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Faz muito tempo que tenho relutado em escrever este pequeno post, não pelo texto em si, mas pelo seu conteúdo simbólico.

Ele marca uma espécie de retomada, um voltar a partir de outro ponto. Já dizia um velho provérbio latino que “O tempo muda e nós mudamos com ele“.

Acredito que também mudei um pouco nesse tempo em que estive um pouco de fora, acompanhando o site com relativa distância. Aconteceu que em um belo dia eu resolvi seguir o conselho de nosso “ADEVOGADO” e curtir uns momentos de necessário silêncio.

Muita coisa aconteceu neste intervalo, e talvez a frase que mais sintetize o meu espírito nesta retomada é: “Não tenho nenhum compromisso com as minhas idéias, o meu compromisso é com a verdade”, do genial Anísio Teixeira.

Não sei exatamente como será o prosseguimento das minhas idéias, mas que prossigam.

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mãos

(Veja a primeira parte aqui)

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Estrela Natal

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando)

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…

Veja a primeira parte aqui) [LINK])

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando [LINK])

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…

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Pôr do sol

A garota corria radiante pelas ruas de pedra do pequeno vilarejo; quem a visse passar, nem que fosse por uma fração de segundo, certamente notaria o sorriso encantador que transfigurava-lhe todo o rosto, excedendo os limites dos lábios. Com certeza tinha algo muito bom a fazer, aonde quer que estivesse indo…

Chegou à pequena casa, bateu ansiosa à porta.

_ “Seu” Zé! “Seu” Zé!

José estava nos fundos, cortando pacientemente um duro pedaço de madeira, que parecia nunca ceder. Era daquelas madeiras enjoadas, difíceis de cortar, mas fáceis de lascar. Já lhe tomara boa parte da tarde, mas o pacato Zé não parecia angustiado; pelo contrário, mostrava-se excitado com o desafio de achar a dose certa de força a se aplicar. “Madeiras são como pessoas”, pensava. “Cada uma exige a habilidade certa para se lidar, o equilíbrio correto…”

Mas a notícia que receberia, ao abrir a porta assustado, lhe lembraria alguém capaz de lhe desconcertar por inteiro, fazendo-o se sentir sem habilidade alguma.

_ “Seu” Zé, a Maria chegou!

Imediatamente bateu na roupa para tirar o pó, pegou as sandálias e saiu afoito, andando o mais rápido que podia. A idade o impedia de correr como a pequena mensageira, mas não de sorrir como ela. Os observadores daquelas ruelas agora viam um jovem senhor a ir ansioso pelo caminho inverso ao da menina serelepe, num misto de encantamento e angústia.

Sim, aquele sereno coração de carpinteiro era capaz de se angustiar, como qualquer outro; mas a sensação agora era simplesmente aquela tênue angústia de quem não vê a hora de matar uma doce saudade.

_ Maria chegou! A minha Maria…

Chegou à casa, bateu na porta. Joaquim atendeu, jovial.

_ Ora, ora! Mas a noiva mal chegou e você já vem vê-la, heim? Não vai nem esperar a moça descansar da viagem?.Esse é o meu genro!…

Riu e o abraçou, caloroso. Não havia sogro mais bem-humorado.

_ Vamos entrando! Maria está no quarto com a mãe, arrumando suas coisas. Logo, logo aparece…

José sorriu, enquanto tentava segurar a ansiedade. Esse “logo, logo” poderia ser uma eternidade. Que remédio, teria mesmo que esperar! Mas paciência… pra quem já esperara mais de três meses…

Conversou longamente com Joaquim, até que chegou Ana.

_ Olá, José. Maria está lhe esperando. Ela quer muito falar com você.

Sorriu para os sogros, e foi ao tão aguardado encontro com a pequena noiva.

_ José, meu querido!

Abraçou-a forte, como se nunca mais a fosse largar. O coração disparado, os olhos brilhantes, quase transbordando, a denunciar a saudade contida. Nunca sentira aquilo por ninguém; Maria era capaz de desarmar-lhe, de fazê-lo render-se aos mais profundos sentimentos que lhe tomavam a alma. Com ela, ele tinha os sonhos mais encantadores, cheios de amor, de esperança; com ela, ele tinha .

Como sempre, ela estava linda. Aquela beleza encantadora, de quem comunica mais com um olhar do que com mil pergaminhos. “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam”, dizia Salomão em seu Cântico. Teria ele conhecido Maria?

_ Ah, José, como senti saudades suas enquanto estava na casa de Isabel! Nem pudemos nos despedir quando fui, pois você estava no campo e eu parti às pressas…

_ Sim, sim, eu soube!… Mas não importa, o que importa é que agora está aqui, comigo…

_ Ah, José…

E ria, radiante. Maria transmitia uma alegria serena, mas intensa. Estava, porém, diferente; não parecia mais aquela menina de quem José ficara noivo. O sorriso era o mesmo, mas não era o de sempre. Ela agora sorria como… como uma mulher.

_ Ah, José, quanta coisa linda vivi neste tempo… Quanta coisa maravilhosa! Acompanhei os três últimos meses de gravidez de Isabel, ela e Zacarias estão radiantes com o filhinho que Deus lhes deu, o pequeno João!…

_ Gravidez? Mas Isabel não era estéril?

_ Sim! Foi um grandioso presente de Deus, uma dádiva dos céus, José!…

Sorriu. Mas algo lhe dizia que Maria tinha uma coisa importante a lhe dizer. E não estava com cara de ser algo simples.

_ Maria…

_ Sim?

¬_ Sua mãe comentou que queria me contar algo…

Maria ficou séria. Continuava, contudo, serena, como se contemplasse algo.

_ Sente-se…

Sentaram-se. José a olhava fixamente.

_ Sim, José… tenho algo a lhe dizer. Algo muito importante, a transformar tudo… Tudo mesmo.

Silêncio. Mesmo sem perder a serenidade, por um instante os olhos de Maria vacilaram, desviando-se para o chão. Como contar? Como dizer o indizível? Não havia como explicar. Ele teria que sentir na pele, experenciar aquilo tudo.

_ José… me dê a sua mão.

Pegou a mão do noivo, com firmeza. Trouxe-a vagarosamente para junto de seu corpo, até que tocasse seu ventre, por cima do manto. José permaneceu alguns segundos ainda um pouco assustado, com a mão ali, tentando compreender do que se tratava. Notou que a barriga da noiva estava um pouco estufada e, de súbito, percebeu com o olhar que os seios estavam maiores, mais redondos – tirou então a mão num ímpeto, como se tivesse tocado uma chama ardente.

_ Maria!…

Os olhos estavam atônitos, a boca aberta, a mente ainda sem conseguir entender. Maria continuava serena, com um olhar compassivo.

_ Ah, minha pequena! – disse, enfim, enquanto a abraçava, lânguido. Como foi acontecer uma coisa dessas? Por Deus, quem foi lhe fazer uma coisa dessas?!

_ José…

Ele a olhava, transtornado.

_ Meu Senhor, quem teve a coragem de lhe fazer isso, minha Maria? Quem foi o homem sem coração que não teve piedade de ti?… Quem é este, que não ama a própria vida?…

_ José…

Parou, e olhou-a profundamente.

_ José, ninguém me fez mal algum.

Então o corpo de José paralisou-se. Entrou em estado de choque, não conseguia mover os olhos esbugalhados, a boca aberta, as mãos caídas ao lado do corpo. Sua face estava branca como de um cadáver, não conseguia sequer elaborar algum pensamento.

Aos poucos, porém, os movimentos foram voltando-lhe, conseguiu enfim balbuciar algo.

_ Maria… você…

Ela continuava séria, olhando-o com compaixão. Não parecia, de forma alguma, estar confessando um grave crime, que poderia custar-lhe a vida.

_ Não, não pode ser verdade. Você não, Maria. Não é possível!

O olhar mariano não mudava.

_ Maria, você seria a última mulher em toda a Terra a fazer isso algum dia. Você ama a vida, Maria. Não seria capaz de fazer algo assim…

Ela conhecia as regras para quem fosse apanhado em adultério – um provável apedrejamento.

_ José…

_ Não, minha amada, não é necessário proteger quem lhe fez isto desta forma, nós arrumaremos um jeito! Não é preciso sacrificar-se, nem a esta pobre criança que você carrega dentro de si! Por Deus, não será preciso derramar sangue algum!

_ José, você crê em Deus?

A pergunta o desconcertou. Ele temia profundamente a Deus, e Maria não só o sabia, mas era sua companheira de orações diárias. Por que lhe perguntava isso agora?

_ Maria, você sabe que minha vida é toda do de Deus. Do Deus de Abraão, de Jacó e do pai Davi. Sem Ele, sou como o pó da estrada… não sou nada.

_ Então, José, ore. Ore e creia que 0 Senhor cuidará de tudo.

Foi para casa ainda meio que em choque, olhando para o longe sem ver nada. Ainda não conseguia entender, enquanto milhares de pensamentos percorriam concomitantemente sua cabeça. Os passos lentos de agora em nada refletiam a ansiedade de quando viera, momentos antes, pelo mesmo caminho. Agora, sim, sentia angústia de verdade.

A tarde já se ia, a noite começava a despontar. O céu limpo ia tomando um azul cada vez mais escuro, enquanto estrelas iam surgindo aqui e a ali. No oeste, um vermelho-alaranjado denunciava que o sol ainda estava por perto, recém-escondido atrás do monte, enquanto a lua ganhava cada vez mais brilho no horizonte oposto. Ainda estava grande e amarela, insistindo em iluminar a escuridão que surgia.

O olhar de José foi se voltando para o céu, e sem perceber começou a contemplar aquela bela cena, que poderia tranqüilamente passar por corriqueira – e que, de certa forma, não deixava de sê-lo. Quando deu por si, estava parado no meio da rua, a olhar para o céu, sem pensar em nada. Por um instante, sentiu paz. Não estava sozinho.

Passou o resto da noite a meditar as escrituras, os preceitos que guardava com afinco na mente e no coração. Pensou nas penalidades aplicadas a cada caso, estupro, adultério, rejeição… A última coisa que queria era denunciar Maria, isso nunca! Morreria por ela, mesmo que tivesse cometido o pior dos pecados. Mesmo que fosse a última das pecadoras, aquela mulher merecia todo o perdão do mundo.

Sim, a lei era necessária, mas… Não seria justo! A lei servia para proteger o povo do pecado, e nisso era boa… mas como salvar a pobre alma que caísse em pecado? Quem salvaria a mulher pecadora, quem salvaria a todos?…

Pensou em abandoná-la em segredo. Fugiria para longe, sem nada dizer; assim pensariam que o filho era seu, e portanto dariam todo o amparo a ela e à criança. Toda a cidade iria amaldiçoá-lo para sempre, mas sabia que Deus seria sua testemunha, e lhe protegeria de qualquer desgraça.

Sim, era o melhor a fazer. Sangue algum seria derramado. Estava resolvido.

Mas… por que ainda algo não lhe parecia estar bem? Por que não sentia firmeza em seu coração?

Preparou-se para dormir. Já deitado, lembrou-se do pedido de Maria para que orasse. Dirigiu-se a Deus, já sem forças, entregando-lhe toda aquela situação. Agora tudo estava em Suas mãos, já não dependia da sua limitada inteligência humana, de simples carpinteiro. Que fosse feita a vontade divina, independente de qual fosse. Recitou alguns salmos, sussurrou profecias. Dormiu rezando.

Passou uma noite agitada, virando-se várias vezes na cama durante o sono. Até que uma luz fê-lo ir acordando aos poucos. Uma sensação misteriosa, então, foi apoderando-se de sua alma; arrepiou-se, sentindo um misto de temor e fascínio. Abriu os olhos devagar, distinguindo aos poucos uma figura difícil de descrever, só saberia dizer que, por algum motivo, sabia de onde aquela criatura viera. Sentia, naquele momento, que estava envolto ao sagrado.

_ José, filho de Davi!

Sim, era um anjo. Um anjo a falhar-lhe!

_ Não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o povo dos seus pecados.

Ele poria nome no menino!? Então Deus havia lhe escolhido como pai!

_ José, creia que tudo isto aconteceu para se cumprir o que Deus falou por meio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, Deus conosco!”

Sim, a profecia! Então ele fora o escolhido!

_ A profecia! – gritou, levantando-se num ímpeto. O anjo sumira, agora via seu quarto, e a manhã começando a despontar timidamente no céu ainda negro, lá fora.

Saiu correndo, do jeito que estava. Agora sim sentia-se um menino, a atravessas as ruas como um alazão, percorrendo o trajeto mais rápido do que nunca fizera.

_ Maria!!

Nem bateu na porta, foi direto à janela do quarto da noiva, assutando-a.

_ José!

_ Maria, não é preciso dizer nada, minha amada! Agora eu sei, agora eu vejo o que Deus realizou em ti! Eu sabia que seria incapaz de fazer algo assim, tu não tens pecado, minha doce Maria! Pelo contrário, és a mais pura das mulheres!

_ Eu nunca te trairia, meu José…

_ Nem a mim nem a Deus, minha Maria! Eu sempre soube disso. Por isso não conseguia entender… Mas Deus me iluminou a mente, e agora eu compreendo! E como me deixa feliz ver tudo que Ele está realizando em nós! Você alcançou graça diante de Deus, minha amada. Ele te escolheu entre todas as mulheres…

_ Ah, José! Te digo que meu espírito exulta de alegria pelas maravilhas que Deus está realizando! Deus se fez homem, e está aqui dentro de mim… Ele olhou para a nossa humildade, nós que somos simples servos, tão pobres… Veja, José: Ele retira o trono dos poderosos, dos gananciosos, e escolhe os puros e simples!…

_ E nós somos testemunhas disso, minha Maria. Nossa vida será um testemunho vivo das maravilhas que Deus realiza através do seu povo!

E assim foi…

Continua (amanhã!)…

flor no deserto2 pb

PS: Pelo terceiro natal consecutivo, estou publicando este conto. Gosto de fazer novas reflexões a cada ano, mas mais uma vez (especialmente pelo evangelho de hoje) me senti impelido a botar aqui este meu pequeno exercício imaginativo: “como terá sido o 1º natal aos olhos de S. José”? É uma das coisas que mais me alegro de ter conseguido fazer; não por ser uma “obra-prima”, mas pela reflexão que gera. Quais os detalhes daquela noite, e de tudo o que a antecedeu? Não percam, amanhã, as cenas do próximo capítulo… ;)

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fernando sabino(Fernando Sabino)

Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta para o céu com o dedo:

- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?

Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.

- Mas então o céu não é o teto do mundo?

- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o próprio ar. O Japão fica é lá embaixo – e apontei para o chão:

- O mundo é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum país não,  só o céu mesmo, mais nada.

Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:

- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem mais nada…

Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.

Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação japonesa, feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado –  e  assim  que  me  vi  só, tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova aquisição.

globo terrestre

Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias, onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou ficando bom em geografia.

Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o mundo.

De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus… Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação ao longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para lhe enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a nossa pobre humanidade.

Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta que  meu  filho Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

mundo

(Originalmente publicada na coletânea “Deixa o Alfredo falar”, de 1976)

Com o mundo nas mãos
Bernardo tem 5 anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta
para o céu com o dedo:
- É atrás daquele teto azul que fica o Japão?
Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.
- Mas então o céu não é o teto do mundo?
- Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do  céu  é  o
próprio ar. O Japão fica é lá embaixo- e apontei para o chão:- O mundo
é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum não,  só
o céu mesmo, mais nada.
Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:
- Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem
mais nada…
Difícil de lhe explicar o  que  até  mesmo  a  mim  parece  meio
esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá em-
Observações – 47
baixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às  vezes,
andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.
Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi:
um desses globos terrestres  modernos,  aliás  de  fabricação  japonesa,
feitos de matéria plástica e que se enchem de  ar,  como  os  balões.  O
menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o  Japão  e  a
Inglaterra, o Brasil,  os  países  todos.  Limitou-se  a  fazê-lo  girar
doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo
se  dispôs  a  sair  jogando  futebol  com  ele,  não  deixei.  Consegui
convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo  da  mãe,
por exemplo, que faz um ventinho engraçado-  e  assim  que  me  vi  só,
tranquei-me no escritório  para  apreciar  devidamente  a  minha  nova
aquisição.
Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri  que
a Coréia é muito mais lá para cima do que eu imaginava- uma espécie  de
penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O  que  é  que  os
Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O  Vietnã  nem
me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a
confusão de países por ali, eu vou te contar.  Tem  a  Tailândia  e  tem
Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia.  A
Tasmânia não tem. Pelo menos não  encontrei.  Continua  sendo  para  mim
apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor  da  minha
coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos,  para
que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas  Arábias,
onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Saudi-Arábia, Iêmen, e  o  diabo
de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar.  Estou
ficando bom em geografia.
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Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última  pessoa  a
quem perguntei, me disse que ficava nos limites de Aznavour. Pois fica é
logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê
quem pode. E fez aquele sucesso todo no  Festival  da  Canção.  Em
compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o
Pólo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar  para  encher  o
mundo.
De repente me vem uma idéia meio paranóide. De tanto  apalpar  o
globo de plástico, ele acabou  meio  murcho,  acho  que  o  ar  está  se
escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu  seja
um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com
meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no  cosmo,  e  do
tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo  visto
da lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus  oceanos  cheios
de peixes  e  singrados  por  navios,  as  cidades  agarradas  aos
continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado
de  aviões,  de  gaivotas,  e  de  urubus..  .  Tudo  isso    pequenino,
insignificante, microscópico, os homens  se  explorando  mutuamente,  se
maltratando, se assassinando para colher um  segundo  de  satisfação  ao
longo de séculos de História, não mais que alguns  minutos  em  face  da
eternidade.  Que  aventura  mais  temerária,  a  de  Deus,  escolhendo
caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para  ele  enviar
através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de  redimir  a
nossa pobre humanidade.
Faço votos que tenha valido a pena e que  um  dia  ela  se  veja
redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma  bola,  como  esta
que  meu  filho  Bernardo,  irrompendo  alegremente  no  escritório,  me
arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

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Bebê na rede de proteçãoHoje tirei uma rede do meu quarto. Quando mudamos de apartamento, há alguns meses, estava lá aquela redinha de nylon, tampando as duas janelas da casa. O apê é até bem arejado, todo cômodo tem uma basculante por onde entra bastante luz, vento e um ou outro passarinho intruso. Dá pra ver um pedacinho do sol, se você tiver num dia bem romântico (ou meio “fresco” mesmo) e inventar de subir num banquinho pra ver a beleza do nascente. Mas bom mesmo, pra mim, é uma bela janela.

Então, após algumas semanas vendo a rua quadrada, de repente resolvi pegar uma tesoura e dar um fim naquele negócio. Na hora, me veio à mente uma cena nada agradável: o caso Nardoni, que teve grande repercussão na mída recentemente. Um pai com uma tesoura na mão, cortando uma rede de proteção igual à minha, mas por um motivo bem menos nobre: assassinar a própria filha, para tentar ocultar a sua culpa e a da esposa por terem espancado a criança. Em última instância, tanto eu quanto ele cortamos a rede buscando um pouco mais de liberdade.

E fiquei pensando sobre o significado de cortar uma rede de proteção. Ela existe, como o nome sugere, para proteger crianças de possíveis quedas. Adultos, teoricamente, não precisariam delas, porque saberiam lidar com a liberdade que têm. Nossa vida é cheia de redes: regras, ordens, restrições. Impostas, negociadas ou simplesmente inerentes à natureza, elas estão sempre ali, a nos limitar. Quanto mais novos, mais precisamos delas: crianças pequenas ainda não têm a experiência necessária para saber que se debruçar na janela é perigoso; para tal é preciso equilíbrio, que só vem com o tempo.

pássaro liberdade

Depois de uma certa idade, algumas redes são retiradas, mas outras redes sempre ficarão lá, a nos lembrar o que é certo e o que é errado, como devemos ou não viver. Sempre poderemos dar uma de Alexandre Nardoni, e cortar uma rede que sinaliza algo que não deveríamos fazer. Mas teremos que arcar com as conseqüências.

Uma rede é frustrante quando não concordamos com a razão dela existir. Às vezes estamos certos em protestar; às vezes não. Às vezes queremos cortá-la por simples curiosidade, por não sabermos a razão de estar ali. Quanto menos tentarmos explicar às crianças o sentido das redes, mais curiosas elas serão. Podem até não querer transgredir, por medo. Mas custarão a ter a plena consciência, por elas mesmas, do que devem ou não fazer.

Me lembro da infância, das coisas que aprendia e não fazia, pelos simples fato de meu pai conversar a respeito. Outras, simplesmente proibidas, sempre me inquietaram. Era mais difícil lidar com elas, mais frustrante. Freud dizia que a vida é um eterno lidar com a frustração (é claro, sendo Freud, sempre arranjava um termo chulo pra tudo: “castração”). Castrados ou não, talvez o primeiro passo pra aprender a viver seja mesmo descobrir que sempre seremos limitados, haja o que houver. A questão é saber como lidar com essa limitação.

Os Nardoni não souberam; eu espero saber lidar com a minha. Sei que, agora, posso olhar um pouco mais longe pela janela, mas sei que não posso voar por ela (embora às vezes lá no fundo dê vontade, né? rs). Tenho menos uma rede na vida, mas sei que nunca estarei totalmente livre delas. Um dia, quem sabe, não será uma delas que irá me proteger de alguma queda?…

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Mais um dia comum…

pegadas_01

Suspeita de pneumonia, problemas no mestrado, no trabalho, um calor chato e uma eterna pergunta que não para de martelar… Para onde estou indo?

Sim, queria saber onde.

Tantos são os caminhos. Para alguns deles sei que não sirvo, outros simplesmente  não me servem.

Talvez seja por isso que penso tanto em ter um gato, meu eu-alice cansou de não se importar…

Mas existe esperança. Que surge numa música ou no silêncio do depois, mas vem lembrar que devo estar no caminho certo… pelo menos um pouco mais certo do que o último passo.


Almir Sater e Renato TeixeiraTocando em Frente

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mãos(Veja a primeira parte aqui)

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Estrela Natal

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando)

PS: Devido a problemas de conexão, só agora consegui postar essa segunda parte do conto, que estava prevista para hoje de manhã. Peço desculpas, mas creio que ainda é tempo: afinal o “amanhã” de ontem ainda não acabou… rsrsrs…

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…


Veja a primeira parte aqui) [LINK])

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando [LINK])

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…

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Pôr do sol

A garota corria radiante pelas ruas de pedra do pequeno vilarejo; quem a visse passar, nem que fosse por uma fração de segundo, certamente notaria o sorriso encantador que transfigurava-lhe todo o rosto, excedendo os limites dos lábios. Com certeza tinha algo muito bom a fazer, aonde quer que estivesse indo…

Chegou à pequena casa, bateu ansiosa à porta.

_ “Seu” Zé! “Seu” Zé!

José estava nos fundos, cortando pacientemente um duro pedaço de madeira, que parecia nunca ceder. Era daquelas madeiras enjoadas, difíceis de cortar, mas fáceis de lascar. Já lhe tomara boa parte da tarde, mas o pacato Zé não parecia angustiado; pelo contrário, mostrava-se excitado com o desafio de achar a dose certa de força a se aplicar. “Madeiras são como pessoas”, pensava. “Cada uma exige a habilidade certa para se lidar, o equilíbrio correto…”

Mas a notícia que receberia, ao abrir a porta assustado, lhe lembraria alguém capaz de lhe desconcertar por inteiro, fazendo-o se sentir sem habilidade alguma.

_ “Seu” Zé, a Maria chegou!

Imediatamente bateu na roupa para tirar o pó, pegou as sandálias e saiu afoito, andando o mais rápido que podia. A idade o impedia de correr como a pequena mensageira, mas não de sorrir como ela. Os observadores daquelas ruelas agora viam um jovem senhor a ir ansioso pelo caminho inverso ao da menina serelepe, num misto de encantamento e angústia.

Sim, aquele sereno coração de carpinteiro era capaz de se angustiar, como qualquer outro; mas a sensação agora era simplesmente aquela tênue angústia de quem não vê a hora de matar uma doce saudade.

_ Maria chegou! A minha Maria…

Chegou à casa, bateu na porta. Joaquim atendeu, jovial.

_ Ora, ora! Mas a noiva mal chegou e você já vem vê-la, heim? Não vai nem esperar a moça descansar da viagem?.Esse é o meu genro!…

Riu e o abraçou, caloroso. Não havia sogro mais bem-humorado.

_ Vamos entrando! Maria está no quarto com a mãe, arrumando suas coisas. Logo, logo aparece…

José sorriu, enquanto tentava segurar a ansiedade. Esse “logo, logo” poderia ser uma eternidade. Que remédio, teria mesmo que esperar! Mas paciência… pra quem já esperara mais de três meses…

Conversou longamente com Joaquim, até que chegou Ana.

_ Olá, José. Maria está lhe esperando. Ela quer muito falar com você.

Sorriu para os sogros, e foi ao tão aguardado encontro com a pequena noiva.

_ José, meu querido!

Abraçou-a forte, como se nunca mais a fosse largar. O coração disparado, os olhos brilhantes, quase transbordando, a denunciar a saudade contida. Nunca sentira aquilo por ninguém; Maria era capaz de desarmar-lhe, de fazê-lo render-se aos mais profundos sentimentos que lhe tomavam a alma. Com ela, ele tinha os sonhos mais encantadores, cheios de amor, de esperança; com ela, ele tinha .

Como sempre, ela estava linda. Aquela beleza encantadora, de quem comunica mais com um olhar do que com mil pergaminhos. “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam”, dizia Salomão em seu Cântico. Teria ele conhecido Maria?

_ Ah, José, como senti saudades suas enquanto estava na casa de Isabel! Nem pudemos nos despedir quando fui, pois você estava no campo e eu parti às pressas…

_ Sim, sim, eu soube!… Mas não importa, o que importa é que agora está aqui, comigo…

_ Ah, José…

E ria, radiante. Maria transmitia uma alegria serena, mas intensa. Estava, porém, diferente; não parecia mais aquela menina de quem José ficara noivo. O sorriso era o mesmo, mas não era o de sempre. Ela agora sorria como… como uma mulher.

_ Ah, José, quanta coisa linda vivi neste tempo… Quanta coisa maravilhosa! Acompanhei os três últimos meses de gravidez de Isabel, ela e Zacarias estão radiantes com o filhinho que Deus lhes deu, o pequeno João!…

_ Gravidez? Mas Isabel não era estéril?

_ Sim! Foi um grandioso presente de Deus, uma dádiva dos céus, José!…

Sorriu. Mas algo lhe dizia que Maria tinha uma coisa importante a lhe dizer. E não estava com cara de ser algo simples.

_ Maria…

_ Sim?

¬_ Sua mãe comentou que queria me contar algo…

Maria ficou séria. Continuava, contudo, serena, como se contemplasse algo.

_ Sente-se…

Sentaram-se. José a olhava fixamente.

_ Sim, José… tenho algo a lhe dizer. Algo muito importante, a transformar tudo… Tudo mesmo.

Silêncio. Mesmo sem perder a serenidade, por um instante os olhos de Maria vacilaram, desviando-se para o chão. Como contar? Como dizer o indizível? Não havia como explicar. Ele teria que sentir na pele, experenciar aquilo tudo.

_ José… me dê a sua mão.

Pegou a mão do noivo, com firmeza. Trouxe-a vagarosamente para junto de seu corpo, até que tocasse seu ventre, por cima do manto. José permaneceu alguns segundos ainda um pouco assustado, com a mão ali, tentando compreender do que se tratava. Notou que a barriga da noiva estava um pouco estufada e, de súbito, percebeu com o olhar que os seios estavam maiores, mais redondos – tirou então a mão num ímpeto, como se tivesse tocado uma chama ardente.

_ Maria!…

Os olhos estavam atônitos, a boca aberta, a mente ainda sem conseguir entender. Maria continuava serena, com um olhar compassivo.

_ Ah, minha pequena! – disse, enfim, enquanto a abraçava, lânguido. Como foi acontecer uma coisa dessas? Por Deus, quem foi lhe fazer uma coisa dessas?!

_ José…

Ele a olhava, transtornado.

_ Meu Senhor, quem teve a coragem de lhe fazer isso, minha Maria? Quem foi o homem sem coração que não teve piedade de ti?… Quem é este, que não ama a própria vida?…

_ José…

Parou, e olhou-a profundamente.

_ José, ninguém me fez mal algum.

Então o corpo de José paralisou-se. Entrou em estado de choque, não conseguia mover os olhos esbugalhados, a boca aberta, as mãos caídas ao lado do corpo. Sua face estava branca como de um cadáver, não conseguia sequer elaborar algum pensamento.

Aos poucos, porém, os movimentos foram voltando-lhe, conseguiu enfim balbuciar algo.

_ Maria… você…

Ela continuava séria, olhando-o com compaixão. Não parecia, de forma alguma, estar confessando um grave crime, que poderia custar-lhe a vida.

_ Não, não pode ser verdade. Você não, Maria. Não é possível!

O olhar mariano não mudava.

_ Maria, você seria a última mulher em toda a Terra a fazer isso algum dia. Você ama a vida, Maria. Não seria capaz de fazer algo assim…

Ela conhecia as regras para quem fosse apanhado em adultério – um provável apedrejamento.

_ José…

_ Não, minha amada, não é necessário proteger quem lhe fez isto desta forma, nós arrumaremos um jeito! Não é preciso sacrificar-se, nem a esta pobre criança que você carrega dentro de si! Por Deus, não será preciso derramar sangue algum!

_ José, você crê em Deus?

A pergunta o desconcertou. Ele temia profundamente a Deus, e Maria não só o sabia, mas era sua companheira de orações diárias. Por que lhe perguntava isso agora?

_ Maria, você sabe que minha vida é toda do de Deus. Do Deus de Abraão, de Jacó e do pai Davi. Sem Ele, sou como o pó da estrada… não sou nada.

_ Então, José, ore. Ore e creia que 0 Senhor cuidará de tudo.

Foi para casa ainda meio que em choque, olhando para o longe sem ver nada. Ainda não conseguia entender, enquanto milhares de pensamentos percorriam concomitantemente sua cabeça. Os passos lentos de agora em nada refletiam a ansiedade de quando viera, momentos antes, pelo mesmo caminho. Agora, sim, sentia angústia de verdade.

A tarde já se ia, a noite começava a despontar. O céu limpo ia tomando um azul cada vez mais escuro, enquanto estrelas iam surgindo aqui e a ali. No oeste, um vermelho-alaranjado denunciava que o sol ainda estava por perto, recém-escondido atrás do monte, enquanto a lua ganhava cada vez mais brilho no horizonte oposto. Ainda estava grande e amarela, insistindo em iluminar a escuridão que surgia.

O olhar de José foi se voltando para o céu, e sem perceber começou a contemplar aquela bela cena, que poderia tranqüilamente passar por corriqueira – e que, de certa forma, não deixava de sê-lo. Quando deu por si, estava parado no meio da rua, a olhar para o céu, sem pensar em nada. Por um instante, sentiu paz. Não estava sozinho.

Passou o resto da noite a meditar as escrituras, os preceitos que guardava com afinco na mente e no coração. Pensou nas penalidades aplicadas a cada caso, estupro, adultério, rejeição… A última coisa que queria era denunciar Maria, isso nunca! Morreria por ela, mesmo que tivesse cometido o pior dos pecados. Mesmo que fosse a última das pecadoras, aquela mulher merecia todo o perdão do mundo.

Sim, a lei era necessária, mas… Não seria justo! A lei servia para proteger o povo do pecado, e nisso era boa… mas como salvar a pobre alma que caísse em pecado? Quem salvaria a mulher pecadora, quem salvaria a todos?…

Pensou em abandoná-la em segredo. Fugiria para longe, sem nada dizer; assim pensariam que o filho era seu, e portanto dariam todo o amparo a ela e à criança. Toda a cidade iria amaldiçoá-lo para sempre, mas sabia que Deus seria sua testemunha, e lhe protegeria de qualquer desgraça.

Sim, era o melhor a fazer. Sangue algum seria derramado. Estava resolvido.

Mas… por que ainda algo não lhe parecia estar bem? Por que não sentia firmeza em seu coração?

Preparou-se para dormir. Já deitado, lembrou-se do pedido de Maria para que orasse. Dirigiu-se a Deus, já sem forças, entregando-lhe toda aquela situação. Agora tudo estava em Suas mãos, já não dependia da sua limitada inteligência humana, de simples carpinteiro. Que fosse feita a vontade divina, independente de qual fosse. Recitou alguns salmos, sussurrou profecias. Dormiu rezando.

Passou uma noite agitada, virando-se várias vezes na cama durante o sono. Até que uma luz fê-lo ir acordando aos poucos. Uma sensação misteriosa, então, foi apoderando-se de sua alma; arrepiou-se, sentindo um misto de temor e fascínio. Abriu os olhos devagar, distinguindo aos poucos uma figura difícil de descrever, só saberia dizer que, por algum motivo, sabia de onde aquela criatura viera. Sentia, naquele momento, que estava envolto ao sagrado.

_ José, filho de Davi!

Sim, era um anjo. Um anjo a falhar-lhe!

_ Não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o povo dos seus pecados.

Ele poria nome no menino!? Então Deus havia lhe escolhido como pai!

_ José, creia que tudo isto aconteceu para se cumprir o que Deus falou por meio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, Deus conosco!”

Sim, a profecia! Então ele fora o escolhido!

_ A profecia! – gritou, levantando-se num ímpeto. O anjo sumira, agora via seu quarto, e a manhã começando a despontar timidamente no céu ainda negro, lá fora.

Saiu correndo, do jeito que estava. Agora sim sentia-se um menino, a atravessas as ruas como um alazão, percorrendo o trajeto mais rápido do que nunca fizera.

_ Maria!!

Nem bateu na porta, foi direto à janela do quarto da noiva, assutando-a.

_ José!

_ Maria, não é preciso dizer nada, minha amada! Agora eu sei, agora eu vejo o que Deus realizou em ti! Eu sabia que seria incapaz de fazer algo assim, tu não tens pecado, minha doce Maria! Pelo contrário, és a mais pura das mulheres!

_ Eu nunca te trairia, meu José…

_ Nem a mim nem a Deus, minha Maria! Eu sempre soube disso. Por isso não conseguia entender… Mas Deus me iluminou a mente, e agora eu compreendo! E como me deixa feliz ver tudo que Ele está realizando em nós! Você alcançou graça diante de Deus, minha amada. Ele te escolheu entre todas as mulheres…

_ Ah, José! Te digo que meu espírito exulta de alegria pelas maravilhas que Deus está realizando! Deus se fez homem, e está aqui dentro de mim… Ele olhou para a nossa humildade, nós que somos simples servos, tão pobres… Veja, José: Ele retira o trono dos poderosos, dos gananciosos, e escolhe os puros e simples!…

_ E nós somos testemunhas disso, minha Maria. Nossa vida será um testemunho vivo das maravilhas que Deus realiza através do seu povo!

E assim foi…

Continua…

flor no deserto2 pb

PS: Como disse ontem, este conto não tem pretensão alguma de ser uma narrativa definitiva, de seguir algum rigor. Me inspirei nos Evangelhos, mas foi sobretudo uma liberdade que tomei, deixando a criatividade reinar no Natal, assim como deve ter reinado na cabeça daquele casal, ao preparar um berçário num curral…

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Natal

Este fim de ano, pra variar, está sendo puxado (um dos motivos do meu sumiço aqui do site…). Tem muita coisa acontecendo, mas basta dizer três palavras pra todo mundo entender perfeitamente a gravidade da situação e nem querer saber do resto: “Reta Final do Mestrado”.

Nessas situações, a gente fica sempre querendo se concentrar no que é mais “importante”, deixar o resto de lado. Mas aí vem o Natal. Sim, o Natal: luzes, papais-noéis, rua movimentada até de noite, sorrisos, amigos-ocultos, músicas da Simone… Este ano pensei que iria passar praticamente imune a isso tudo. Mas, felizmente, não consegui. Em parte, graças à prefeitura de Juiz de Fora – impossível passar pelo centro da cidade e não desviar o olhar pra decoração de Natal, esse ano eles capricharam. Sem perceber, você já parou. E refletiu.

Cine-Theatro Central, em Juiz de Fora
Cine-Theatro Central – J. de Fora

E foi o que fiz domingo, enquanto o padre dizia na missa que o Natal “é a maior festa da humanidade”. Na hora, qualquer um com um pouco de conhecimento sobre doutrina se sentiria impelido a corrigi-lo, a lembrar que a maior festa do Cristianismo é a Páscoa… Mas – péra lá! Ele disse “da humanidade”, não foi? Foi. Então talvez ele tenha razão. O Natal está além das fronteiras do Cristianismo, unindo tantas culturas diferentes em torno de uma mesmo clima… Cada uma do seu jeito, é verdade: na Europa celebram o dia de S. Nicolau (o “Papai Noel de verdade”); nos EUA gostam de duendes, renas, da tal da “magia”; no Japão fazem um boneco com olhos na nuca que vigia as crianças arteiras. Mas o fato é que o Natal está muito além de ser uma festa “só” cristã. A própria origem da data tem a ver com o dia da celebração pagã ao deus sol – já que não sabiam ao certo quando Jesus nasceu, resolveram dizer: “comemoremos no dia do maior dos deuses, que é o mesmo em qualquer lugar”.

Mas por que será que é normal ouvir um hare krishna, budista ou ateu desejando “feliz Natal” a alguém, sem nenhum constrangimento? Se muitos que a comemoram sequer acreditam em Deus (muito menos em Papai Noel), o que há de tão universal assim nessa data, para ser tão lembrada?…

Ceia de NatalBem, Natal é um tempo de solidariedade, de paz. E, é claro, da tríade família-presentes-comida, que não pode faltar. Natal, pra todo mundo, é tempo de trocar presentes regados a uma ceia apetitosa ao lado dos parentes mais próximos (ou não tão próximos assim…). Seja uma família pequenininha mãe-pai-e-filho ou aquelas enormes de quem tem 3 casamentos no currículo, cada um com dois filhos e uma ex-sogra. Natal é sagrado: tem que passar todo mundo junto.

E, convenhamos, é bonito. Presentes são uma bela forma de demonstrar carinho, e fazer a alegria do outro. Compartilhar uma boa ceia é comungar o prazer, a fartura, e todo o simbolismo que essa refeição traz. E é muito bom ter uma data em especial no ano pra reunir toda a família num clima de confraternização (ao contrário dos velórios…).

Papai Noel e a alegria do NatalMas então… Surge outra pergunta. Se é algo assim tão universal, por que tem tanta gente que não gosta de Natal?

Sim, senhor. Tem muita gente. E nem é preciso recorrer a blogueiros mau-humorados ou piadistas de Stand-up. Você provavelmente deve conhecer alguém pra quem essa data tenha um sentimento meio melancólico, triste – mesmo que essa pessoa não conte isso pra ninguém…

Mas… Por quê? Justo numa data que deveria trazer tanta alegria?… Bem, talvez exatamente por pensar nessas coisas que condicionamos à alegria, nessa época. Tem gente que passa o Natal sem paz, sem solidariedade – ou que passa a noite se lembrando de tanta gente carente dessas coisas, pelo mundo afora. Para muitos, não há presentes. Não há comida. E a família não é o ideal que se imagina…

Sim, é triste. Talvez essa melancolia seja também um pouco constitutiva do Natal, lado a lado com a alegria. Talvez o Natal não seja tão colorido quanto os dos comerciais na TV…

Noite de NatalMas aí, sabe… Me pego a pensar no primeiro Natal. Que também é uma cena universal. Não precisa ter um credo específico pra se emocionar com a bela história de uma Maria, um José e um pequeno filho… Que, naquela noite, ao que parece, não tiveram a solidariedade dos próprios familiares de José, ficando sem abrigo e talvez sem comida. Os presentes dos Reis Magos? Só algum tempo depois, ué. Nem com um boeing eles chegariam a um fim-de-mundo como Belém na mesma noite…

Foi uma noite que não lembra em nada as nossas noites de Natal, hoje. Mas talvez não tenha existido noite mais Feliz

Em homenagem a essa Noite, então, relembrarei aqui, a partir de amanhã, um desafio que me fiz no ano passado, no meu blog pessoal: imaginar como teria sido aquela primeira noite. Deu um conto interessante, profundo pra uns, estranho pra outros; mas de forma alguma definitivo, pretendendo seguir algum rigor. Me inspirei nos Evangelhos, mas foi sobretudo uma liberdade que tomei, deixando a criatividade reinar no Natal, assim como deve ter reinado na cabeça daquele casal, ao preparar um berçário num curral…

Naquela noite nasceu a Esperança. Em meio a toda a alegria dos perus, Papais-Noéis e tios bêbados, não nos esqueçamos, pois, do que é mais importante. Não a deixemos morrer.


“O Amor nasceu em meio ao frio de uma noite…”

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Criança_ Clarinha… Segura firme, senão você cai!

_ Mamãe…

_ Sim, meu anjo!…

Foi hoje à tarde. Estava muito calor. Eu estava muito cansado. E ainda não estava indo pra casa… Tinha ainda uma reunião num bairro distante.

_ Mamãe, dentro da sua barriga tem uma… uma sementinha?

_ Tem sim…

_ Que foi… que foi o papai que colocou, né?

_ Foi.

_ E vai crescer e crescer… e virar o meu irmãozinho!!

Ela não aceitou o acento que ofereci. Não a Clarinha, mas sua mãe. Recusou, disse que o ponto em que iam descer estava próximo. Recusou. Mesmo carregando a sementinha na barriga.

Deveria ter insistido mais. Com toda a certeza. Mas nem foi o cansaço que me impediu; foi a falta de jeito mesmo, perante a simpatia daquela mãe. O cansaço já tinha ido embora. Ou melhor, ainda estava lá… Mas o sorriso daquela menina deixou-o muito mais leve, e – por que não? – prazeroso…

_ Segura, meu anjo! Segura firme!

É nessas horas que eu gostaria de conseguir ser um pouquinho mais extrovertido com estranhos, insistir em algo que é óbvio: aquele lugar não era meu, era daquelas duas que estavam ali em pé, espremidas no ônibus cheio, e do garotinho-semente que, apesar de provavelmente estar mais confortável que todos nós ali, também merecia sacudir um pouco menos. Mesmo que os lugares reservados para grávidas estivessem lá na frente, ocupados por estudantes que conversavam, animadas. A barriga ainda estava pequena, vale dizer; provavelmente só eu, enxerido ouvindo a conversa alheia, havia percebido que tinha uma “sementinha” ali dentro…

Mas não deu tempo de pensar muito mais. Clarinha logo desceu com sua mãe, me deixando um sorriso no rosto, e um pequeno peso nos ombros por não saber como retribuí-lo

O mínimo que posso fazer, pensei depois, é tentar passá-lo para frente. Não vai ser a mesma coisa, mas pelo menos é uma tentativa.

Que nossa semana seja, então, repleta de sorrisos de crianças! Se não de verdade, ao menos simbolicamente…

Criança sorrindo

Fechado?

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