Quando passei no vestibular, ouvi aquela célebre frase: “sinta-se privilegiado, pois apenas 10% da população do nosso país conseguem entrar numa faculdade. Se você conseguir se formar, aí então fará parte de um grupo mais seleto ainda: o dos 3% de brasileiros que têm um curso superior completo!” Dizem que foram esses tais “3%”, número tão difundido por aí quando se quer ilustrar a desigualdade social brasileira, que inspiraram Pedro Aguilera e um grupo de cineastas a elaborar uma série de ficção distópica com esse nome: “3 por cento”.
A série, cujo episódio piloto está fazendo um bom sucesso na internet (com todo o mérito, pois é de prender a respiração do início ao fim), nos apresenta um mundo em que há 2 lados bem definidos: o “Lado Bom” e o “Lado Ruim”. No Bom, segundo a narradora, “tem tudo o que a gente precisa, todo mundo é tratado igual”. Já no lado ruim o trabalho (ou melhor, o “serviço”) é pesado, e a vida é muito dura pra todos. Mas, neste primeiro episódio, não vemos diretamente nem o “Lado de Cá”, nem o “Lado de Lá”. Só o que acompanhamos é o início do Processo de Seleção que concede uma única permissão, ao longo de toda a vida, ao sujeito que nasce do lado “Ruim” e quer ir pro “Bom”. Só se pode tentar uma vez, ao completar 20 anos. E, todo ano, só 3% dos que se inscrevem podem passar.
Narrando assim, parece mais uma história louca de ficção científica, mas ao assistir a impressão que se tem é de que é algo bem real. Não só pelo fato de ser uma produção brasileira “que não deixa nada a dever pras gringas”, com atores bons, anônimos (poderia ser um amigo seu) e falando nosso bom e claro português, sem dublagens. Mas por retratar, claramente, situações exageradas de processos seletivos com os quais nos deparamos o tempo todo. Entrevistadores bem-treinados para nos deixar inibidos, perguntando astuciosamente coisas como “qual seu ponto fraco?”, “você seria um bom líder?”, “se você tivesse que mudar o Pão de Açúcar de lugar, o que você faria?”, e dinâmicas de grupo cujo único objetivo é vencer os adversários, sendo o mais esperto possível, não são ficção nenhuma em nosso “mundo corporativo”…
Por enquanto, só têm o primeiro episódio, produzido com verba de um concurso do Governo Federal e disponibilizado no Youtube “pra ver se conseguem financiamento de um canal de TV”. A promessa dos diretores é fazer algo do tipo Lost, em que a cada episódio as coisas vão ficando mais complexas, lançando novas possibilidades, aprofundando nas realidades dos personagens e dos mundos. Mas só este episódio, de rápidos e impactantes 27 minutos, já nos dá material pra boas reflexões… Veja por você mesmo – assiste aí (aconselho a botar em tela cheia, pra aproveitar a imagem em HD) e depois volta pra continuar lendo o texto:
Clique para assistir ao 1º episódio da série no Youtube (27 min)
Na realidade, 3% é uma crítica não somente ao vestibular – processo que, pela carga pejorativa que carrega, parece estar com os dias contados, sendo cada vez mais substituído por outros sistemas como o ENEM (trocando, a propósito, o sujo pelo encardido…). Até porque a tal porcentagem da população do país com mais de 25 anos que tem Curso Superior já está acima dos 3% pelo menos desde o Censo 2000, quando atingiu cerca de 7% – e hoje, após tantos programas de inclusão, deve estar bem maior. O que eles querem mostrar com a série é que, em nosso mundo, a competitividade vai muito além de uma prova pra entrar numa faculdade – até porque, a meu ver, o simples fato de ter um curso universitário qualquer tende a ser cada vez menos um “diferencial” no currículo – sem falar no mundo do empreendedorismo, em que cada vez mais gente consegue “chegar longe” sem necessariamente depender de diploma. E, cá entre nós, já passou da hora de voltarmos a valorizar os Cursos Técnicos, em vez de massacrar tanto a molecada durante 3 anos da flor de sua juventude num Ensino Médio que não lhes prepara pra absolutamente nada além do tal do vestibular…
Os 3% de chance são, na verdade, a forma como muitos encaram a vida, a qual parece não dar alternativa: muita gente, poucas oportunidades, só os “melhores” sobrevivem. Estes, mesmo tendo poucas chances, saberiam aproveitá-las. “Se apegue aos seus sonhos, com eles você chegará onde quiser, se for um brasileiro e não desistir nunca”, talvez tenham ouvido os personagens “do Lado de Cá” ao longo da vida, antes de se arriscarem a tentar ir para o lado dos vencedores. O lado onde ser “competitivo” é o maior dos elogios, onde não basta ser qualquer um, há de se ter um “diferencial”…
Mas… tem mesmo que ser assim?
Será que o “Lado de lá” é realmente um mundo melhor?…
Pois, numa das cenas do episódio, a entrevistadora pergunta ao jovem: “Se você pudesse escolher entre ser um herói sem ter feito nada, e salvar algumas pessoas sem ninguém nunca saber, o que faria?” Ante a resposta “solidária” já esperada, ela passa da teoria à prática, lhe dando a oportunidade de trocar sua aprovação pela reprovação das 3 próximas pessoas, ou vice-versa. Ou um ato de extremo altruísmo, ou um de grande egoísmo; sem meio-termo. O garoto escolheu o egoísmo, e passou. É como o mundo quer que pensemos que tudo funciona: “ou você, ou os outros”. É como as pessoas pensam do “Lado de Lá”…
Mas talvez o verdadeiro “Lado Bom” seja aquele em que o “ou” possa ser substituído pelo “e”. Sem necessidade de heróis ou vilões. Só eu, você, e quem mais quiser. Com competência, com competições saudáveis, sim… Mas com um mínimo de respeito, de ética. Senão, amigo… não há 3% que salvem a humanidade. Mesmo se forem “os melhores”…
PS: Se gostou da série, não deixe de clicar em “gostei” no Youtube e em “curtir” na página do Facebook, pra ajudá-los a conseguir financiamento pra produzir a série inteira!













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