criança

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Mulher-florEu tinha 6 anos. A professora lá na frente, tentando explicar pra gente o que era o “Dia Internacional da Mulher”. E eu tentando entender:

_ Tia, quando é o dia inte… inter… intena… o dia do homem?

_ Não tem.

_ Não tem?

_ Não tem.

_ Por quê?

_ Bem, porque… porque…

Era a deixa pra um colega mais engraçadinho:

_ Por que todo dia é dia do homem! Hahahaha…

Pronto. Estava armada a algazarra, a rizaiada, a gritaiada. Era a hora da professora tentar acalmar a garotada – e esquecer de responder à minha pergunta…

Eu precisei crescer um pouco ainda para entender o porquê de existir um dia dedicado ao sexo feminino e não ao masculino. Pra descobrir que a vida daqueles seres chatos, mimados, frescos e que, meu Deus, achavam o máximo ganhar panelinhas de presente (só podiam ser retardadas, como pode?) é, via de regra, mais difícil que a de nós, que nascemos com o cromossomo Y. Que já foram, e ainda são, sim, muito discriminadas, violentadas, ofendidas, assediadas… (sem falar, é claro, do masoquismo intrísseco ao gênero, que as obriga a usar salto alto e a se depilar constantemente). Se eu fosse mais romântico (ou cafajeste, dependendo do ponto de vista), diria mesmo que não seria preciso todo esse histórico de desigualdades pra render um dia de homenagens às mulheres – afinal, elas mereceriam ser homenageadas só pelo simples fato de existirem, não é mesmo?…

Mas tenta explicar isso tudo pra um garoto do jardim de infância – e convencê-lo que todas as meninas merecem parabéns nesse dia, inclusive as mais irritantes… Lembro que uma revista semanal tinha, há algum tempo, uma pequena coluna em que a graça era tentar explicar pra um ET as esquisitices da vida dos seres humanos, que nós muitas vezes temos como óbvias. Mas acho que não precisamos nem imaginar ETs – basta tentar passar pelo crivo de uma criança observadora…

Racismo_ Pai… é verdade que o Rodrigo, quando crescer, vai precisar tirar uma nota menor que o Rafa pra entrar na faculdade?

_ Como assim?

_ A professora falou que é porque o Rodrigo é negro, e o Rafa é branco.

_ Bem…

_ Mas o Rodrigo já falou que é inteligente, e que não vai precisar da ajuda de ninguém, vai passar com nota maior que a de todo mundo, pode ser branco, amarelo, vermelho…

_ E o Rafa?

_ Ele era amigo do Rodrigo, mas acho que ficou de mal. Falou que vai ser médico quando crescer, e que nenhum “neguinho” vai atrapalhar ele…

O problema, talvez, não seja nem termos políticas afirmativas, homenagens, determinados “benefícios” a determinadas classes ou gêneros. Mas seja encarar isso como óbvio, como se a sociedade tivesse que ser sempre separada por segmentos, e pertencer a um deles (seja por sexo, crença, situação econômica ou simples cor da pele) já fosse motivo suficiente pra ser considerado alvo ou ator de discriminação – ainda que seja uma “discriminação boa” (se é que isso existe)…

Nem digo o que é bom e o que não é. Só acho que, ao contrário do que muitos gostam de gritar por aí, nada é tão óbvio. Ou você também me acha preconceituoso só porque ouso pensar diferente?…

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Criança_ Clarinha… Segura firme, senão você cai!

_ Mamãe…

_ Sim, meu anjo!…

Foi hoje à tarde. Estava muito calor. Eu estava muito cansado. E ainda não estava indo pra casa… Tinha ainda uma reunião num bairro distante.

_ Mamãe, dentro da sua barriga tem uma… uma sementinha?

_ Tem sim…

_ Que foi… que foi o papai que colocou, né?

_ Foi.

_ E vai crescer e crescer… e virar o meu irmãozinho!!

Ela não aceitou o acento que ofereci. Não a Clarinha, mas sua mãe. Recusou, disse que o ponto em que iam descer estava próximo. Recusou. Mesmo carregando a sementinha na barriga.

Deveria ter insistido mais. Com toda a certeza. Mas nem foi o cansaço que me impediu; foi a falta de jeito mesmo, perante a simpatia daquela mãe. O cansaço já tinha ido embora. Ou melhor, ainda estava lá… Mas o sorriso daquela menina deixou-o muito mais leve, e – por que não? – prazeroso…

_ Segura, meu anjo! Segura firme!

É nessas horas que eu gostaria de conseguir ser um pouquinho mais extrovertido com estranhos, insistir em algo que é óbvio: aquele lugar não era meu, era daquelas duas que estavam ali em pé, espremidas no ônibus cheio, e do garotinho-semente que, apesar de provavelmente estar mais confortável que todos nós ali, também merecia sacudir um pouco menos. Mesmo que os lugares reservados para grávidas estivessem lá na frente, ocupados por estudantes que conversavam, animadas. A barriga ainda estava pequena, vale dizer; provavelmente só eu, enxerido ouvindo a conversa alheia, havia percebido que tinha uma “sementinha” ali dentro…

Mas não deu tempo de pensar muito mais. Clarinha logo desceu com sua mãe, me deixando um sorriso no rosto, e um pequeno peso nos ombros por não saber como retribuí-lo

O mínimo que posso fazer, pensei depois, é tentar passá-lo para frente. Não vai ser a mesma coisa, mas pelo menos é uma tentativa.

Que nossa semana seja, então, repleta de sorrisos de crianças! Se não de verdade, ao menos simbolicamente…

Criança sorrindo

Fechado?

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Criança e Flor

“Deus cada vez mais se cansa dos grandes reinos, porém jamais das pequeninas flores.”

R. Tagore

PS: feliz 12 de outubro!

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“O grande consolo das velhas anedotas são os recém-nascidos.”

quintana
Mário Quintana

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Dostoievski

“A alma é curada ao estar com crianças”

Dostoiévski

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lixo

Enquanto aqui no Brasil rola o “ultra-polêmico” caso do aborto de duas crianças filhas de outra criança, eis que me deparo com essa curiosa manchete, do Globo On-line, contando da prisão de uma médica nos EUA. Clique aqui para ler.

Lembra que eu disse que nos Estados Unidos o aborto é permitido em qualquer época da gravidez, mas depois que a criança respira é considerado infanticídio? Pois é. Aí acontecem casos como esse, em que alguém faz o serviço mal-feito e a criança sai viva. O problema da médica da reportagem, pelo visto, foi deixar a mãe ver o bebê. Aí “ela ficou cara-a-cara com outro ser humano e isso mudou tudo”, como disse o promotor do caso. Pronto, já era. Ela percebeu a realidade.

Ah, e não custa lembrar: querem implantar uma lei semelhante no Brasil, com boas chances de ser aprovada. Liberar o aborto em qualquer época e situação.

Pra que isso, meu Deus?…

“Seus olhos podem brilhar sem mentiras!”


UPDATE (06.03.09): O presidente Barack Obama acabou de publicar uma nota dizendo que pretende anular a possibilidade de um médico se recusar a praticar um aborto por objeção de consciência nos EUA. Ou seja, se a paciente demandar, o médico será obridado a abortar, concorde ou não… Esse é o país das liberdades individuais!…

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Criança

Foi segunda. Estava eu chegando em Juiz de Fora, voltando de viagem do Rio, carregando uma mala de rodinhas pelas calçadas esburacadas do bairro, além de uma mochila com um peso considerável nas costas. Foi um daqueles dias cheios, mas um dia bom. Por isso mesmo, decidi economizar no dinheiro do táxi e pegar um ônibus pra vir da rodoviária pra casa, só teria que andar um pequeno pedaço à pé. Estava animado, cheio de coisas na cabeça… Voltando da primeira visita à casa da namorada, que mora em terras fluminenses. Um misto de entusiasmo e incerteza, saudade do que deixara pra trás, mas com esperança do que vinha pela frente…

Por isso o cansaço, apesar de grande, não me impediu de carregar aquele pequeno peso mais um pouco até em casa. Estava um começo de noite bonito, tranqüilo… o que custava andar um pouco?

Foi quando eu pude relembrar o lado cômico de São Pedro.

Começou com uns pingos d’água, aqui e ali. Procurei marquises, algo bastante improvável num bairro residencial. Correr não podia; andar rápido era o máximo que meu corpo cansado e as rodinhas da mala suportavam. Os pingos rapidamente engrossaram, percebi que o Pedrão tava a fim de curtir uma chuva de verão básica, daquelas “visita de sogra”: surgem do nada, fazem um estrago danado e depois vão embora tranqüilas, como se nada tivesse acontecido. Era preciso pensar rápido.

Procurei uma pequena árvore na calçada, raciocinei que pelo menos por alguns minutos eu ali estaria abrigado. Foi eu me esconder da chuva, que ela de repente foi ficando mais violenta, como se quisesse me pegar de qualquer jeito. Logo depois, porém, estiou um pouco. Pensei: “é agora, falta pouco pra chegar em casa, acho que se eu for rápido não me molho muito”. Mas caí que nem um patinho: a chuva só estava esperando eu sair pra engrossar de novo.

Corri até a próxima árvore, e a bendita chuva estiou de novo. Então esperei ela ficar ainda mais fraca, pra assegurar, e ameacei enfrentá-la mais uma vez. Juro: foi eu botar o pé pra fora da segunda árvore, e a chuva voltou a engrossar. Juro pela sogra do Pedrão (aquela que Jesus curou, lembra? – pois é, e dizem que papa não tem sogra…).

Só me restou correr pra baixo da terceira árvore, e esperar. Não havia mais onde me abrigar, e a chuva engrossando, as folhas logo não iriam mais segurar a água… Nisso vieram uns adolescentes correndo pra debaixo da árvore também. Ficaram alguns segundos, perceberam que não ia adiantar muita coisa ficar ali, e então tomaram coragem e saíram correndo e rindo pela rua, debaixo daquele aguaceiro todo. Ah, que inveja. E eu que tinha acabado de rever Cantando na chuva, na casa da namorada. Se não estivesse com tanta bolsa…

Nisso ouço uma vozinha me chamar: “Quer entrar aqui?” Era um garotinho de uns 8 ou 9 anos, na varanda da casa em frente a mim. Como bom mineiro, minha primeira resposta foi automática: “Não, ’brigado, vou ficar aqui mesmo, logo a chuva passa!” Mas logo constatei que a última oração da minha frase era uma inverdade. E acabei cedendo ao convite do menininho simpático, ante sua insistência.

Entrei e fiquei ali na varanda/garagem. Era grande, deviam caber uns três carros, mas não havia nenhum. Não ouvi barulho de gente lá dentro. Estaria o menino sozinho em casa?

_ Quer um cafezinho? – perguntou.

_ Não, ’brigado!

_ Quer uma água? Quer entrar?

_ Não, valeu! Eu fico por aqui mesmo…

_ Tem certeza?

Imaginei a cena: eu, um rapaz nos seus quase 26 anos, entrando na casa do garoto, pingando água pelo chão, me apresentando pra sua mãe: “Boa noite, seu filho me achou perdido aí fora na chuva. Hum… tem Toddy, ou só café mesmo?”

Nisso me lembrei de ligar pro meu irmão. Eu estava só a uma esquina de casa, não custava ele vir me pegar, de guarda-chuva.

_ Não quer nem uma água, não?

_ Não, valeu!

_ Você tá vindo de onde?

_ Do Rio.

_ Do Rio? Poxa, lá é quente, né?

_ É, bem quente.

_ Eu estive lá uns dias atrás… fiquei uns 15 dias lá. Na casa da minha tia Inês. Conhece?

_ Ela mora aqui no bairro?

_ Não, lá no Rio! É uma de cabelo curtinho.

_ Não, não conheço…

Liguei pro meu irmão, enquanto prendia o riso. Que bom, ele estava em casa, e já estava vindo!…

_ Não quer água mesmo não?

_ Não, valeu…

_ Um dia ainda quero morar no Rio.

_ Você gosta de lá?

_ Lá é muito bom! É quente, tem praia… é bonito…

Não resisti a provocar o esteriótipo:

_ Mas é violento também, né…

_ Ô! Rapaiz… lá, se você colocar a cabeça na janela e não ouvir tiroteio, você não tá no Rio… Quando eu tava lá, minha tia foi buscar a filha na escola um dia, e aí…

“Que garoto!”, ri por dentro. Será que eu era assim na sua idade? Não, eu era bem mais tímido… Com certeza…

_ …por que será que as pessoas são tão violentas assim? Por que elas matam, roubam?…

Pronto. Uma pergunta de criança, daquelas que deixam qualquer adulto sem saber o que dizer. Sim, já fiz muitas delas. Mas agora eu era o adulto. E fiquei pensando no que sei sobre o assunto… Já fiz vários trabalhos sobre violência quando era bolsista de psicologia social, gosto de ficar filosofando pelos cantos sobre a natureza humana, brincando de formular conceitos antropológicos, éticos, teológicos. Mas eis que vem uma pergunta simples, feita por alguém a quem deve-se dar uma resposta simples… E agora?

Ele foi mais rápido:

_ Não sei por que… Eles não ganham nada com isso. Só dinheiro.

Taí. Naquela hora entendi por que Jesus botava as crianças no colo e dizia que o Pai revelava-lhes grandes segredos, ocultando-os dos sábios e entendidos…

Meu irmão chegou, com dois guarda-chuvas. O garoto ainda nos ofereceu mais um copo d’água, antes de nos despedirmos:

_ A gente se esbarra por aí!

Fomos embora cantando na chuva, agora um pouco mais fraca. O filho da minha mãe não consegiu proteger a mala embaixo do guarda-chuva enquanto dava seus passinhos de dança no meio da água (“Poxa, que pena que você tava pertinho de casa, nem deu pra eu me molhar direito!”). O que molhou foram uns certificados de congressos – alguns que nem eram meus -, textos do mestrado, um CD-Rom e um livro de capa bonita que eu tinha acabado de comprar. Ficou tudo com as pontas amassadas, enrugadas por causa da água que entrou no bolso lateral da mala, naquele curto trajeto entre a esquina e a nossa casa. Depois de tanta luta pra não molhar nada, Pedrão finalmente venceu.

Tudo bem. Só pra não dizer que o dia foi perfeito

Cantando na chuva

Gabriel Resgala
08.11.08
(crônica originalmente publicada no Humanando)

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