Crônicas

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fernando sabino(Fernando Sabino)

Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta para o céu com o dedo:

- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?

Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.

- Mas então o céu não é o teto do mundo?

- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o próprio ar. O Japão fica é lá embaixo – e apontei para o chão:

- O mundo é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum país não,  só o céu mesmo, mais nada.

Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:

- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem mais nada…

Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.

Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação japonesa, feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado –  e  assim  que  me  vi  só, tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova aquisição.

globo terrestre

Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias, onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou ficando bom em geografia.

Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o mundo.

De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus… Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação ao longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para lhe enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a nossa pobre humanidade.

Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta que  meu  filho Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

mundo

(Originalmente publicada na coletânea “Deixa o Alfredo falar”, de 1976)

Com o mundo nas mãos
Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta
para o céu com o dedo:
- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?
Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.
- Mas então o céu não é o teto do mundo?
- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o
próprio ar. O Japão fica é lá embaixo- e apontei para o chão:- O mundo
é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum não,  só
o céu mesmo, mais nada.
Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:
- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem
mais nada…
Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio
esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá em-
Observações – 47
baixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes,
andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.
Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi:
um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação  japonesa,
feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O
menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a
Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar
doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo
se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui
convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe,
por exemplo, que faz um ventinho engraçado-  e  assim  que  me  vi  só,
tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova
aquisição.
Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que
a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de
penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os
Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem
me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a
confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem
Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A
Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim
apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha
coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para
que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias,
onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo
de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou
ficando bom em geografia.
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Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a
quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é
logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê
quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em
compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o
Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o
mundo.
De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o
globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se
escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja
um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com
meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do
tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto
da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios
de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos
continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado
de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus..  .  Tudo  isso    pequenino,
insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se
maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação  ao
longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da
eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo
caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para  ele  enviar
através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a
nossa pobre humanidade.
Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja
redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta
que  meu  filho  Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório,  me
arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

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Criança_ Clarinha… Segura firme, senão você cai!

_ Mamãe…

_ Sim, meu anjo!…

Foi hoje à tarde. Estava muito calor. Eu estava muito cansado. E ainda não estava indo pra casa… Tinha ainda uma reunião num bairro distante.

_ Mamãe, dentro da sua barriga tem uma… uma sementinha?

_ Tem sim…

_ Que foi… que foi o papai que colocou, né?

_ Foi.

_ E vai crescer e crescer… e virar o meu irmãozinho!!

Ela não aceitou o acento que ofereci. Não a Clarinha, mas sua mãe. Recusou, disse que o ponto em que iam descer estava próximo. Recusou. Mesmo carregando a sementinha na barriga.

Deveria ter insistido mais. Com toda a certeza. Mas nem foi o cansaço que me impediu; foi a falta de jeito mesmo, perante a simpatia daquela mãe. O cansaço já tinha ido embora. Ou melhor, ainda estava lá… Mas o sorriso daquela menina deixou-o muito mais leve, e – por que não? – prazeroso…

_ Segura, meu anjo! Segura firme!

É nessas horas que eu gostaria de conseguir ser um pouquinho mais extrovertido com estranhos, insistir em algo que é óbvio: aquele lugar não era meu, era daquelas duas que estavam ali em pé, espremidas no ônibus cheio, e do garotinho-semente que, apesar de provavelmente estar mais confortável que todos nós ali, também merecia sacudir um pouco menos. Mesmo que os lugares reservados para grávidas estivessem lá na frente, ocupados por estudantes que conversavam, animadas. A barriga ainda estava pequena, vale dizer; provavelmente só eu, enxerido ouvindo a conversa alheia, havia percebido que tinha uma “sementinha” ali dentro…

Mas não deu tempo de pensar muito mais. Clarinha logo desceu com sua mãe, me deixando um sorriso no rosto, e um pequeno peso nos ombros por não saber como retribuí-lo

O mínimo que posso fazer, pensei depois, é tentar passá-lo para frente. Não vai ser a mesma coisa, mas pelo menos é uma tentativa.

Que nossa semana seja, então, repleta de sorrisos de crianças! Se não de verdade, ao menos simbolicamente…

Criança sorrindo

Fechado?

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sentado na pedra_ Por que o medo?

É madrugada. Sozinho no terraço de casa, silêncio, chuva fina. Mais alto que os fios, mais baixo que as árvores. Lá embaixo o barulho da pequena fonte da praça, a rua molhada, o gramado orvalhado.Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem. Lá em cima aquele céu vermelho de quando a cidade não deixa a escuridão entrar. Lá na frente o morro, a mata, as luzes. Lá atrás os vizinhos, as casas, as camas… Tanta gente ao redor, tantas vidas, tantos sonhos.

_ O medo de altura não é o medo de cair; é o medo de saber que nada te impede de se jogar lá de cima”, dizia alguém…

Boto o pé no parapeito. É bom se apoiar, ficar mais próximo da pequena imensidão da vista do terceiro andar. Ver melhor tudo o que me circunda, lembrar que sou pouco.

_ “Do alto da pedra eu busco impulso pra saltar”, dizia uma música que não me saía da cabeça…

Todo aquele que procura uma verdade acaba, mais cedo ou mais tarde, descobrindo a primeira delas: a vida é mais forte que nós. Somos sempre fracos demais para encará-la. Não há relativismo que ignore isto, não há ego que suporte saber aquilo que tanto tenta esconder: a vida vence sempre. Nem que seja na hora da morte – eis, pois, seu triunfo maior! A morte é a vitória da vida: só morre quem está vivo. Não há como lutar contra o mais inevitável de todos os destinos. Ninguém tem esse poder.

E quanto mais se escancara essa verdade, quanto mais descobrimos nossa miséria e nossa inevitável derrota – na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza – mais nos sentimos desnudos, desarmados, acuados. Que posso eu diante de um tsunami, um raio ou um carro desgovernado? Quem sou eu para que a crise da bolsa não me atinja? Que é a ONU frente ao terrorismo suicida? Os direitos humanos frente à “lógica do mercado”?…

Que é o coração diante de uma louca paixão?
A mente diante do desejo?
A mãe diante do filho enfermo?
O diploma diante do desemprego?

Sim, até há como negar. Há como fingir, há como ofuscar. Há quem passe a vida num castelo de areia, faz-se rei. Mas a verdade – a Verdade! – é que o mar está lá. Hoje só ouço as ondas, mas um dia elas me alcançarão…

É preciso encarar o alto da pedra.

Da pedra se vê a imensidão do oceano, a batida das ondas, a vastidão do horizonte. Pisando na pedra vejo o quanto a vida é grande diante de minhas minhas idéias tortas. O quanto sou fraco e ela é forte. O quanto não tenho chance alguma.

É preciso pular.

Do alto da pedra vê-se outras pedras lá embaixo, onde posso cair. Mas também vê-se o mar.

Há como lutar e há como fugir. Há como pular. Há como sentir o vento a indicar o caminho. O vento sopra onde quer, não se sabe pra onde vai. Mas há como segui-lo…

Cair no mar. Ser um pedaço do oceano, nadar no infinito, consubstanciar-se naquilo tudo. Viver é escolher onde pular: pedra ou mar. Fugir da vida ou mergulhar nela.

É bom apoiar o pé no parapeito, aqui em cima. Curtir a paisagem. Não ter medo de altura.

Vivo de pequenos pulos… Um dia ainda dou um grande. Basta aprender que as asas do ser humano quem faz é o próprio vento

Viver é mergulhar.

Amar é desarmar-se…

Gabriel Resgala – Juiz de Fora, 21.10.08

(originalmente publicado no Humanando)

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coxa_de_frango_02

Enquanto vou acordando aos poucos, ouço a conversa lá na sala. Minha tia:

“…e eu sempre me perguntava quando é que eu ia comer a coxa do frango…”

Ela cresceu numa geração em que os mais velhos eram super-respeitados, criança não tinha vez. A elas restava o peito, a asa, o pé do frango… E, depois, foi vendo florescer uma época em que os filhos passaram a tomar conta da casa, e exigem a coxa com unhas e berros.

Felizmente hoje não é preciso mais tantas divisões, já vendem frango congelado em pedaços, pra uma distribuição de riquezas mais igualitária entre as “classes” familiares (hoje quem não tem vez é o frango, coitado, criado de forma cada vez mais desumana – ou “desfranguínea”, sei lá…). Mas, naqueles casos em que não há indústria alimentícia que dê jeito, alguns filhos literalmente matam os pais – e quem mais estiver pela frente – para conseguirem o que querem…

Isso me faz lembrar uma constatação de vários estudiosos do nosso tempo – inclusive dos psicanalistas, que em outra época tanto foram citados como responsáveis pela “liberalização” de tudo… Querendo ou não, a imagem de Freud sempre foi uma espécie de Che Guevara das rebeliões de costumes. Contra todas as repressões psicológicas, havia sempre quem citasse um “Freud diz”… “Freud explica”… Abaixo o machismo, a repressão sexual, a forma autoritária de criar os filhos… Abaixo tudo, acima a liberdade!

E foram mudanças importantes, não há como negar… mas quem realmente leva Freud e tantos outros estudiosos a sério sabe que hoje o problema é outro. Muitas revoluções, Pílulas e Conselhos Tutelares depois, a questão que mais tira o sono de quem estuda e cuida de pessoas e da sociedade em geral, embora ainda haja muito a ser “desreprimido”, é exatamente a falta de limites. Pulamos de um mundo altamente repressor, o do pé do frango, para um em que a coxa não é mais o resultado de uma conquista, mas uma exigência inegociável, doa a quem doer. Ninguém passou pelas lutas e pelo idealismo de outrora para chegar às conquistas, não vivenciamos as dificuldades, nem conhecemos a fundo o valor simbólico que uma simples coxinha tem. Mas já nascemos comendo coxa, então ai de quem nos vier com moela…

Esquecemos, no entanto, que nem sempre a falta de coxa é repressão. Ás vezes é só um limite, algo não só natural, mas também necessário para nós, reles humanos. Somos delimitados por natureza, sempre há uma criptonita a nos lembrar que até a maior das forças tem seu limite. A busca por descobri-lo, é claro, pode ser infinita, e isso é a vida: sempre desconfiar do dito “impossível”… Mas há um limite que somos nós mesmos que devemos demarcar: a fronteira do território alheio.

Enquanto não entendermos isso e nos esforçarmos por ensinar aos nossos filhos (para que não se tornem os roubadores de coxinhas de amanhã), vamos cansar de ouvir educadores, psicanalistas, psicólogos, sociólogos e esses “milionários” dos livros de auto-ajuda sempre baterem na mesma tecla: nossa sociedade carece de limites. Há tempos o problema já não está tanto no freio, mas no acelerador. Correr é bom, mas é preciso lembrar que a estrada não foi feita só pra gente. Tem mais gente no caminho.

Muito mais…

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lua_webDuas da madrugada. Acabei de ver um bom filme na TV, dei um pulinho na geladeira e vim pra cama, ler ou escrever um pouco até o sono me derrubar. Além de ser um feliz portador daquela estimável companheira de metade da população de cidades frias, a rinite alérgica, as minhas vias aéreas superiores são um verdadeiro labirinto, ficam desorientando o ar que só quer entrar e chegar aos pulmões. De modo que, se “pegar no sono” pra mim já é uma façanha difícil por natureza, quando a sinusite ataca tenho que quase ficar bêbado de tanto sono pra conseguir pregar os olhos… Mas tudo bem. É a vida.

Mas nem bem me recosto na cama, e o Billy de repente começa a latir e a uivar alto lá fora. Ah, esqueci de dizer: estou na roça com meu pai (que a esta hora já está no enésimo ronco), e o Billy é o nosso cão-de-guarda com cara de mau. Tem cara de rottweiler, o pêlo (e os carrapatos) lembram um vira-lata de rua, mas na verdade não passa de um labrador capado, preguiçoso como a mãe. Mas estranho aquela latição toda, e vou lá fora dar uma olhada. Corajosamente abro a porta, saio pra varanda, e quando olho pro lado lá está ela. Toda amarelona,  minguando ou crescendo, não sei. Só sei que quando não se tem nenhuma luz artificial por todo o raio onde a vista alcança, a lua parece sempre cheia, a noite é sempre clara, quando não há nuvens pra atrapalhar. Mas as poucas de hoje não atrapalham, pelo contrário: compõem com ela uma paisagem inenarrável, ostentada por sobre a pequena mata no alto do morro.

Então fico lá, meio que hipnotizado, contemplando aquele pequeno (?) espetáculo naquele pequeno (?) fim-de-mundo. Sapos coachando, grilos cricrilando, uma água correndo lá longe: eu, só eu, de ser humano acordado naquele lugar, talvez num raio de dezenas de quilômetros. O Billy, a essa altura, já trocando os latidos por arfadas simpáticas, feliz por ter atraído minha atenção. Me trouxe até aqui pra ver isso, garoto? Frio de orvalho, cheiro de mato. Tanta coisa se passando pela cabeça naqueles poucos instantes ali, olhando pra ela e suas nuvens-figurantes… Mas mais do que pensar, é daqueles momentos pra se sentir. De ouvir o silêncio dos sons da natureza. Quando tudo fala e a gente se cala…

E fico pensando, sabe? Como seria a humanidade, se todos parassem pra ver a lua, de vez em quando… Se se permitissem, também, ter essa sensação de um num-sei-o-quê-vindo-num-sei-daonde a inebriar os sentidos e a te dizer: “shhh! Escuta!” Calar por dentro e por fora, despir-se, desarmar-se. Sentir o vento, e só…

Mas aí me lembro que nossas sensações são moldadas, de certa forma, por quem nós somos, por nossa história. O mesmo céu que pra mim, neste momento, é isso tudo, pra outro é um céu bonito e só. Sem essa frescura toda. Muitos nem iriam notar. Alguns poderiam ter idéia pra um poema romântico ou uma musiquinha melosa, outros lembrariam de casos antigos, outros fariam um blues dos mais deprês. Para alguns é real o lobisomem, para outros mais real é a fome – e aquele queijão lá em cima… (se cair nóis come).

Não adianta. Por mais que pra uns a lua pareça passar uma mensagem clara, pra outros a imagem é outra. Cada um tem a sua lua, e a minha é essa. Ninguém mais, nenhuma alma viva a ter, neste momento, esta visão. É para mim.

Resta-me, quem sabe, tentar partilhar um pouco desse meu céu, tentar passar um pouco do que a lua me disse, pra quem estiver do meu lado. Não posso querer substituir aquela visão, nem que eu fosse a mais bonita das criaturas – mas pra isso basta olhar pra cima, de onde quer que você esteja. Enquanto isso, vou tentando ser um pouquinho de “lua” pra quem não a viu como eu vi. Assim, quem sabe, posso tentar aprender também com o que ele viu e eu não… com o céu de cada um.

Gabriel Resgala – jan/09


PS: Sim, andamos sumidos… Culpa dos nossos computadores, que resolveram organizar uma greve sincronizada e falharam todos ao mesmo tempo… Pois é. Mas um dia cada colaborador do site ainda terá o próprio notebook corporativo da Vivo Pela Vida Foundation, com acesso à internet sem fio em qualquer canto – vai vendo…

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Criança com chapéu

Outro dia fui numa peixada com meus pais. Nada demais, uma reunião de amigos que jogam bola juntos – tilápia frita, arroz e pirão. Hum… mas tava bom, viu!…

Conversa vai, conversa vem… Lá pelas tantas, o papo caiu nas boas lembranças de passados simples, mas felizes. Me lembrei que uma das melhores épocas da minha infância foi justamente no ano em que moramos na pior casa de todas. Eu tinha 4 anos, foi quando chegamos (eu, meus pais e meu irmão) em Carangola.  A coisa não era fácil, meu pai só dormia em casa de 15 em 15 dias, ele trabalhava em outra cidade pra conseguirmos pagar o aluguel – e dava uma saudade doída dele… Era uma casinha velha caindo aos pedaços, no fim de uma rua sem saída que dava pra uma trilha no meio do matagal. Atrás tinha um pequeno barranco, ao lado um terreno abandonado, do outro lado um córrego bem sujinho. Ou seja, barata era bicho pequeno pra aparecer por lá… não me lembro bem dos ratos, mas não me esqueço do meu pai matando as aranhas caranguejeiras. Dava medo!

Além disso, a casa não tinha forro embaixo do telhado, que por sua vez não tinha uma telha nova. Ou seja, impossível ficar livre das goteiras. Quando não era goteira, era cupim: aquele pozinho de madeira caindo do teto bem em cima da gente… Um dia meu irmão amanheceu encharcado, minha mãe pensou que tinha feito xixi na cama, mas era goteira…

Mas era o máximo. Brincar na rua à vontade, às vezes no terreno baldio; fazer “arte” com o barro do quintal, pique-pega nos corredores ao redor da casa. Ajudar o pai a pegar adubo no pasto lá atrás, pra por na hortinha que ele fez do lado da varanda dos fundos. Pegar goiaba direto do pé que cresceu no quintal. Se vislumbrar com a aventura que era cada vez que chovia: os móveis da casa arredados, panelas pra todo lado, aquele ping-ping chatinho…

Eu era tão feliz que minha pele nunca era completamente branca: estava sempre cheia de manchas e manchas de mercúrio-chromo, tudo vermelho. Um dia eu disse a uma amiguinha, vizinha de frente: “Graças a Deus, hoje eu só tenho um machucado, nesse joelho aqui!” E ela: “Graças a Deus, hoje eu não tenho nenhum machucado!”. Não acreditei: “Nenhum?” E ela confirmou: “Nenhum!” Achei fantástico aquilo, não sabia se seria capaz de algum dia atingir tal meta. Até que um dia, distraído na sala, analisei meu corpo e percebi que as últimas façanhas já tinham cicatrizado. Não acreditei, soltei um grito e fui correndo (literalmente) contar a novidade à vizinha – algo realmente perigoso numa casinha pequena, com os móveis apertados entre os cômodos. Fiquei na quina da mesa da cozinha. Uma pancada daquelas, bem no ombro. Não me esqueço: aquela foi a primeira vez que meu pai passou arnica – natural, embebida a álcool – num machucado meu, quando estava difícil dormir de tanto que o troço tava doendo à noite. Se fosse hoje em dia, provavelmente os vizinhos teriam chamado o Conselho Tutelar ao acordarem de noite com aquela potência sonora que só as cordas vocais da primeira infância conseguem atingir: “Aiiiiiii paaaaaaaaiiiii!!!”. Aquela doeu.

No Natal montamos um presepiozinho antigo, que fora da minha bisavó (e que montamos até hoje, aqui em casa). Meu pai colocou um abajur em cima pra iluminar, e brincou: “Abre e fecha o olho, pra parecer pisca-pisca!” Dormi cedo, acordei no começo da madrugada, os adultos ainda acordados: “Papai Noel já passou??” E a minha mãe com aquele sorriso: “Já sim!!” Naquele Natal eu não havia pedido nada específico, mas ganhei um monte de coisa: carrinho, um joguinho qualquer, bolinha perereca-voadora (daquelas de borracha que você joga na parede e ela volta com a mesma força, seja qual for o infeliz objeto ou pessoa que estiver em frente), e sei lá mais o quê… Tive que segurar os gritos de alegria, pra não acordar meus primos que dormiam na sala. No outro dia meu pai me explicou que Papai Noel não existia. Estranhei aquela história toda: quer dizer então que os pais do mundo inteiro conseguiam enganar os filhos todo Natal? Difícil de acreditar… Mas tudo bem. O próximo Natal não seria menos feliz.

Eu tinha apenas 4 anos, mas sou capaz de passar o dia relembrando histórias daquela época, com direito a detalhes novos, que não me lembrava há muito tempo. E olha que foi apenas um ano vivendo lá. Já mudamos de endereço inúmeras vezes, mas aquela foi a única vez em que chorei. Chorei de verdade, com o coração realmente apertado. Mesmo sabendo que iríamos para uma casa muito melhor…

Ás vezes preciso me lembrar dessa época. Me lembrar, sobretudo, de tanta gente que passa muito mais aperto do que nós já passamos, e estranhamente conseguem ser até mais felizes. Hoje eu vejo o quanto era sofrido morar lá, e o quanto seria cada vez mais difícil continuarmos. Mas, naquela época, eu só enxergava o que era o mais importante, o essencial. Não é função das crianças olhar o futuro ou resolver os problemas – para isto o mundo está cheio de adultos. Elas servem para nos lembrar da existência do céu

Ouvindo Pe Zezinho e Silvio Brito: “Faltava tudo, mas a gente nem ligava”…

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Criança

Foi segunda. Estava eu chegando em Juiz de Fora, voltando de viagem do Rio, carregando uma mala de rodinhas pelas calçadas esburacadas do bairro, além de uma mochila com um peso considerável nas costas. Foi um daqueles dias cheios, mas um dia bom. Por isso mesmo, decidi economizar no dinheiro do táxi e pegar um ônibus pra vir da rodoviária pra casa, só teria que andar um pequeno pedaço à pé. Estava animado, cheio de coisas na cabeça… Voltando da primeira visita à casa da namorada, que mora em terras fluminenses. Um misto de entusiasmo e incerteza, saudade do que deixara pra trás, mas com esperança do que vinha pela frente…

Por isso o cansaço, apesar de grande, não me impediu de carregar aquele pequeno peso mais um pouco até em casa. Estava um começo de noite bonito, tranqüilo… o que custava andar um pouco?

Foi quando eu pude relembrar o lado cômico de São Pedro.

Começou com uns pingos d’água, aqui e ali. Procurei marquises, algo bastante improvável num bairro residencial. Correr não podia; andar rápido era o máximo que meu corpo cansado e as rodinhas da mala suportavam. Os pingos rapidamente engrossaram, percebi que o Pedrão tava a fim de curtir uma chuva de verão básica, daquelas “visita de sogra”: surgem do nada, fazem um estrago danado e depois vão embora tranqüilas, como se nada tivesse acontecido. Era preciso pensar rápido.

Procurei uma pequena árvore na calçada, raciocinei que pelo menos por alguns minutos eu ali estaria abrigado. Foi eu me esconder da chuva, que ela de repente foi ficando mais violenta, como se quisesse me pegar de qualquer jeito. Logo depois, porém, estiou um pouco. Pensei: “é agora, falta pouco pra chegar em casa, acho que se eu for rápido não me molho muito”. Mas caí que nem um patinho: a chuva só estava esperando eu sair pra engrossar de novo.

Corri até a próxima árvore, e a bendita chuva estiou de novo. Então esperei ela ficar ainda mais fraca, pra assegurar, e ameacei enfrentá-la mais uma vez. Juro: foi eu botar o pé pra fora da segunda árvore, e a chuva voltou a engrossar. Juro pela sogra do Pedrão (aquela que Jesus curou, lembra? – pois é, e dizem que papa não tem sogra…).

Só me restou correr pra baixo da terceira árvore, e esperar. Não havia mais onde me abrigar, e a chuva engrossando, as folhas logo não iriam mais segurar a água… Nisso vieram uns adolescentes correndo pra debaixo da árvore também. Ficaram alguns segundos, perceberam que não ia adiantar muita coisa ficar ali, e então tomaram coragem e saíram correndo e rindo pela rua, debaixo daquele aguaceiro todo. Ah, que inveja. E eu que tinha acabado de rever Cantando na chuva, na casa da namorada. Se não estivesse com tanta bolsa…

Nisso ouço uma vozinha me chamar: “Quer entrar aqui?” Era um garotinho de uns 8 ou 9 anos, na varanda da casa em frente a mim. Como bom mineiro, minha primeira resposta foi automática: “Não, ’brigado, vou ficar aqui mesmo, logo a chuva passa!” Mas logo constatei que a última oração da minha frase era uma inverdade. E acabei cedendo ao convite do menininho simpático, ante sua insistência.

Entrei e fiquei ali na varanda/garagem. Era grande, deviam caber uns três carros, mas não havia nenhum. Não ouvi barulho de gente lá dentro. Estaria o menino sozinho em casa?

_ Quer um cafezinho? – perguntou.

_ Não, ’brigado!

_ Quer uma água? Quer entrar?

_ Não, valeu! Eu fico por aqui mesmo…

_ Tem certeza?

Imaginei a cena: eu, um rapaz nos seus quase 26 anos, entrando na casa do garoto, pingando água pelo chão, me apresentando pra sua mãe: “Boa noite, seu filho me achou perdido aí fora na chuva. Hum… tem Toddy, ou só café mesmo?”

Nisso me lembrei de ligar pro meu irmão. Eu estava só a uma esquina de casa, não custava ele vir me pegar, de guarda-chuva.

_ Não quer nem uma água, não?

_ Não, valeu!

_ Você tá vindo de onde?

_ Do Rio.

_ Do Rio? Poxa, lá é quente, né?

_ É, bem quente.

_ Eu estive lá uns dias atrás… fiquei uns 15 dias lá. Na casa da minha tia Inês. Conhece?

_ Ela mora aqui no bairro?

_ Não, lá no Rio! É uma de cabelo curtinho.

_ Não, não conheço…

Liguei pro meu irmão, enquanto prendia o riso. Que bom, ele estava em casa, e já estava vindo!…

_ Não quer água mesmo não?

_ Não, valeu…

_ Um dia ainda quero morar no Rio.

_ Você gosta de lá?

_ Lá é muito bom! É quente, tem praia… é bonito…

Não resisti a provocar o esteriótipo:

_ Mas é violento também, né…

_ Ô! Rapaiz… lá, se você colocar a cabeça na janela e não ouvir tiroteio, você não tá no Rio… Quando eu tava lá, minha tia foi buscar a filha na escola um dia, e aí…

“Que garoto!”, ri por dentro. Será que eu era assim na sua idade? Não, eu era bem mais tímido… Com certeza…

_ …por que será que as pessoas são tão violentas assim? Por que elas matam, roubam?…

Pronto. Uma pergunta de criança, daquelas que deixam qualquer adulto sem saber o que dizer. Sim, já fiz muitas delas. Mas agora eu era o adulto. E fiquei pensando no que sei sobre o assunto… Já fiz vários trabalhos sobre violência quando era bolsista de psicologia social, gosto de ficar filosofando pelos cantos sobre a natureza humana, brincando de formular conceitos antropológicos, éticos, teológicos. Mas eis que vem uma pergunta simples, feita por alguém a quem deve-se dar uma resposta simples… E agora?

Ele foi mais rápido:

_ Não sei por que… Eles não ganham nada com isso. Só dinheiro.

Taí. Naquela hora entendi por que Jesus botava as crianças no colo e dizia que o Pai revelava-lhes grandes segredos, ocultando-os dos sábios e entendidos…

Meu irmão chegou, com dois guarda-chuvas. O garoto ainda nos ofereceu mais um copo d’água, antes de nos despedirmos:

_ A gente se esbarra por aí!

Fomos embora cantando na chuva, agora um pouco mais fraca. O filho da minha mãe não consegiu proteger a mala embaixo do guarda-chuva enquanto dava seus passinhos de dança no meio da água (“Poxa, que pena que você tava pertinho de casa, nem deu pra eu me molhar direito!”). O que molhou foram uns certificados de congressos – alguns que nem eram meus -, textos do mestrado, um CD-Rom e um livro de capa bonita que eu tinha acabado de comprar. Ficou tudo com as pontas amassadas, enrugadas por causa da água que entrou no bolso lateral da mala, naquele curto trajeto entre a esquina e a nossa casa. Depois de tanta luta pra não molhar nada, Pedrão finalmente venceu.

Tudo bem. Só pra não dizer que o dia foi perfeito

Cantando na chuva

Gabriel Resgala
08.11.08
(crônica originalmente publicada no Humanando)

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