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Ok. Acho divertido compartilhar zoações de Justin Bieber, Restart, Crepúsculo e companhia nas redes sociais – é claro, desde que não entre no campo da ofensa. Eles próprios parecem que não ligam muito pra isso, e convenhamos, garotinhos que se apresentam como “rockstars” usando calças do Tiririca e óculos do Chaves estão pedindo para serem zoados. Gostemos ou não, todos hão de concordar que a cultura pop de hoje não é pra ser levada a sério, é uma grande brincadeira…

Mas tem gente que parece realmente ficar incomodada com essa tal “cultura de massa”, indignados com a “má qualidade”, envergonhados com o impressionante sucesso internacional que a música do Michel Teló está tendo… A esses, gostaria de dar minha singela opinião: fiquem tranqüilos, já foi pior. Bem pior.

Sim, minha gente. Basta cavucar um pouquinho na memória e – dependendo do seu grau de masoquismo – pesquisar no Google para fazer uma comparação entre a “música ruim” de hoje e a “música ruim” de 10, 15 anos atrás. Atenção: eu disse “ruim”! Nada de Cidade Negra, Cássia Eller e essas coisas que têm trocentos mil comentários no Youtube do tipo “naquele tempo é que era bom, tinha música de qualidade!” e tal…

Procure por clássicos como “Boquinha da Garrafa”, “Dança do Maxixe”, “O pinto do meu pai”, “Comprei uma panela de pressão” (ET e Rodolfo, lembra??), “Melô da Tiazinha”, “Dança da Manivela”, “Um Tapinha não Dói”, “Dança da Motinha”,  “Vai Serginho”, “Lacraia”, “Entra e sai na porta da frente na porta de trás”… Quer pop adolescente? Tente “Ó menina deixa disso quero te conhecer”, “Chalalalalá como eu quero te amar”, “Assererrê”…  Quer rock? Tente “Pula, filha da pula”, “Bagulho no Bumba”, “Es****** na manivela”… E olha que só citei músicas que estouraram nas paradas, nem falei dos “proibidões”… E nem mesmo adentrei no terreno do pagode, para que amanhã você não seja zoado no trabalho por ficar cantarolando Você jogou fora, o amor que eu te dei… o sonho que sonhei-ei-ei a cada minuto.

E outra: no século atual, não somos mais tão obrigados a ouvir coisas de que não gostamos a toda hora. Quem se lembra dos anos 90 sabe que era quase impossível não ser bombardeado a todo segundo com tais “mantras”: no rádio, na TV, no som instalado no porta-malas do carro do vizinho, emitindo mais decibéis que um avião decolando (lembra? bem pior que os celulares nos ônibus de hoje!), na festinha da escola, ou em absolutamente qualquer lugar, pois volta e meia alguém cantarolava alguma tosquice dessas – mesmo sem querer, pois era simplesmente impossível desgrudá-las do córtex. Já hoje temos internet, TV a cabo, shows mais acessíveis, maior diversidade e liberdade para os artistas, que não são mais tããão reféns das gravadoras… Hoje, se você só freqüenta certos lugares e só assiste a determinadas coisas, tem chances razoáveis de não ser incomodado com o que não gosta. Quer ver? Lembre-se de como você conheceu o Restart. Provavelmente foi na internet, procurando no Google pra ver o que era “essa coisa que todo mundo fala mal” ou através de um link no qual você clicou pela própria vontade. A própria música “Ai se eu te pego”, apesar de ter se espalhado pelos cantos do país já no início de 2011, só ficou conhecida por muitos daqueles que hoje a criticam depois que virou sucesso internacional na voz do Teló. Precisou chegar em Israel para incomodar.

Portanto, amigo, tudo bem que atualmente estamos um tanto carentes da chamada “música boa”, mas em termos de “música ruim”, acredite: já passamos pela fase pior. Hits “chatinho-chiclete” sempre existiram e sempre existirão – e logo todo mundo enjoa e eles somem da mesma forma que vieram. Pode acreditar: nada do que estamos vivendo é sinal de que o mundo vai acabar em 2012 – até porque, convenhamos: se ele não acabou no ano 2000, ao som do Bonde do Tigrão, não acaba mais!!

PS1: Ao escrever este post, me dei conta de que nem sempre é fácil definir o que faz com que uma música seja “ruim” ou “boa” – se é que existe um limite tão específico entre uma coisa e outra. Tem gente que fala que é por causa da letra pobre, mas cá pra nós… já viu coisa mais simplista do que só ficar repetindo o refrão “vale, vale tudo, só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher” por mais de três minutos, sem nenhuma estrofe? Ou ainda “tomo guaraná, suco de caju, goiabada para a sobremesa” por 17 vezes seguidas?? E, no entanto, ninguém nega que Tim Maia, apesar de maluco, era muito, muio bom. Muito menos eu!…

Sossego, um “swing do bom” que, acreditem, tem apenas 1 acorde:

 ”O cara estuda 25 anos de violino, toca Bach, Beethoven, Chopin. Aí o Tim Maia convida pra tocar Sossego: uma nota só, Dó!”

PS2: Vejam só que coisa: a internet acabou de me informar que Suzana Alves, a Tiazinha, está fazendo mestrado na USP! As voltas que a vida dá, não??

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Na época que morei em uma república, um de meus amigos de apartamento era um devoto humilde e atencioso de São José. Tanto em seus atos cotidianos quanto em seu exemplo histórico, esse colega me demonstrava as virtudes do “Zé” trabalhador, humano, cotidiano.

Me lembro que meu amigo rezava o terço de São José com tanto carinho, que eu sentia que se estabelecia uma espécie de companheirismo sindical, especialmente quando era recitada a estrofe que antecede cada mistério: Ó meu glorioso São José, nas vossas maiores aflições e atribulações o Anjo não vos valeu, valei-me São José.

Meu amigo repetia pacientemente cada mistério. A cada novo “valei-me São José”, era como se ele dissesse:

São José, o senhor sabe como é ser humano, não saber o que fazer, ter que trabalhar dia após dia. O senhor sabe como é levantar todos os dias pedindo a Deus a santificação das mãos calejadas. O senhor sabe como é sustentar a esperança a cada nova manhã, mesmo que tenhamos ido dormir sem vislumbrar a mínima possibilidade de mudança. Agora que o senhor está aí, contemplando as maravilhas e a paz que daqui eu mal posso imaginar, valei-me São José…

E no dia de hoje, mais ou menos 2011 atrás, lá estava o “Zé” lutando para encontrar o melhor lugar possível para a mulher e o filho…

Que no aniversário do filho, o pai possa nos ensinar a amá-lo, ainda que isto seja somente encontrar um montinho de palha mais fofo para cuidar dos sonhos do Deus-menino…

P.S.:Hoje topei com essa bela mensagem de Paulo Coelho (sim, ele mesmo, e justiça seja feita: o texto é muito bom). Acredito que ela sirva como uma ótima fonte de reflexão nesse momento de nascimento da alma…

O homem que seguia seus sonhos

Nasci na casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro. Como foi um parto bastante complicado, minha mãe me consagrou ao santo, pedindo que me ajudasse a viver. José passou a ser uma referência para a minha vida, e desde 1987, ano seguinte à minha peregrinação a Santiago de Compostela, dou uma festa em sua homenagem, no dia 19 de março. Convido amigos, pessoas trabalhadoras e honestas, e antes do jantar, rezamos por todos aqueles que procuram manter a dignidade no que fazem. Oramos também pelos que se encontram desempregados, sem nenhuma perspectiva para o futuro.

Na pequena introdução que faço antes da prece, costumo lembrar que, das cinco vezes que a palavra “sonho” aparece no Novo Testamento, quatro se referem a José, o carpinteiro. Em todos estes casos, ela está sempre sendo convencido por um anjo a fazer exatamente o contrário do que estava planejando.

O anjo pede que ele não abandone sua mulher, embora ela esteja grávida. Ele podia dizer coisas do tipo “o que os vizinhos vão pensar”. Mas volta para casa, e acredita na palavra revelada.

O anjo o envia para o Egito. E sua resposta podia ter sido: “mas eu já estou aqui estabelecido como carpinteiro, tenho minha clientela, não posso deixar tudo de lado agora.” Entretanto, arruma suas coisas, e parte em direção ao desconhecido.

O anjo pede que volte do Egito. E José podia ter de novo pensado: “logo agora que eu consegui estabilizar de novo minha vida, e que tenho uma família para sustentar?”

Ao contrário do que o senso comum manda, José segue seus sonhos. Sabe que tem um destino a cumprir que é o destino de quase todos os homens neste planeta: proteger e sustentar sua família. Como milhões de Josés anônimos, ele procura dar conta da tarefa, mesmo tendo que fazer coisas que estão muito além de sua compreensão.

Mais tarde, tanto a mulher como um dos filhos se transformam nas grandes referências do Cristianismo. O terceiro pilar da família, o operário, é lembrado apenas nos presépios de final de ano, ou por aqueles que tem uma devoção especial por ele, como é o meu caso, e como é o caso de Leonardo Boff, para quem escrevi o prefácio de seu livro sobre o carpinteiro.

Reproduzo parte de um texto do escritor Carlos Heitor Cony (espero que seja mesmo dele, porque descobri na internet!): “ Volta e meia estranham que, declarando-me agnóstico, não aceitando a idéia de um Deus filosófico, moral ou religioso, seja devoto de alguns santos do nosso calendário tradicional. Deus é um conceito ou uma entidade distante demais para os meus recursos e até mesmo para minhas necessidades.Já os santos, porque foram terrenos, com os mesmos alicerces de barro de que fui feito, merecem mais do que a minha admiração. Merecem mesmo a minha devoção.

“São José é um deles. Os Evangelhos não registram uma única palavra sua, somente gestos, e uma referência explícita: “vir justus”. Um homem justo. Como se tratava de um carpinteiro, e não de um juiz, deduz-se que José era acima de tudo um bom. Bom como carpinteiro, bom como esposo, bom como pai de um garoto que dividiria a história do mundo.”

Belas palavras de Cony. E eu, muitas vezes, leio aberrações do tipo: “Jesus foi para a Índia aprender com os mestres do Himalaia”. Para mim, todo homem pode transformar em sagrada a tarefa que lhe é dada pela vida, e Jesus aprendeu enquanto José, o homem justo, o ensinava a fazer mesas, cadeiras, camas.

No meu imaginário, gosto de pensar que a mesa onde o Cristo consagrou o pão e o vinho, teria sido feita por José – porque ali estava a mão de um carpinteiro anônimo, que ganhava a vida com o suor do seu rosto e, justamente por causa disso, permitia que os milagres se manifestassem.”

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“Papai Noel é uma farsa! Tem muita criança por aí que deve morrer de raiva dele… Por que ele dá presente mais caro pra criança rica? E por que tem moleque levado que ganha mais presente que o bem-comportado?… Aquele velhinho é a maior prova de como o sistema capitalista se apropria de tudo em seu benefício. Ele pode até ter aquela cara de simpático, mas no fundo é só um vovô chato que faz a gente gastar mais e mais, como se ele é que pagasse a conta! Ele pra mim não passa de uma jogada de marketing fenomenal, conseguiram pegar um santo da Igreja Católica, o tal São Nicolau, e transformaram-no no maior símbolo do Natal, uma data que era pra ser lembrada como o nascimento do mais pobre dos homens, aquele que não tinha nem um lugar descente pra vir ao mundo…”, dizia um amigo meu.

Meu amigo pode ter lá sua razão… Mas aquela menina tinha motivo pra acreditar em Papai Noel. Sempre ganhou os presentes direitinho, ficava feliz da vida. Seus pais não tinham lá muito dinheiro, viviam numa dureza de vida… mas Natal era Natal, oras! E se dependesse deles o “bom velhinho” nunca iria morrer naquela casa. Se esforçavam, juntavam economia, e sempre botavam o presente da filha debaixo da árvore na noite do dia 24 de dezembro. Não queriam que a menina descobrisse a verdade, afinal a vida deles já era tão sofrida, que custava uma fantasiazinha para alegrá-la ao menos uma vez ao ano? E era uma menina tão boazinha, cuidava tão bem dos brinquedos que ganhava, emprestava pros amiguinhos…

Pois um dia ela apareceu com esta:

_ Mãe, o Papai Noel não gosta do papai?
A mãe assustou.
_ Como assim, filha?
_ É que sempre vejo o papai reclamando tanto da nossa casa, que ela tá velha, caindo aos pedaços… por que o Papai Noel não dá uma casa nova pra ele?
Pronto. Lá vinha mais uma daquelas dúvidas de criança que desconcerta até o mais astuto dos adultos. A mãe pensou em desconversar, mas…
_ É… é… é mesmo, né? Por que será que ele não dá uma casa nova pro papai?
_ Você sabe se o papai já pediu?
_ Se ele já pediu?
_ É, se já escreveu a cartinha pro Papai Noel.
_ É mesmo! Vai ver que é por isso, seu pai não deve ter escrito…
_ Já sei, então! Vou escrever uma cartinha pedindo uma casa. Vai ser o meu presente de Natal pro papai! Não conta pra ele não, tá?

A mãe não sabia se ria ou se chorava, diante de uma atitude tão pura… Mas tinha mesmo era vontade de chorar pela situação em que estavam, a casa realmente estava caindo aos pedaços, uma situação crítica… E não tinham condição de mudar de casa, mal conseguiam pagar o aluguel daquela, quanto mais de uma melhor! Mas a filha ia acabar se decepcionando no Natal, como reverter a situação? Que remédio, que triste ia ser…

Foi falar com o marido. Ele também se comoveu com a atitude da filha, mas a comoção lhe gerou revolta. Aprendera que a reação era o choro do homem. E decidiu fazer algo.

_ Quanto tempo falta pro Natal?
_ Seis meses, ué. Estamos em junho.
_ Pois vou fazer hora extra de agora em diante. Tem um programa de financiamento abrindo no banco, acho que com seis meses consigo juntar dinheiro pra dar a entrada num apartamentozinho, e depois continuo trabalhando mais, até acabar de pagar as prestações.
_ Meu bem, você é louco! Vai se matar de trabalhar!
_ Ah, mulher, melhor que viver nessa vida! A menina tem razão, tinha que existir um Papai Noel dos adultos também, nós merecemos mais dignidade! E nossa outra filhinha já tá crescendo, não vai poder ficar dormindo no nosso quarto pra sempre… Deus me livre viver a vida inteira assim, quando que alguma coisa vai mudar?
A mulher parou, pensou…
_ Então eu vou trabalhar mais também.
_ Mas você mal dá conta das suas bijuterias e do serviço de casa!
_ Mas eu faço isso mais como uma distração, pra ganhar uns trocados… Posso fazer de uma forma mais profissional… As vizinhas também gostam de fazer, podíamos nos juntar, comprar material mais barato, dividir a clientela…
_ Bem, se você quiser… e achar que não vai deixar de cuidar das crianças…
_ Deixa de ser bobo, não vou sair de casa, vou ficar de olho nelas! E a menina pode me ajudar, também. Ela lava a louça depois do almoço, ajuda em alguma coisinha, faz o dever de casa e à noite vai brincar…
_ Ok… vamos ver se vai dar certo, então. Só não quero que vocês se sacrifiquem demais!
_ Sim, sim… Mas que isso valha pra todo mundo, então, inclusive pra você! Se um de nós for ficando muito cansado, dá um tempo, pára logo.
_ Fechado. Fica sendo o nosso trato. Hehehe…

Se beijaram, e foram deitar. Mas naquela noite estava difícil dormir, a cabeça de ambos fervilhava de idéias, planos, desejos… Empolgação com um projeto novo, um sonho antigo que agora parecia ter condições de virar realidade! E tudo isso virava insônia… “Nada que um pouco de amor não resolva”, pensou a mulher. E olhou para o marido, um olhar que ele já conhecia. Ele correspondeu, e viveu com ela uma noite tão boa como há muito tempo as preocupações da vida não o deixavam ter…

No outro dia já estava olhando o financiamento. Era mais difícil do que ele pensava, parecia quase impossível conseguir dinheiro pra um apartamento em que coubesse a família. Chegou em casa meio desanimado, mas deu de cara com a empolgação da mulher contando que as vizinhas adoraram a idéia, iam fazer da varanda da casa uma mini-fábrica de bijuterias. E olhou para as filhas, a menor brincando na sala, a maior com aquele sorriso lindo no rosto, escrevendo a cartinha sem deixar que ele visse o que era. “Elas merecem todo o esforço do mundo”, pensou. E decidiu não desistir. Se tivesse que dar errado, não seria por culpa dele.

E assim foram passando os dias, as semanas, os meses. A menina não gostou muito da idéia de ajudar nas tarefas de casa, mas quando a mãe sugeriu que fizesse umas coisinhas que ela gostava (catar feijão, lavar o arroz, dar comida para a irmãzinha), ela se empolgou e foi ajudando aos pouquinhos. E ia se dedicando na escola, não era lá muito boa nos estudos, mas a mãe falou que um presente grande daqueles que ela pediu, o Papai Noel só dava se a criança se esforçasse muito. E o negócio da mãe indo de vento em popa, aproveitava o trabalho pra conversar com as vizinhas, nem viam o tempo passar. Via o marido chegar tarde, o olhar cansado, mas procurava passar um pouco de seu sorriso pra ele. Como admirava aquele homem!

E como ele admirava aquelas mulheres… A esposa e as duas filhas, os maiores presentes que a vida lhe dera. Ás vezes não se achava digno delas, três anjos, e ele um homem tão nervoso, esquentado… Não entendia por que Deus lhe tinha dado aquela família, ele não merecia, tanta coisa errada que tinha feito na vida… Bem, mas agora não era a hora de passar no bar e ficar remoendo o passado… Era hora de pensar no futuro. E elas mereciam um futuro melhor!

E procurava fazer uma prece todo dia enquanto ia pro serviço, pedia a Deus que abençoasse seu trabalho. Afinal não pedia só pra ele… Era pra família! “Se a família é uma coisa sagrada, que a minha tenha ao menos um lugar decente pra morar”, ele pensava. E dava duro, trabalhava muito… Se esgotava, mas pensava na mulher. No trato que fizera com ela. Chegava tarde em casa, mas dava tempo de contar uma historinha pra filha dormir. E ela já nem gostava muito daquelas velhas historinhas, ainda mais com o pai cochilando a cada página… Mas era o momento que tinha pra estar com ele, todo dia. E ela gostava de ver o pai sorrindo quando ela fingia gostar da história, e fingia dormir pra que ele pudesse ir descansar também…

E o descanso dele era pouco, mas era sagrado. Procurava relaxar de vez em quando, pra não se cansar demais, agüentar o trampo do dia seguinte. Ver TV, ler um livrinho, namorar um pouquinho com a espoca. Sentia que ela também estava feliz.

E assim foi indo, até que foi chegando o final do ano. Um dia procurou a mulher…

_ Meu bem, tenho uma coisa pra te contar.
_ O que foi?
_ Olha, é o seguinte…
_ Desembucha logo, homem de Deus!
_ É que… Não vai dar pra comprar a casa.
_ Como assim?
_ Não dá, já olhei em tudo o que é banco, eles querem uma garantia maior, esse salário que eu ganho não convence ninguém… Em financeira também não compensa, cobram os olhos da cara de juros, não vou ter condição de pagar!
A mulher sentou numa cadeira, triste.
_ Ah, meu bem, mas a gente economizou tanto, se esforçou tanto…
_ Pois é, mas o que é que eu vou fazer? Eu não vou dar ponto sem nó, entrar pro SPC é que eu não entro! De que adianta ter uma casa mas não ter nome?…
_ Mas… não vai dar nem pra alugar?
_ Ah, isso tem que ver, o aluguel também não tá muito barato hoje em dia…
_ Mas já é um começo… quem sabe, futuramente, a gente consegue algo melhor?
_ Pode ser… mas não sei realmente se vale a pena, gastar esse dinheiro que juntamos com tanto esforço pra pagar aluguel, é um dinheiro que não tem retorno, a gente só vai gastando… e não vai dar pra fazer hora extra a vida inteira, nem sei se vou conseguir continuar nesse emprego por muito tempo… Não sei se vai compensar, talvez fosse melhor guardar esse dinheiro, fazer um investimento…
_ Ah… – ela tentava se consolar – Tá bom, então…
_ Ah, meu bem… você sabe que essa casa era meu sonho também, era o sonho de todos nós… mas…
Não conseguiu segurar. Os olhos já estavam molhados, um nó na garganta…
A mulher o abraçou:
_ Tudo bem, meu bem. Que seja a vontade de Deus, tá bom? Que seja a vontade de Deus…

E chegou o Natal. Chegou de repente, sem que conseguissem pensar em algo pra dizer à menina. Nem um consolo, nem uma explicação convincente. Na casa do vizinho tocava uma música conhecida: “Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel…” “Pois é, este ano meu Papai Noel não vem”, pensou o homem. “Com certeza já morreu… ou então felicidade é brinquedo que não tem!”, respondeu a música.

Cearam, rezaram, foram ver os especiais da TV. A menina caindo no sono, já-já ia pra cama, já-já chegaria o outro dia, não sabia o que fazer… Haviam comprado uma casinha de boneca para a filha, pensara em dizer que o Papai Noel se enganara, dera uma casa de brinquedos por engano. Mas tal idéia não o confortava, não queria que fosse assim, iria decepcioná-la tanto…

Foi uma madrugada longa, sofrida. Conversaram, choraram, e a mulher dormiu em seus braços. Mas ele não conseguiu pregar o olho, não se conformava com aquilo tudo, iria ter que contar a verdade. “A vida é assim”, pensou. “Não tenho culpa de ela ser tão dura… Mas é meu dever educar minha filha pra que não se iluda tanto. Quebrar os sonhos, às vezes, faz parte da vida…” No pouco tempo que conseguiu dormir, teve um pesadelo horrível, viu-se atirando contra um velhinho vestido de vermelho. Acordou mais atordoado ainda.

Por fim, o dia. A mesa, o café, o pão com manteiga. Era Natal – mais um dia. A menina acordou, já foi direto procurar a mãe.

_ Minha filha, o papai tem que te contar uma coisa…
Mas ela nem ouviu, estava eufórica:
_ Mamãe, a professora falou outro dia que Papai Noel não existe! É verdade, mamãe?
Silêncio. Por essa não esperavam.
_ Quer dizer, ela disse que ele existe sim, só que não é do jeito que a gente pensa que ele é… Ela falou que ele é um amigo do Papai do Céu, e que só faz o que Ele manda. Ela disse que o Papai do Céu chama ele de São Nicolau, e gosta muito dele, porque ele ajuda as crianças e todo mundo que precisa!…
_ É, filha?
_ É sim! – ela contava, empolgada: e o Papai do Céu gosta muito da gente, não é mamãe?
_ Muito, filha. Desse tamanhão assim!
_ Então se o Papai Noel, quer dizer, o São Nicolau, só faz o que é a vontade do Papai do Céu, ele também só vai fazer o que é bom pra gente, né?
_ É sim…
_ Mas então, mamãe… – e a empolgação virava desalento – Por que ele não trouxe aquilo que eu pedi? – perguntou, com aqueles olhinhos de degelar calota polar.
Breve silêncio. A mãe suspirou, botou a menina no colo:
_ Sabe, filha… O Papai do Céu sabe o que faz… Nem sempre o que a gente pede é o que a gente precisava ganhar naquela hora…
_ Como assim, mamãe?
_ Você nunca ficou feliz de ganhar algo de surpresa?
_ Já…
_ Pois então… se tudo o que a gente ganhasse na vida a gente já soubesse antes o que seria, iria perder a graça, né?…
_ É…
_ Então… quem sabe, o Papai do Céu não quer dar uma surpresa pra gente? Às vezes Ele quer dar outra coisa, que a gente não pediu.
_ Uma surpresa? – e o brilho voltou as olhinhos cor de mel.
_ É… Você já olhou lá na sala, debaixo da árvore?

A menina foi correndo, eufórica. O presente era mesmo uma surpresa: sem que os pais soubessem, vivia namorando aquela casinha na vitrine da loja de brinquedos. Quando abriu o embrulho, soltou um grito tão grande que até acordou a irmãzinha, que pô-se a chorar.

_ É, meu bem – suspirou o marido, quando a mulher voltou com o bebê no colo. Acho que Deus nos ajudou mesmo a dar um bom Natal pra nossa filha…
_ Só pra ela?
Ele se espantou.
_ Olha só, meu bem: esses meses foram de muito esforço, mas foram bons, você não acha?… A gente tava junto, batalhando por um sonho que a gente queria… e que ainda pode se realizar um dia, quem sabe?…
_ É…
_ E agora, olha só: nós podemos abrir uma poupança, homem de Deus! Quem diria, a gente com dinheiro no banco, pra poder usar quando precisar, comprar os livros da menina… É ou não é um presentão de Papai Noel?
_ É verdade… – ele disse, enquanto lembrava também que há meses não ia beber no bar, e que, apesar do cansaço, seu organismo estava se adaptando bem àquela vida dedicada ao trabalho e à família – Sabe, mulher, acho que pra falar a verdade, apesar de tudo, nossa vida tá boa, né?…
_ É sim, meu bem… Outro dia ouvi uma coisa na televisão e fiquei pensando naquilo, sabe… Tinha um cara dando uma palestra, falando que, quando a gente corre atrás dos nossos sonhos, ás vezes o mais importante nem é o resultado… Ás vezes só a corrida pra chegar lá já é uma grande vitória…
_ Eita!… E num é que é? É verdade, às vezes quando a gente faz uma coisa assim, por amor, só o fato de a gente tá fazendo aquilo já é bom demais, né?… Já é um presente!…

Nisso chega a filha correndo, abraçando os dois, feliz pelo presente – e, sobretudo, feliz pela vida que tinha.

_ E, quer saber, mulher? Quer presente maior que ter uma boa família?…

Gabriel Resgala – 07.12.07

http://humanando.blogspot.com/2007/12/um-conto-de-natal.html#

Outro dia estava no ônibus lotado aqui em Campinas, voltando do trabalho, e vi um céu que parecia cena de filme do fim do mundo: 95% de nuvens pretas carregadíssimas de chuva, e no horizonte uma faixa de pôr-do-sol alaranjadíssimo, de cegar os olhos. De perder o fôlego (mais do que essa foto aí, que botei só pra ilustrar…).

Se eu tivesse um celular “bem equipado” naquela hora, acho que iria bater uma foto e compartilhar no Facebook. Mas, naquele dia, até o meu celular simplesinho estava descarregado, então só me restou apreciar aquele momento, solitário. As outras pessoas pareciam estar cansadas demais pra reparar aquilo, e se virasse pro cara do lado e dissesse: “olha o pôr do sol!”, ele no mínimo iria me olhar desconfiado…

Fiquei pensando, então, se esse mundo de compartilhamentos nas Redes Sociais é mesmo tão “vazio” quanto gostam de dizer por aí. Sim, muitas vezes as pessoas têm necessidade de postar um “fui no banheiro” no Twitter pra fugir da solidão, ou mesmo por um mergulho na “virtualidade” que beira um vício adolescente. Mas me pergunto se pode não ser uma forma bem legal de compartilharmos o que a vida de cada um de nós tem de melhor, de não guardarmos as coisas só pra gente – mesmo que seja um céu bonito.

Ou, no meu caso, de fazer com que as pessoas “reais” na minha vida não sejam somente as que tenho ao meu redor – mas também as que estão distantes. Amizades que não têm nada de “virtuais”, mas que há um tempo seriam maltratadas pela distância… E que hoje, embora não “tocáveis”, estão “clicáveis”.

Nada substitui a presença. Mas hoje temos como diminuir, e muito, a ausência!…

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“Ao lado destas duas realidades, religião e anti-religião, existe, no mundo do agnosticismo em expansão, outra orientação de fundo: pessoas às quais não foi concedido o dom de poder crer e todavia procuram a verdade, estão à procura de Deus. Tais pessoas não se limitam a afirmar «Não existe nenhum Deus», mas elas sofrem devido à sua ausência e, procurando a verdade e o bem, estão, intimamente estão a caminho d’Ele. São «peregrinos da verdade, peregrinos da paz». Colocam questões tanto a uma parte como à outra. Aos ateus combativos, tiram-lhes aquela falsa certeza com que pretendem saber que não existe um Deus, e convidam-nos a tornar-se, em lugar de polémicos, pessoas à procura, que não perdem a esperança de que a verdade exista e que nós podemos e devemos viver em função dela. Mas, tais pessoas chamam em causa também os membros das religiões, para que não considerem Deus como uma propriedade que de tal modo lhes pertence que se sintam autorizados à violência contra os demais. Estas pessoas procuram a verdade, procuram o verdadeiro Deus, cuja imagem não raramente fica escondida nas religiões, devido ao modo como eventualmente são praticadas. Que os agnósticos não consigam encontrar a Deus depende também dos que crêem, com a sua imagem diminuída ou mesmo deturpada de Deus. Assim, a sua luta interior e o seu interrogar-se constituem para os que crêem também um apelo a purificarem a sua fé, para que Deus – o verdadeiro Deus – se torne acessível. Por isto mesmo, convidei representantes deste terceiro grupo para o nosso Encontro em Assis, que não reúne somente representantes de instituições religiosas. Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos juntos a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito.”

Papa Bento XVI, 27/10/2011 – Encontro inter-religioso em Assis

Dedicado a todos os amigos que, com suas dúvidas sinceras, me levam tão longe.

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Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz. Coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência do medo.

Mark Twain

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Outro di ouvi essa reclamação de um senhor: “o fumante é o leproso do século XXI”. Estava se referindo às restrições cada vez maiores ao uso do cigarro, principalmente às leis que proíbem o fumo em lugares cobertos – não sei como está em outros estados, mas em MG e principalmente aqui em SP estão levando isso bem a sério…

Entendo o que querem dizer. Fumar hoje em dia é, muitas vezes, perder um pouco de convivência social… Lembro uma vez em que uma amiga do mestrado precisava falar comigo na cantina, e disse: “vamos ali fora  bater um papo enquanto eu fumo um cigarro?”. Fiquei muito sem graça, mas tive de sugerir que ela fosse fumar e depois voltasse para conversarmos, porque eu estava em crise alérgica. Foi meio chato… Mas, é claro, me aliviou de ter que ficar segurando a tosse se ela fumasse ali, ao meu lado, num local coberto.

Acho que o mais difícil disso tudo é alguns fumantes entenderem que, apesar de ser um hábito bastante prazeroso (e até mesmo social) para eles, o cigarro, para quem não fuma, é um grande incômodo (a não ser que a pessoa já esteja acostumada com a fumaça alheia a ponto de ser um fumante passivo). Lembro de uma professora que fumava em plena sala de aula (uns 4 cigarros por hora), fazendo aquela pergunta: “vocês não se importam se eu fumar, né gente?” É claro que não, professora, afinal você tem cara de brava e ninguém aqui quer ser o “aluno chato”, né…

Agora imagine se alguém perguntasse: “vocês não se importam se eu peidar aqui, né, gente?”. E imagine que o cheiro do peido, mais do que simplesmente feder por alguns segundos, também entranhasse nas roupas e nos cabelos, provocasse tosse em quem tem problemas respiratórios (uma parcela bastante considerável da população, vale dizer) e, principalmente, causasse diversos males, mais do que comprovados, à saúde de todos ao redor. É claro, pra quem peida o cheiro não é incômodo, dá até uma sensação de alívio. Os outros é que são chatos…

Desculpe a sinceridade, gente, mas é que é às vezes, infelizmente, é necessário que a sociedade se organize em leis para obrigar as pessoas a terem um pouco de bom senso, por assim dizer… É chato, prejudica um pouco o convívio social, mas creio que ninguém quer colocar um sininho no pescoço de vocês e obrigá-los a gritar ao longe: “fumante, fumante, não se aproxime!” Isso nunca! Até porque, entre um cigarro e outro, vocês continuam sendo os nossos amigos de sempre, e babaca é quem discordar disso!

No mais, saibam que vocês ficaram com o melhor local dos shoppings, casas noturnas, rodoviárias e etc: os halls abertos, sem ar condicionado, geralmente com uma bela vista das redondezas. Agora, para os não-fumantes, esses lugares ficaram bastante desconfortáveis, devido a tanta fumaça. Justamente onde antes se tinha o ar mais puro… Mas tudo bem, nós entendemos. Afinal, temos que aprender a ceder um pouquinho, para que todos possamos conseguir conviver em sociedade… não é?

Alguns comerciais legais da época em que ainda se relacionava cigarro com esportes radicais – e os fumantes acreditavam… ;)

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Talvez o mal seja que a gente pede amor o tempo todo. Não se preocupa nunca em dar amor sem esperar reciprocidade.

Caio Fernando Abreu

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Somente um louco para, sendo judeu, citar Nietzsche em uma oração de Shabat.

Maior loucura ainda é fazer isso durante uma fuga em massa da comunidade judaica em meio à  II Guerra Mundial.

Uma loucura... daquela loucura profunda e bela que somos feitos. É assim o filme Trem da Vida de Radu Mihaileanu, um dos melhores filmes que já assisti. Ele conta a história de uma pequena comunidade judaica do interior da Europa que, frente a iminência da invasão nazista, decide  executar um audacioso plano de fuga. Não conto mais para não estragar o filme, que tem esse misterioso poder de nos deliciar a cada momento.

Porém, deixo de aperitivo uma das mais belas cenas do filme, na qual o personagem Shlomo (um louco)  toma a palavra durante a oração do Shabat. Nada ortodoxo, mas pleno de humildade, Shlomo reflete sobre a natureza humana frente à Deus.


Uma das mais belas orações que eu já ví.

 No mais, como diria o poeta: Isso é tudo pessoal.

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Chesterton dizia: não há problema algum em ser ateu. O problema é que, normalmente, os ateus começam a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência, em energias… Tem gente que se emociona porque a gente é feito da mesma poeira das estrelas! Ou acredita em si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo.

Luiz Felipe Pondé

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