Duas da madrugada. Acabei de ver um bom filme na TV, dei um pulinho na geladeira e vim pra cama, ler ou escrever um pouco até o sono me derrubar. Além de ser um feliz portador daquela estimável companheira de metade da população de cidades frias, a rinite alérgica, as minhas vias aéreas superiores são um verdadeiro labirinto, ficam desorientando o ar que só quer entrar e chegar aos pulmões. De modo que, se “pegar no sono” pra mim já é uma façanha difícil por natureza, quando a sinusite ataca tenho que quase ficar bêbado de tanto sono pra conseguir pregar os olhos… Mas tudo bem. É a vida.
Mas nem bem me recosto na cama, e o Billy de repente começa a latir e a uivar alto lá fora. Ah, esqueci de dizer: estou na roça com meu pai (que a esta hora já está no enésimo ronco), e o Billy é o nosso cão-de-guarda com cara de mau. Tem cara de rottweiler, o pêlo (e os carrapatos) lembram um vira-lata de rua, mas na verdade não passa de um labrador capado, preguiçoso como a mãe. Mas estranho aquela latição toda, e vou lá fora dar uma olhada. Corajosamente abro a porta, saio pra varanda, e quando olho pro lado lá está ela. Toda amarelona, minguando ou crescendo, não sei. Só sei que quando não se tem nenhuma luz artificial por todo o raio onde a vista alcança, a lua parece sempre cheia, a noite é sempre clara, quando não há nuvens pra atrapalhar. Mas as poucas de hoje não atrapalham, pelo contrário: compõem com ela uma paisagem inenarrável, ostentada por sobre a pequena mata no alto do morro.
Então fico lá, meio que hipnotizado, contemplando aquele pequeno (?) espetáculo naquele pequeno (?) fim-de-mundo. Sapos coachando, grilos cricrilando, uma água correndo lá longe: eu, só eu, de ser humano acordado naquele lugar, talvez num raio de dezenas de quilômetros. O Billy, a essa altura, já trocando os latidos por arfadas simpáticas, feliz por ter atraído minha atenção. Me trouxe até aqui pra ver isso, garoto? Frio de orvalho, cheiro de mato. Tanta coisa se passando pela cabeça naqueles poucos instantes ali, olhando pra ela e suas nuvens-figurantes… Mas mais do que pensar, é daqueles momentos pra se sentir. De ouvir o silêncio dos sons da natureza. Quando tudo fala e a gente se cala…
E fico pensando, sabe? Como seria a humanidade, se todos parassem pra ver a lua, de vez em quando… Se se permitissem, também, ter essa sensação de um num-sei-o-quê-vindo-num-sei-daonde a inebriar os sentidos e a te dizer: “shhh! Escuta!” Calar por dentro e por fora, despir-se, desarmar-se. Sentir o vento, e só…
Mas aí me lembro que nossas sensações são moldadas, de certa forma, por quem nós somos, por nossa história. O mesmo céu que pra mim, neste momento, é isso tudo, pra outro é um céu bonito e só. Sem essa frescura toda. Muitos nem iriam notar. Alguns poderiam ter idéia pra um poema romântico ou uma musiquinha melosa, outros lembrariam de casos antigos, outros fariam um blues dos mais deprês. Para alguns é real o lobisomem, para outros mais real é a fome – e aquele queijão lá em cima… (se cair nóis come).
Não adianta. Por mais que pra uns a lua pareça passar uma mensagem clara, pra outros a imagem é outra. Cada um tem a sua lua, e a minha é essa. Ninguém mais, nenhuma alma viva a ter, neste momento, esta visão. É para mim.
Resta-me, quem sabe, tentar partilhar um pouco desse meu céu, tentar passar um pouco do que a lua me disse, pra quem estiver do meu lado. Não posso querer substituir aquela visão, nem que eu fosse a mais bonita das criaturas – mas pra isso basta olhar pra cima, de onde quer que você esteja. Enquanto isso, vou tentando ser um pouquinho de “lua” pra quem não a viu como eu vi. Assim, quem sabe, posso tentar aprender também com o que ele viu e eu não… com o céu de cada um.
Gabriel Resgala – jan/09
PS: Sim, andamos sumidos… Culpa dos nossos computadores, que resolveram organizar uma greve sincronizada e falharam todos ao mesmo tempo… Pois é. Mas um dia cada colaborador do site ainda terá o próprio notebook corporativo da Vivo Pela Vida Foundation, com acesso à internet sem fio em qualquer canto – vai vendo…
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