Alpinista

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Estava eu na casa dos meus pais, numa daquelas tardes de sábado sem nada pra fazer, zapeando a TV em busca de algo que me distraísse. Pois é, nada feito: 30 e poucos canais na parabólica, e absolutamente nada de bom (às vezes me pergunto se eu é que sou tão exigente assim…). Me restou deixar no futebol, já que as outras emissoras não pareciam nem um pouco dispostas a disputar audiência com um jogo da seleção…

Pois é, não sou muito chegado a futebol, como deu pra perceber. Nada contra, mesmo! É claro que tenho várias questões sobre a “mercantilização” disso tudo, o fato do torcedor ser infinitamente mais fiel ao time que os próprios jogadores, sempre doidos por uma “promoção” para o exterior (com exceção, talvez, do Adriano, que não agüentou ficar longe do Brasil, coitado…), a grande diferença da emoção que era na “minha época”, quando ganhamos o Tetra (cara, me senti um velho falando, agora!!), mas enfim… É aquela coisa, quem gosta gosta, não se explica. Desde que não meta uma bala no cara que tá com a camisa do  time adversário, tudo bem.

Pois lá estava eu, pensando nisso tudo, assistindo o Galvão narrar os emocionantes passes de um jogador pro outro (“Lá vai Kaká… passa pra Lúcio. Ronaldinho. Volta pra Kaká. Perde a bola. Recupera…”), e tentando entender como um esporte tão entediante atrai tanta gente pelo mundo afora. Sério mesmo. Já viram a emoção que é uma partida de vôlei? Basquete, atletismo… até tênis é mais dinâmico que assistir 90 minutos daquele bando de gente correndo atrás de uma bola, pra vibrar (ou chorar) beeem de vez em quando, quando surge um gol ou outro. O futsal e o futebol de areia têm muito mais gols, e jogadas espetaculares, mas nem de longe movimentam tanto o planeta quanto o grandioso jogo das 22 chuteiras (26, na verdade… nunca desmereçamos os árbitros, já basta o que as mães deles sofrem, né…).  Tava lá eu refletindo. Mas fui bruscamente interrompido em meus pensamentos por um gol sensacional do Robinho.

(O gol, transmitido por uma TV do Peru. Destaque pra empolgação do narrador.)

Pois é. Parece que ele fez de propósito: “tá me tirando aí, rapá? Engole essa, então!” Bem no meio da minha rabugice. Não esperou nem 1 minuto das minhas ásperas questões pra calar minha boca – e minha pretensão de fazer um post só de piadinhas sobre futebol…

Passei então a refletir sobre essa moda Stand-Up Comedy de hoje em dia. Sim, stand-up, aquele tipo de humor que o Chico Anysio e a Dercy sempre fizeram em seus shows, mas que hoje em dia virou febre, com um modelo diretamente importado dos EUA. É, por assim dizer, um tipo de piada alimentado pela rabugice, pelo humor cínico sobre situações que passamos no dia-a-dia. O típico espírito do “reclamão inteligente”, que ironiza aquilo de que não gosta. E todo mundo ri, por mais que às vezes goste ou faça exatamente aquilo de que o cara está reclamando… A risada, muitas vezes, é um desabafo, um alívio por ver que tem gente que consegue fazer piada com as situações que somos obrigados a enfrentar sérios, todos os dias.

Sim, também não tenho nada contra os stand-ups, muito pelo contrário (me lembrei que até já fiz um na escola uma vez, no milênio passado… zoando um professor! rs). Mas o que o gol do Robinho me fez refletir, até chegar na tal moda da “comédia em pé”, é que é relativamente fácil fazer humor reclamando de tudo. Se você não gosta de futebol, provavelmente deve ter aberto um sorriso de canto de boca na primeira parte do texto (se gosta, deve ter se regozijado com o chapéu que levei do Robinho…). E eu nem falei nada tão engraçado assim, é mais pela situação mesmo. Bastava umas piadinhas mais ácidas, num palco dum barzinho qualquer depois da meia-noite (quando todo mundo já passou da terceira rodada), fazendo uma cara cada vez mais séria quanto mais o povo ri, pra alguns chamarem isso de “humor inteligente”…

Pode até ser, em se comparando com os bordões da TV de sábado à noite… Mas sei lá, pra mim ser inteligente é mais do que isso. É, sim, saber rir do cotidiano, ver as coisas com alma de cronista – um dos segredos da felicidade. Mas é também perceber que nem tudo é simples assim, que há coisas que, apesar de chatas, devem ser entendidas melhor antes de simplesmente sair esnobando… que às vezes vale a pena agüentar 90 minutos de bola correndo pela emoção de um único belo gol. E nisso, confesso, ainda tenho muito que aprender…

Só pra não me chamar de chato, então, deixo vocês com um bom stand-up. Do Leandro Hassum, que tem bem mais pra mostrar do que o que faz no Zorra Total…

Dizem que fazer stand-up é difícil. Discordo; qualquer um pode fazer.
O difícil é fazer um bom stand-up…

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