Carlos Drummond de Andrade

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Monte José, José.

Olhou para trás?
Viu sonhos antigos?
Chorou por eles?
(saudades do que era
e de quem tinha…)

Você mudou, José.
Nem sente nem vê as coisas como via antes
Os amigos cresceram, mudaram, ficaram distantes
E seu choro é sincero.

Pois basta, José!
Encare a verdade, aceite a mudança!
Agora o sentir depende do agir
A vida depende dos olhos
os novos, que ainda não aprendeu a usar…

É preciso saber
É preciso sofrer
É preciso sorrir
É preciso viver.

É preciso acreditar no tempo.
É preciso esperar o sol
Buscar um brilho novo
Que um dia saberá enxergar…

Mas, agora, é preciso fechar os olhos.
É hora de ouvir.

Referências:
José (Carlos Drummond de Andrade)
Monte Inverno (Eduardo Faro / Guilherme de Sá)

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solidaomomentos na vida em que parece não nos restar mais nada.
Mesmo que ainda haja algo a se apegar – e sempre há – esses apegos parecem não surtir o mesmo efeito de antes, não ter a mesma graça, o mesmo sabor. Nada mais é como era, e parece só nos restar uma pergunta: “E agora, José?”

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?

Buscamos segurança, amor, admiração… e tantas vezes conseguimos, nos vemos artistas, poetas, humoristas, transformadores do mundo… mas sem base pra sustentar as próprias pernas.

Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Pois há momentos em que a muleta cai. Crenças, prazeres, fugas, vícios… Nada mais funciona. Não há mais fantasia, não há mais Pasárgada, Éden ou Pirlimpimpim. Só a realidade.

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

luz_camimhoE agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Nunca tentamos de tudo, mas há momentos em que tudo o que tentamos parece ser, realmente, tudo. E tudo já era.

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Por um instante tudo perde a cor, não sentimos, não agimos… não vivemos.

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

“Viver é foda, morrer é difícil”, dizia alguém. Mas ninguém quer a morte, queremos é viver de verdade, gritar, gemer, dançar até morrer de cansaço! Mas viramos pedra…

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia, sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Não dá pra continuar. Não dá mais pra marchar sem rumo. Não dá pra ser mais um José.

alone
(continua…)


Referências:
José (Carlos Drumond de Andrade)
Vamos fazer um filme (Renato Russo)
O que é, o que é? (Gonzaguinha)

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“O cofre do banco contém apenas dinheiro. Frustar-se-á quem pensar que nele encontrará riqueza.”

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Carlos Drummond de Andrade

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