Sofrimento

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Faleceu nesta sexta-feira uma pessoa muito querida a nós: nossa amiga Vívian Santos, uma jovem estudante de medicina e atuante em dezenas de outras coisas.

Foi uma morte inexplicável, envolvendo praia, ondas, pedra, mar… Mas, com toda certeza, sua vida fez muito sentido. É até um pleonasmo dizer que Vívian foi uma pessoa especial. É como dizer que o céu é azul. Todos, absolutamente todos que puderam conviver ainda que um pouquinho com ela, guardam uma lembrança alegre, de ternura, de pureza.

Não convivi tanto assim com ela tão de perto, mas  acho que não seria exagero dizer que ela foi a pessoa mais doce que já conheci, até porque já tínhamos essa sensação enquando ela estava entre nós. Mas, como disse a uma amiga há pouco no velório, às vezes é preciso que a vida nos pregue um susto desses para que passemos a prestar mais atenção nas coisas e nas pessoas. A valorizar mais. A viver mais.

Vívian nos faz lembrar que existem, sim, pessoas puras. Pessoas que lutam pela vida por sua própria natureza, que fazem de cada segundo da sua existência uma missão de levar um pouco de paz a quem encontra. Era tão meiga que ganhou o apelido carinhoso de “bonequinha”, tal era sua doçura até para chamar a atenção dos outros, quando necessário. E era necessário, pois ela também era muito competente e coordenava vários estágios e trabalhos voluntários, sempre tentando fazer o bem, sempre com tempo para ajudar, mesmo com aquela prova de anatomia terrível no dia seguinte. E nunca deixou de tirar as melhores notas.

Não sabemos de ninguém que, algum dia, já a tenha visto mau-humorada, irritada ou com uma malícia qualquer  no coração. Sempre foi uma pessoa inacreditável, de tão adorável. Daquelas que fazem você se sentir envergonhado por ter tanta coisa podre dentro de si. Nem quando a tínhamos por perto, era fácil acreditar que ela existia, que existia alguém assim. Agora, vai ficar parecendo lenda. Mas não foi.

Ao seu noivo, aos familiares e aos amigos, só nos resta rezar para que encontrem algum conforto para aquilo que é inconfortável por si só. Quem somos nós, reles mortais, para tentar explicar algo, entender algo como uma morte assim. Quanto à Vívian, tenho certeza de que não devemos chorar ou lamentar nada. Foi uma vida plena, por mais curta que tenha sido. Não dá para ficar pensando que ela teria ainda muito tempo de vida para se realizar, se formar, casar, ter filhos. A vida dela já era realizada por si só. O sofrimento é nosso. Não dela.

Acho que uma amiga sintetizou muito bem isso tudo, numa frase para além de qualquer crença. “A Vívian era uma pessoinha tão santa que  sinto até que não faz muito sentido ficarmos rezando por sua alma… Temos é que pedir para ela interceder por nós”. Amém.

Amanhã voltamos ao “trabalho normal”. Falando mais sobre a vida.

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Criança com chapéu

Outro dia fui numa peixada com meus pais. Nada demais, uma reunião de amigos que jogam bola juntos – tilápia frita, arroz e pirão. Hum… mas tava bom, viu!…

Conversa vai, conversa vem… Lá pelas tantas, o papo caiu nas boas lembranças de passados simples, mas felizes. Me lembrei que uma das melhores épocas da minha infância foi justamente no ano em que moramos na pior casa de todas. Eu tinha 4 anos, foi quando chegamos (eu, meus pais e meu irmão) em Carangola.  A coisa não era fácil, meu pai só dormia em casa de 15 em 15 dias, ele trabalhava em outra cidade pra conseguirmos pagar o aluguel – e dava uma saudade doída dele… Era uma casinha velha caindo aos pedaços, no fim de uma rua sem saída que dava pra uma trilha no meio do matagal. Atrás tinha um pequeno barranco, ao lado um terreno abandonado, do outro lado um córrego bem sujinho. Ou seja, barata era bicho pequeno pra aparecer por lá… não me lembro bem dos ratos, mas não me esqueço do meu pai matando as aranhas caranguejeiras. Dava medo!

Além disso, a casa não tinha forro embaixo do telhado, que por sua vez não tinha uma telha nova. Ou seja, impossível ficar livre das goteiras. Quando não era goteira, era cupim: aquele pozinho de madeira caindo do teto bem em cima da gente… Um dia meu irmão amanheceu encharcado, minha mãe pensou que tinha feito xixi na cama, mas era goteira…

Mas era o máximo. Brincar na rua à vontade, às vezes no terreno baldio; fazer “arte” com o barro do quintal, pique-pega nos corredores ao redor da casa. Ajudar o pai a pegar adubo no pasto lá atrás, pra por na hortinha que ele fez do lado da varanda dos fundos. Pegar goiaba direto do pé que cresceu no quintal. Se vislumbrar com a aventura que era cada vez que chovia: os móveis da casa arredados, panelas pra todo lado, aquele ping-ping chatinho…

Eu era tão feliz que minha pele nunca era completamente branca: estava sempre cheia de manchas e manchas de mercúrio-chromo, tudo vermelho. Um dia eu disse a uma amiguinha, vizinha de frente: “Graças a Deus, hoje eu só tenho um machucado, nesse joelho aqui!” E ela: “Graças a Deus, hoje eu não tenho nenhum machucado!”. Não acreditei: “Nenhum?” E ela confirmou: “Nenhum!” Achei fantástico aquilo, não sabia se seria capaz de algum dia atingir tal meta. Até que um dia, distraído na sala, analisei meu corpo e percebi que as últimas façanhas já tinham cicatrizado. Não acreditei, soltei um grito e fui correndo (literalmente) contar a novidade à vizinha – algo realmente perigoso numa casinha pequena, com os móveis apertados entre os cômodos. Fiquei na quina da mesa da cozinha. Uma pancada daquelas, bem no ombro. Não me esqueço: aquela foi a primeira vez que meu pai passou arnica – natural, embebida a álcool – num machucado meu, quando estava difícil dormir de tanto que o troço tava doendo à noite. Se fosse hoje em dia, provavelmente os vizinhos teriam chamado o Conselho Tutelar ao acordarem de noite com aquela potência sonora que só as cordas vocais da primeira infância conseguem atingir: “Aiiiiiii paaaaaaaaiiiii!!!”. Aquela doeu.

No Natal montamos um presepiozinho antigo, que fora da minha bisavó (e que montamos até hoje, aqui em casa). Meu pai colocou um abajur em cima pra iluminar, e brincou: “Abre e fecha o olho, pra parecer pisca-pisca!” Dormi cedo, acordei no começo da madrugada, os adultos ainda acordados: “Papai Noel já passou??” E a minha mãe com aquele sorriso: “Já sim!!” Naquele Natal eu não havia pedido nada específico, mas ganhei um monte de coisa: carrinho, um joguinho qualquer, bolinha perereca-voadora (daquelas de borracha que você joga na parede e ela volta com a mesma força, seja qual for o infeliz objeto ou pessoa que estiver em frente), e sei lá mais o quê… Tive que segurar os gritos de alegria, pra não acordar meus primos que dormiam na sala. No outro dia meu pai me explicou que Papai Noel não existia. Estranhei aquela história toda: quer dizer então que os pais do mundo inteiro conseguiam enganar os filhos todo Natal? Difícil de acreditar… Mas tudo bem. O próximo Natal não seria menos feliz.

Eu tinha apenas 4 anos, mas sou capaz de passar o dia relembrando histórias daquela época, com direito a detalhes novos, que não me lembrava há muito tempo. E olha que foi apenas um ano vivendo lá. Já mudamos de endereço inúmeras vezes, mas aquela foi a única vez em que chorei. Chorei de verdade, com o coração realmente apertado. Mesmo sabendo que iríamos para uma casa muito melhor…

Ás vezes preciso me lembrar dessa época. Me lembrar, sobretudo, de tanta gente que passa muito mais aperto do que nós já passamos, e estranhamente conseguem ser até mais felizes. Hoje eu vejo o quanto era sofrido morar lá, e o quanto seria cada vez mais difícil continuarmos. Mas, naquela época, eu só enxergava o que era o mais importante, o essencial. Não é função das crianças olhar o futuro ou resolver os problemas – para isto o mundo está cheio de adultos. Elas servem para nos lembrar da existência do céu

Ouvindo Pe Zezinho e Silvio Brito: “Faltava tudo, mas a gente nem ligava”…

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machado_de_assis
“A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.”

(Machado de Assis)

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Caetano - caricatura

…ou não.

Alguém disse, certa vez, que quem defende o direito ao aborto nunca foi abortado. Este é um argumento bastante utilizado por quem é contra o aborto, mas costuma ser motivo de deboche entre algumas pessoas que o defendem.

Seria interessante, no entanto, se perguntar o oposto: e quem foi abortado, será que defenderia o direito o aborto?

Por mais ridícula que possa parecer essa pergunta, ela impressionantemente tem algum fundamento. Não, não é preciso recorrer a médiuns: basta perguntar a quem conseguiu sobreviver ao procedimento.

Sim são mais comuns do que se imagina, os casos em que mulheres tentam “tirar” os filhos utilizando medicamentos ilegais (recomendados por médicos “competentes” de todo o país e ONGs internacionais defensoras do “direito universal ao aborto”), mas não dá certo. O aborto falha e a criança acaba nascendo, geralmente com graves seqüelas.

Mas em lugares onde o aborto é legalizado, não há esse problema, o “serviço” é sempre bem-feito, certo? Errado. Em alguns países, às vezes não se consegue “completar” a operação dentro do útero em estágios mais avançados da gravidez, então é praticada a chamada eutanásia neo-natal, ou seja, o bebê morre depois de nascer. Isso sem falar no que acontece na China

Mas em nações como os Estados Unidos há uma situação interessante: o aborto é totalmente liberado em qualquer situação e em qualquer etapa da gravidez (como estão tentando permitir no Brasil), mas o infanticídio continua sendo um crime grave. Depois que o bichinho respira, ele tem direito à vida. Matá-lo é considerado um homicídio – o que fez surgirem algumas técnicas curiosas, como o chamado aborto por nascimento parcial, praticado em alguns casos raros de abortamento tardio. É isso mesmo: o bebê “quase nasce”, mas não chega a respirar…

Gianna JessenFoi esta situação que permitiu que essa simpática moça aí do lado, chamada Gianna Jessen, conseguisse sobreviver a uma tentativa de aborto feita com uma técnica em que uma forte solução salina é injetada no útero e… bem, vocês imaginam o que acontece. Como é um procedimento demorado, o médico deu uma saída enquanto a mãe ficava esperando tudo acabar, e nesse tempo a pequena Gianna milagrosamente conseguiu “se safar”, fugindo daquele útero que mais parecia o mar morto. Ou seja, nascendo.

Ninguém sabia o que fazer, não esperavam um parto prematuro. Muito menos, que a criança estivesse viva. Uma enfermeira levou-a então para um hospital, e então ocorreu o segundo milagre: ela sobreviveu. O terceiro foi Gianna ter virado essa beleza de pessoa que, pra desmentir o prognóstico de que não seria nem capaz de andar, já até correu maratona. Dizem que tem alguns traços de paralisia cerebral, mas quem a vê não nota nada. Pelo visto, energia mental é algo que não lhe falta.

Impressionante demais pra ser verdade? Bem, alguns movimentos “abortistas” já tentaram desmentir a história contada pela mãe adotiva de Gianna (que foi quem a acolheu no hospital), mas sem muito sucesso. A verdade é que não é um caso nada impossível de acontecer – só na Inglaterra, estima-se que 50 bebês sobrevivam ao aborto por ano. O fato é que qualquer procedimento médico pode falhar. Em alguns casos, essa falha pode ocasionar a morte. Já em outros…

Veja aqui um depoimento da Gianna, que tem muito mais credibilidade que eu pra contar essa história. Não deixe também de ver o seu site oficial, onde pode-se ouvir algumas de suas canções (sim, ela canta, e muito bem!). Ah, e o mais interessante de tudo: os vídeos dela no Youtube, que infelizmente ainda estão só em inglês (quem sabe, porém, alguém não se anima a traduzir e legendar, por uma causa mais do que nobre?…).

Ah, e é claro, faltou dizer o que a Gianna pensa sobre o aborto. Ela, obviamente, é hoje uma militante ferrenha dos direitos das mulheres.

Principalmente, do direito das mulheres (e de qualquer um) de viver.

“Se o aborto é um direito das mulheres, quais são os meus direitos? Não existiam protestos feministas contra o fato dos meus direitos estarem sendo violados no dia em que a minha mãe me abortou” (Gianna Jessen).


PS1: Lembrei da história da Gianna ao ler uma reportagem sobre uma jovem chamada Miriam, intitulada “Sobrevivente de aborto é campeã de natação” – que, na verdade, é um caso um pouco diferente: Miriam não chegou a sofrer aborto, pois seus pais decidiram entregarem-na para adoção antes disso. Curiosamente, entretanto, outro fato liga as histórias de Mirian e Gianna: ambas apresentam uma leve paralisia cerebral. Ironicamente, se num caso o aborto era apresentado como solução para a deficiência, no outro ele foi justamente a sua causa

PS2: Tem pouca coisa na internet sobre a Gianna em português, mas você pode conferir o depoimento no original em inglês clicando aqui, e um outro feito quatro anos depois, aqui. Vale também uma olhada na Wikipedia – e no velho e bom Google

UPDATE (19/06/09): Agora já temos um vídeo da Gianna em português! Clique aqui – acredite, vale a pena!…

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Ok. Quem tem conexão lenta pode reclamar que estamos botando muitos vídeos nos últimos posts… Mas esse aqui, com certeza, vale alguns minutos da noite do seu domingão (ou da tarde de segunda, aquela hora booooa depois do almoço…).

É uma entrevista do Programa do Jô, feita em 2006, com um político que é gago. Ele é de Cachoeira Paulista – SP, e foi candidato a deputado estadual na época.

No vídeo, o Jô quase não se agüenta de tanto rir. O cara, um piadista nato, conta com muito bom humor como já tentou mil e uma soluções “inusitadas” para se livrar desesperadamente da gagueira, chegando a pensar até em suicídio devido aos transtornos que aquilo lhe causava…

Pois é, já parou pra pensar como um problema na fala pode ser uma coisa horrível na vida de alguém? De paquerar a procurar emprego, passando por várias situações triviais… Né mole não.

Mas parece que o Claudinho conseguiu dar a volta por cima, usando de um recurso mestre do brasileiro: rir de si mesmo. Não rir de deboche, como uma fuga (do tipo: “vou me zoar antes que os outros me zoem”), mas simplesmente encarando com bom humor algumas de nossas próprias limitações, enquanto aproveitamos pra amadurecer o que a gente tem de bom. Eu, por exemplo, posso não travar tanto na fala quanto esse cara, mas não tenho um terço da simpatia e da espontaneidade dele…

Pois é… Preciso aprender a rir de mim assim. A rir da vida assim!…

Afinal… nada como uma boa gargalhada!

Uma ótima semana a todos!

PS: o vídeo do Jô é Dica do Fábio (o vocalista da Tanlan, aquele do vídeo no Youtube…)

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O Problema do Sofrimento

(pra lembrar que às vezes as coisas legais vêm dos lugares onde “não exatamente” esperamos encontrá-las…)

Autor: Emerson H. de Oliveira

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