tocado uma chama ardente.

_ Maria!…

Os olhos estavam atônitos, a boca aberta, a mente ainda sem conseguir entender. Maria continuava serena, com um olhar compassivo.

_ Ah, minha pequena! – disse, enfim, enquanto a abraçava, lânguido. Como foi acontecer uma coisa dessas? Por Deus, quem foi lhe fazer uma coisa dessas?!

_ José…

Ele a olhava, transtornado.

_ Meu Senhor, quem teve a coragem de lhe fazer isso, minha Maria? Quem foi o homem sem coração que não teve piedade de ti?… Quem é este, que não ama a própria vida?…

_ José…

Parou, e olhou-a profundamente.

_ José, ninguém me fez mal algum.

Então o corpo de José paralisou-se. Entrou em estado de choque, não conseguia mover os olhos esbugalhados, a boca aberta, as mãos caídas ao lado do corpo. Sua face estava branca como de um cadáver, não conseguia sequer elaborar algum pensamento.

Aos poucos, porém, os movimentos foram voltando-lhe, conseguiu enfim balbuciar algo.

_ Maria… você…

Ela continuava séria, olhando-o com compaixão. Não parecia, de forma alguma, estar confessando um grave crime, que poderia custar-lhe a vida.

_ Não, não pode ser verdade. Você não, Maria. Não é possível!

O olhar mariano não mudava.

_ Maria, você seria a última mulher em toda a Terra a fazer isso algum dia. Você ama a vida, Maria. Não seria capaz de fazer algo assim…

Ela conhecia as regras para quem fosse apanhado em adultério – um provável apedrejamento.

_ José…

_ Não, minha amada, não é necessário proteger quem lhe fez isto desta forma, nós arrumaremos um jeito! Não é preciso sacrificar-se, nem a esta pobre criança que você carrega dentro de si! Por Deus, não será preciso derramar sangue algum!

_ José, você crê em Deus?

A pergunta o desconcertou. Ele temia profundamente a Deus, e Maria não só o sabia, mas era sua companheira de orações diárias. Por que lhe perguntava isso agora?

_ Maria, você sabe que minha vida é toda do de Deus. Do Deus de Abraão, de Jacó e do pai Davi. Sem Ele, sou como o pó da estrada… não sou nada.

_ Então, José, ore. Ore e creia que 0 Senhor cuidará de tudo.

Foi para casa ainda meio que em choque, olhando para o longe sem ver nada. Ainda não conseguia entender, enquanto milhares de pensamentos percorriam concomitantemente sua cabeça. Os passos lentos de agora em nada refletiam a ansiedade de quando viera, momentos antes, pelo mesmo caminho. Agora, sim, sentia angústia de verdade.

A tarde já se ia, a noite começava a despontar. O céu limpo ia tomando um azul cada vez mais escuro, enquanto estrelas iam surgindo aqui e a ali. No oeste, um vermelho-alaranjado denunciava que o sol ainda estava por perto, recém-escondido atrás do monte, enquanto a lua ganhava cada vez mais brilho no horizonte oposto. Ainda estava grande e amarela, insistindo em iluminar a escuridão que surgia.

O olhar de José foi se voltando para o céu, e sem perceber começou a contemplar aquela bela cena, que poderia tranqüilamente passar por corriqueira – e que, de certa forma, não deixava de sê-lo. Quando deu por si, estava parado no meio da rua, a olhar para o céu, sem pensar em nada. Por um instante, sentiu paz. Não estava sozinho.

Passou o resto da noite a meditar as escrituras, os preceitos que guardava com afinco na mente e no coração. Pensou nas penalidades aplicadas a cada caso, estupro, adultério, rejeição… A última coisa que queria era denunciar Maria, isso nunca! Morreria por ela, mesmo que tivesse cometido o pior dos pecados. Mesmo que fosse a última das pecadoras, aquela mulher merecia todo o perdão do mundo.

Sim, a lei era necessária, mas… Não seria justo! A lei servia para proteger o povo do pecado, e nisso era boa… mas como salvar a pobre alma que caísse em pecado? Quem salvaria a mulher pecadora, quem salvaria a todos?…

Pensou em abandoná-la em segredo. Fugiria para longe, sem nada dizer; assim pensariam que o filho era seu, e portanto dariam todo o amparo a ela e à criança. Toda a cidade iria amaldiçoá-lo para sempre, mas sabia que Deus seria sua testemunha, e lhe protegeria de qualquer desgraça.

Sim, era o melhor a fazer. Sangue algum seria derramado. Estava resolvido.

Mas… por que ainda algo não lhe parecia estar bem? Por que não sentia firmeza em seu coração?

Preparou-se para dormir. Já deitado, lembrou-se do pedido de Maria para que orasse. Dirigiu-se a Deus, já sem forças, entregando-lhe toda aquela situação. Agora tudo estava em Suas mãos, já não dependia da sua limitada inteligência humana, de simples carpinteiro. Que fosse feita a vontade divina, independente de qual fosse. Recitou alguns salmos, sussurrou profecias. Dormiu rezando.

Passou uma noite agitada, virando-se várias vezes na cama durante o sono. Até que uma luz fê-lo ir acordando aos poucos. Uma sensação misteriosa, então, foi apoderando-se de sua alma; arrepiou-se, sentindo um misto de temor e fascínio. Abriu os olhos devagar, distinguindo aos poucos uma figura difícil de descrever, só saberia dizer que, por algum motivo, sabia de onde aquela criatura viera. Sentia, naquele momento, que estava envolto ao sagrado.

_ José, filho de Davi!

Sim, era um anjo. Um anjo a falhar-lhe!

_ Não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o povo dos seus pecados.

Ele poria nome no menino!? Então Deus havia lhe escolhido como pai!

_ José, creia que tudo isto aconteceu para se cumprir o que Deus falou por meio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, Deus conosco!”

Sim, a profecia! Então ele fora o escolhido!

_ A profecia! – gritou, levantando-se num ímpeto. O anjo sumira, agora via seu quarto, e a manhã começando a despontar timidamente no céu ainda negro, lá fora.

Saiu correndo, do jeito que estava. Agora sim sentia-se um menino, a atravessas as ruas como um alazão, percorrendo o trajeto mais rápido do que nunca fizera.

_ Maria!!

Nem bateu na porta, foi direto à janela do quarto da noiva, assutando-a.

_ José!

_ Maria, não é preciso dizer nada, minha amada! Agora eu sei, agora eu vejo o que Deus realizou em ti! Eu sabia que seria incapaz de fazer algo assim, tu não tens pecado, minha doce Maria! Pelo contrário, és a mais pura das mulheres!

_ Eu nunca te trairia, meu José…

_ Nem a mim nem a Deus, minha Maria! Eu sempre soube disso. Por isso não conseguia entender… Mas Deus me iluminou a mente, e agora eu compreendo! E como me deixa feliz ver tudo que Ele está realizando em nós! Você alcançou graça diante de Deus, minha amada. Ele te escolheu entre todas as mulheres…

_ Ah, José! Te digo que meu espírito exulta de alegria pelas maravilhas que Deus está realizando! Deus se fez homem, e está aqui dentro de mim… Ele olhou para a nossa humildade, nós que somos simples servos, tão pobres… Veja, José: Ele retira o trono dos poderosos, dos gananciosos, e escolhe os puros e simples!…

_ E nós somos testemunhas disso, minha Maria. Nossa vida será um testemunho vivo das maravilhas que Deus realiza através do seu povo!

E assim foi…

Continua…

flor no deserto2 pb

PS: Como disse ontem, este conto não tem pretensão alguma de ser uma narrativa definitiva, de seguir algum rigor. Me inspirei nos Evangelhos, mas foi sobretudo uma liberdade que tomei, deixando a criatividade reinar no Natal, assim como deve ter reinado na cabeça daquele casal, ao preparar um berçário num curral…

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stand_up

Estava eu na casa dos meus pais, numa daquelas tardes de sábado sem nada pra fazer, zapeando a TV em busca de algo que me distraísse. Pois é, nada feito: 30 e poucos canais na parabólica, e absolutamente nada de bom (às vezes me pergunto se eu é que sou tão exigente assim…). Me restou deixar no futebol, já que as outras emissoras não pareciam nem um pouco dispostas a disputar audiência com um jogo da seleção…

Pois é, não sou muito chegado a futebol, como deu pra perceber. Nada contra, mesmo! É claro que tenho várias questões sobre a “mercantilização” disso tudo, o fato do torcedor ser infinitamente mais fiel ao time que os próprios jogadores, sempre doidos por uma “promoção” para o exterior (com exceção, talvez, do Adriano, que não agüentou ficar longe do Brasil, coitado…), a grande diferença da emoção que era na “minha época”, quando ganhamos o Tetra (cara, me senti um velho falando, agora!!), mas enfim… É aquela coisa, quem gosta gosta, não se explica. Desde que não meta uma bala no cara que tá com a camisa do  time adversário, tudo bem.

Pois lá estava eu, pensando nisso tudo, assistindo o Galvão narrar os emocionantes passes de um jogador pro outro (“Lá vai Kaká… passa pra Lúcio. Ronaldinho. Volta pra Kaká. Perde a bola. Recupera…”), e tentando entender como um esporte tão entediante atrai tanta gente pelo mundo afora. Sério mesmo. Já viram a emoção que é uma partida de vôlei? Basquete, atletismo… até tênis é mais dinâmico que assistir 90 minutos daquele bando de gente correndo atrás de uma bola, pra vibrar (ou chorar) beeem de vez em quando, quando surge um gol ou outro. O futsal e o futebol de areia têm muito mais gols, e jogadas espetaculares, mas nem de longe movimentam tanto o planeta quanto o grandioso jogo das 22 chuteiras (26, na verdade… nunca desmereçamos os árbitros, já basta o que as mães deles sofrem, né…).  Tava lá eu refletindo. Mas fui bruscamente interrompido em meus pensamentos por um gol sensacional do Robinho.

(O gol, transmitido por uma TV do Peru. Destaque pra empolgação do narrador.)

Pois é. Parece que ele fez de propósito: “tá me tirando aí, rapá? Engole essa, então!” Bem no meio da minha rabugice. Não esperou nem 1 minuto das minhas ásperas questões pra calar minha boca – e minha pretensão de fazer um post só de piadinhas sobre futebol…

Passei então a refletir sobre essa moda Stand-Up Comedy de hoje em dia. Sim, stand-up, aquele tipo de humor que o Chico Anysio e a Dercy sempre fizeram em seus shows, mas que hoje em dia virou febre, com um modelo diretamente importado dos EUA. É, por assim dizer, um tipo de piada alimentado pela rabugice, pelo humor cínico sobre situações que passamos no dia-a-dia. O típico espírito do “reclamão inteligente”, que ironiza aquilo de que não gosta. E todo mundo ri, por mais que às vezes goste ou faça exatamente aquilo de que o cara está reclamando… A risada, muitas vezes, é um desabafo, um alívio por ver que tem gente que consegue fazer piada com as situações que somos obrigados a enfrentar sérios, todos os dias.

Sim, também não tenho nada contra os stand-ups, muito pelo contrário (me lembrei que até já fiz um na escola uma vez, no milênio passado… zoando um professor! rs). Mas o que o gol do Robinho me fez refletir, até chegar na tal moda da “comédia em pé”, é que é relativamente fácil fazer humor reclamando de tudo. Se você não gosta de futebol, provavelmente deve ter aberto um sorriso de canto de boca na primeira parte do texto (se gosta, deve ter se regozijado com o chapéu que levei do Robinho…). E eu nem falei nada tão engraçado assim, é mais pela situação mesmo. Bastava umas piadinhas mais ácidas, num palco dum barzinho qualquer depois da meia-noite (quando todo mundo já passou da terceira rodada), fazendo uma cara cada vez mais séria quanto mais o povo ri, pra alguns chamarem isso de “humor inteligente”…

Pode até ser, em se comparando com os bordões da TV de sábado à noite… Mas sei lá, pra mim ser inteligente é mais do que isso. É, sim, saber rir do cotidiano, ver as coisas com alma de cronista – um dos segredos da felicidade. Mas é também perceber que nem tudo é simples assim, que há coisas que, apesar de chatas, devem ser entendidas melhor antes de simplesmente sair esnobando… que às vezes vale a pena agüentar 90 minutos de bola correndo pela emoção de um único belo gol. E nisso, confesso, ainda tenho muito que aprender…

Só pra não me chamar de chato, então, deixo vocês com um bom stand-up. Do Leandro Hassum, que tem bem mais pra mostrar do que o que faz no Zorra Total…

Dizem que fazer stand-up é difícil. Discordo; qualquer um pode fazer.
O difícil é fazer um bom stand-up…

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sentado na pedra_ Por que o medo?

É madrugada. Sozinho no terraço de casa, silêncio, chuva fina. Mais alto que os fios, mais baixo que as árvores. Lá embaixo o barulho da pequena fonte da praça, a rua molhada, o gramado orvalhado.Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem. Lá em cima aquele céu vermelho de quando a cidade não deixa a escuridão entrar. Lá na frente o morro, a mata, as luzes. Lá atrás os vizinhos, as casas, as camas… Tanta gente ao redor, tantas vidas, tantos sonhos.

_ O medo de altura não é o medo de cair; é o medo de saber que nada te impede de se jogar lá de cima”, dizia alguém…

Boto o pé no parapeito. É bom se apoiar, ficar mais próximo da pequena imensidão da vista do terceiro andar. Ver melhor tudo o que me circunda, lembrar que sou pouco.

_ “Do alto da pedra eu busco impulso pra saltar”, dizia uma música que não me saía da cabeça…

Todo aquele que procura uma verdade acaba, mais cedo ou mais tarde, descobrindo a primeira delas: a vida é mais forte que nós. Somos sempre fracos demais para encará-la. Não há relativismo que ignore isto, não há ego que suporte saber aquilo que tanto tenta esconder: a vida vence sempre. Nem que seja na hora da morte – eis, pois, seu triunfo maior! A morte é a vitória da vida: só morre quem está vivo. Não há como lutar contra o mais inevitável de todos os destinos. Ninguém tem esse poder.

E quanto mais se escancara essa verdade, quanto mais descobrimos nossa miséria e nossa inevitável derrota – na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza – mais nos sentimos desnudos, desarmados, acuados. Que posso eu diante de um tsunami, um raio ou um carro desgovernado? Quem sou eu para que a crise da bolsa não me atinja? Que é a ONU frente ao terrorismo suicida? Os direitos humanos frente à “lógica do mercado”?…

Que é o coração diante de uma louca paixão?
A mente diante do desejo?
A mãe diante do filho enfermo?
O diploma diante do desemprego?

Sim, até há como negar. Há como fingir, há como ofuscar. Há quem passe a vida num castelo de areia, faz-se rei. Mas a verdade – a Verdade! – é que o mar está lá. Hoje só ouço as ondas, mas um dia elas me alcançarão…

É preciso encarar o alto da pedra.

Da pedra se vê a imensidão do oceano, a batida das ondas, a vastidão do horizonte. Pisando na pedra vejo o quanto a vida é grande diante de minhas minhas idéias tortas. O quanto sou fraco e ela é forte. O quanto não tenho chance alguma.

É preciso pular.

Do alto da pedra vê-se outras pedras lá embaixo, onde posso cair. Mas também vê-se o mar.

Há como lutar e há como fugir. Há como pular. Há como sentir o vento a indicar o caminho. O vento sopra onde quer, não se sabe pra onde vai. Mas há como segui-lo…

Cair no mar. Ser um pedaço do oceano, nadar no infinito, consubstanciar-se naquilo tudo. Viver é escolher onde pular: pedra ou mar. Fugir da vida ou mergulhar nela.

É bom apoiar o pé no parapeito, aqui em cima. Curtir a paisagem. Não ter medo de altura.

Vivo de pequenos pulos… Um dia ainda dou um grande. Basta aprender que as asas do ser humano quem faz é o próprio vento

Viver é mergulhar.

Amar é desarmar-se…

Gabriel Resgala – Juiz de Fora, 21.10.08

(originalmente publicado no Humanando)

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coxa_de_frango_02

Enquanto vou acordando aos poucos, ouço a conversa lá na sala. Minha tia:

“…e eu sempre me perguntava quando é que eu ia comer a coxa do frango…”

Ela cresceu numa geração em que os mais velhos eram super-respeitados, criança não tinha vez. A elas restava o peito, a asa, o pé do frango… E, depois, foi vendo florescer uma época em que os filhos passaram a tomar conta da casa, e exigem a coxa com unhas e berros.

Felizmente hoje não é preciso mais tantas divisões, já vendem frango congelado em pedaços, pra uma distribuição de riquezas mais igualitária entre as “classes” familiares (hoje quem não tem vez é o frango, coitado, criado de forma cada vez mais desumana – ou “desfranguínea”, sei lá…). Mas, naqueles casos em que não há indústria alimentícia que dê jeito, alguns filhos literalmente matam os pais – e quem mais estiver pela frente – para conseguirem o que querem…

Isso me faz lembrar uma constatação de vários estudiosos do nosso tempo – inclusive dos psicanalistas, que em outra época tanto foram citados como responsáveis pela “liberalização” de tudo… Querendo ou não, a imagem de Freud sempre foi uma espécie de Che Guevara das rebeliões de costumes. Contra todas as repressões psicológicas, havia sempre quem citasse um “Freud diz”… “Freud explica”… Abaixo o machismo, a repressão sexual, a forma autoritária de criar os filhos… Abaixo tudo, acima a liberdade!

E foram mudanças importantes, não há como negar… mas quem realmente leva Freud e tantos outros estudiosos a sério sabe que hoje o problema é outro. Muitas revoluções, Pílulas e Conselhos Tutelares depois, a questão que mais tira o sono de quem estuda e cuida de pessoas e da sociedade em geral, embora ainda haja muito a ser “desreprimido”, é exatamente a falta de limites. Pulamos de um mundo altamente repressor, o do pé do frango, para um em que a coxa não é mais o resultado de uma conquista, mas uma exigência inegociável, doa a quem doer. Ninguém passou pelas lutas e pelo idealismo de outrora para chegar às conquistas, não vivenciamos as dificuldades, nem conhecemos a fundo o valor simbólico que uma simples coxinha tem. Mas já nascemos comendo coxa, então ai de quem nos vier com moela…

Esquecemos, no entanto, que nem sempre a falta de coxa é repressão. Ás vezes é só um limite, algo não só natural, mas também necessário para nós, reles humanos. Somos delimitados por natureza, sempre há uma criptonita a nos lembrar que até a maior das forças tem seu limite. A busca por descobri-lo, é claro, pode ser infinita, e isso é a vida: sempre desconfiar do dito “impossível”… Mas há um limite que somos nós mesmos que devemos demarcar: a fronteira do território alheio.

Enquanto não entendermos isso e nos esforçarmos por ensinar aos nossos filhos (para que não se tornem os roubadores de coxinhas de amanhã), vamos cansar de ouvir educadores, psicanalistas, psicólogos, sociólogos e esses “milionários” dos livros de auto-ajuda sempre baterem na mesma tecla: nossa sociedade carece de limites. Há tempos o problema já não está tanto no freio, mas no acelerador. Correr é bom, mas é preciso lembrar que a estrada não foi feita só pra gente. Tem mais gente no caminho.

Muito mais…

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Criança

Foi segunda. Estava eu chegando em Juiz de Fora, voltando de viagem do Rio, carregando uma mala de rodinhas pelas calçadas esburacadas do bairro, além de uma mochila com um peso considerável nas costas. Foi um daqueles dias cheios, mas um dia bom. Por isso mesmo, decidi economizar no dinheiro do táxi e pegar um ônibus pra vir da rodoviária pra casa, só teria que andar um pequeno pedaço à pé. Estava animado, cheio de coisas na cabeça… Voltando da primeira visita à casa da namorada, que mora em terras fluminenses. Um misto de entusiasmo e incerteza, saudade do que deixara pra trás, mas com esperança do que vinha pela frente…

Por isso o cansaço, apesar de grande, não me impediu de carregar aquele pequeno peso mais um pouco até em casa. Estava um começo de noite bonito, tranqüilo… o que custava andar um pouco?

Foi quando eu pude relembrar o lado cômico de São Pedro.

Começou com uns pingos d’água, aqui e ali. Procurei marquises, algo bastante improvável num bairro residencial. Correr não podia; andar rápido era o máximo que meu corpo cansado e as rodinhas da mala suportavam. Os pingos rapidamente engrossaram, percebi que o Pedrão tava a fim de curtir uma chuva de verão básica, daquelas “visita de sogra”: surgem do nada, fazem um estrago danado e depois vão embora tranqüilas, como se nada tivesse acontecido. Era preciso pensar rápido.

Procurei uma pequena árvore na calçada, raciocinei que pelo menos por alguns minutos eu ali estaria abrigado. Foi eu me esconder da chuva, que ela de repente foi ficando mais violenta, como se quisesse me pegar de qualquer jeito. Logo depois, porém, estiou um pouco. Pensei: “é agora, falta pouco pra chegar em casa, acho que se eu for rápido não me molho muito”. Mas caí que nem um patinho: a chuva só estava esperando eu sair pra engrossar de novo.

Corri até a próxima árvore, e a bendita chuva estiou de novo. Então esperei ela ficar ainda mais fraca, pra assegurar, e ameacei enfrentá-la mais uma vez. Juro: foi eu botar o pé pra fora da segunda árvore, e a chuva voltou a engrossar. Juro pela sogra do Pedrão (aquela que Jesus curou, lembra? – pois é, e dizem que papa não tem sogra…).

Só me restou correr pra baixo da terceira árvore, e esperar. Não havia mais onde me abrigar, e a chuva engrossando, as folhas logo não iriam mais segurar a água… Nisso vieram uns adolescentes correndo pra debaixo da árvore também. Ficaram alguns segundos, perceberam que não ia adiantar muita coisa ficar ali, e então tomaram coragem e saíram correndo e rindo pela rua, debaixo daquele aguaceiro todo. Ah, que inveja. E eu que tinha acabado de rever Cantando na chuva, na casa da namorada. Se não estivesse com tanta bolsa…

Nisso ouço uma vozinha me chamar: “Quer entrar aqui?” Era um garotinho de uns 8 ou 9 anos, na varanda da casa em frente a mim. Como bom mineiro, minha primeira resposta foi automática: “Não, ’brigado, vou ficar aqui mesmo, logo a chuva passa!” Mas logo constatei que a última oração da minha frase era uma inverdade. E acabei cedendo ao convite do menininho simpático, ante sua insistência.

Entrei e fiquei ali na varanda/garagem. Era grande, deviam caber uns três carros, mas não havia nenhum. Não ouvi barulho de gente lá dentro. Estaria o menino sozinho em casa?

_ Quer um cafezinho? – perguntou.

_ Não, ’brigado!

_ Quer uma água? Quer entrar?

_ Não, valeu! Eu fico por aqui mesmo…

_ Tem certeza?

Imaginei a cena: eu, um rapaz nos seus quase 26 anos, entrando na casa do garoto, pingando água pelo chão, me apresentando pra sua mãe: “Boa noite, seu filho me achou perdido aí fora na chuva. Hum… tem Toddy, ou só café mesmo?”

Nisso me lembrei de ligar pro meu irmão. Eu estava só a uma esquina de casa, não custava ele vir me pegar, de guarda-chuva.

_ Não quer nem uma água, não?

_ Não, valeu!

_ Você tá vindo de onde?

_ Do Rio.

_ Do Rio? Poxa, lá é quente, né?

_ É, bem quente.

_ Eu estive lá uns dias atrás… fiquei uns 15 dias lá. Na casa da minha tia Inês. Conhece?

_ Ela mora aqui no bairro?

_ Não, lá no Rio! É uma de cabelo curtinho.

_ Não, não conheço…

Liguei pro meu irmão, enquanto prendia o riso. Que bom, ele estava em casa, e já estava vindo!…

_ Não quer água mesmo não?

_ Não, valeu…

_ Um dia ainda quero morar no Rio.

_ Você gosta de lá?

_ Lá é muito bom! É quente, tem praia… é bonito…

Não resisti a provocar o esteriótipo:

_ Mas é violento também, né…

_ Ô! Rapaiz… lá, se você colocar a cabeça na janela e não ouvir tiroteio, você não tá no Rio… Quando eu tava lá, minha tia foi buscar a filha na escola um dia, e aí…

“Que garoto!”, ri por dentro. Será que eu era assim na sua idade? Não, eu era bem mais tímido… Com certeza…

_ …por que será que as pessoas são tão violentas assim? Por que elas matam, roubam?…

Pronto. Uma pergunta de criança, daquelas que deixam qualquer adulto sem saber o que dizer. Sim, já fiz muitas delas. Mas agora eu era o adulto. E fiquei pensando no que sei sobre o assunto… Já fiz vários trabalhos sobre violência quando era bolsista de psicologia social, gosto de ficar filosofando pelos cantos sobre a natureza humana, brincando de formular conceitos antropológicos, éticos, teológicos. Mas eis que vem uma pergunta simples, feita por alguém a quem deve-se dar uma resposta simples… E agora?

Ele foi mais rápido:

_ Não sei por que… Eles não ganham nada com isso. Só dinheiro.

Taí. Naquela hora entendi por que Jesus botava as crianças no colo e dizia que o Pai revelava-lhes grandes segredos, ocultando-os dos sábios e entendidos…

Meu irmão chegou, com dois guarda-chuvas. O garoto ainda nos ofereceu mais um copo d’água, antes de nos despedirmos:

_ A gente se esbarra por aí!

Fomos embora cantando na chuva, agora um pouco mais fraca. O filho da minha mãe não consegiu proteger a mala embaixo do guarda-chuva enquanto dava seus passinhos de dança no meio da água (“Poxa, que pena que você tava pertinho de casa, nem deu pra eu me molhar direito!”). O que molhou foram uns certificados de congressos – alguns que nem eram meus -, textos do mestrado, um CD-Rom e um livro de capa bonita que eu tinha acabado de comprar. Ficou tudo com as pontas amassadas, enrugadas por causa da água que entrou no bolso lateral da mala, naquele curto trajeto entre a esquina e a nossa casa. Depois de tanta luta pra não molhar nada, Pedrão finalmente venceu.

Tudo bem. Só pra não dizer que o dia foi perfeito

Cantando na chuva

Gabriel Resgala
08.11.08
(crônica originalmente publicada no Humanando)

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