Religião

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Como está sendo, disparadíssimo, o assunto mais bombante de toda a (curta) história deste blog, falemos mais de aborto! No nosso último vídeo, mencionamos que um dos maiores militantes pró-vida, o Dr Bernard Nathanson, começou sua atuação contra o aborto ainda sem seguir nenhuma religião. Na época ele se declarava ateu. Seria uma grande excessão, já que um dos maiores argumentos dos defensores do aborto é de que a religião não pode interferir na sociedade, que é questão de fé dizer que a vida começa na concepção e tal?…

Pois uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em 2007 mostra que a esmagadora maioria (82%) das pessoas sem-religião (categoria que inclui os ateus) do país são contrárias à legalização do aborto.  Na verdade, conheço ateus que são veementemente contra, apenas não se expõem tanto na causa como os cristãos. Não sei, sinceramente, por quê.

Sem-religião (incluindo ateus) são contra aborto. Clique para ampliar.

Detalhe da pesquisa: sem-religião são contra aborto. (Clique p/ ampliar).

Pois, numa dessas andanças pela internet, encontrei um post interessante no famoso blog Liberal Libertário Libertino. O autor, Alex Castro, considera-se ateu, mas diz que nada é mais “chato e ilógico” que um ateu militante.  Embora tenha lá suas crenças meio ingênuas em relação à religiosidade (como acreditar que religiosos tenham QI mais baixo… aff!!), o cara parece não ter medo de questionar alguns lugares-comuns das clássicas cartilhas anti-religião, como por exemplo achar que “ser contra o aborto é coisa de religioso dogmático” (no pior sentido do termo). Ou melhor, não tem tanto medo, pois a certa altura da argumentação ele confessa que teme continuar com o próprio raciocínio, por receio de acabar concordando “com uma das piores escórias da terra, a ultra-direita radical religiosa”…

Nós também abominamos o radicalismo, Alex. Seja ele cristão, ateu, de direita, esquerda, centro… Mas acreditamos que não há como negar as conclusões importantes que às vezes vêm da boca até de um ultra-radical. Seria um preconceito contra eles. Aliás, acho que o pior preconceito é quando a gente mesmo vai chegando a alguma conclusão, e de repente pensa: “vixe, não posso pensar assim, isso é coisa ‘daquele’ tipo de gente”…

Mas ele continua. Vai questionando aquela convenção social e jurídica, que muitas vezes tomamos como óbvia, do nascimento como o momento segundo o qual “passamos a existir”. É aquela coisa: na verdade, o debate é sobre quando começamos a ter direito à vida, já ninguém com um mínimo de QI (e honestidade) é doido de negar que embrião é um ser pertencente à espécie humana, biologicamente distinto de qualquer outro. Para a ciência “pura”, não há dúvida alguma. A questão é filosófica.

Pois este sujeito chamou a atenção para um ponto interessante: se há mesmo essa dúvida, qual risco deveríamos correr? Ir contra a liberdade, ou contra a vida?

Nós temos nossas respostas, mas por hora vou deixar vocês com alguns trechos do texto do Alex Castro. Para refletir… (os grifos são meus).

alex-castro“Nasci às 9:45hs do dia 16 de fevereiro de 1974. Mas sério, o que foi que houve assim de tão fantástico nesse momento? O que foi que mudou? (…) Às 15:30hs de 15 de fevereiro de 1974, eu fazia praticamente as mesmas coisas que eu fazia às 15:30hs de 16 de fevereiro.”

“Se alguém me matasse hoje, ou se alguém tivesse me matado em agosto de 1973, quando eu tinha três meses de concebido, também daria, na prática, rigorosamente no mesmo. (…) A diferença é que o primeiro assassinato me permitiu, pelo menos, 30 anos e duas semanas de vida. O segundo, nem isso.”

“A questão do aborto é uma das mais polêmicas da nossa época. Talvez seja a questão que vai definir o nosso tempo. Sempre que encontro um brasileiro do século XIX, eu me me pergunto: será que ele era contra ou a favor da escravidão? Como será que ele se posicionou?”

“Quase todos os meus amigos, liberais, seculares, cosmopolitas, politicamente corretos e prafrentex, são a favor do aborto por princípio e por agremiação. Dizem que é só um procedimento médico e pronto. Como se impedir uma pessoa de existir fosse equivalente a arrancar um dente para impedi-lo de apodrecer. Simplesmente se negam a considerar qualquer aspecto filosófico da coisa. Eu os respeitaria mais se tivessem a coragem de encarar esse aspecto e rejeitá-lo. Mas não. Acho que têm medo das implicações de andar por esse caminho.”

“Ninguém defende mais a liberdade do que eu. Mas acho que a ninguém deve ter a liberdade de matar ou impedir outra pessoa de existir. Se ainda existe um debate científico válido sobre o que é vida e quando ela de fato começa, então acho que devíamos errar em favor da vida, não em favor da escolha. Pelo menos, por enquanto.”

Feto“Só há um único argumento nessa história que considero absolutamente imbecil, mesquinho, indefensável e chauvinista: dizer que homem não tem nada a ver com isso. (…) Senão, daqui a pouco vão dizer que um homicídio cometido por mulher, cuja vítima seja mulher, não pode ser investigado por um homem.”

Ele foge de tentar fechar a questão, mas dá claros indícios de que considera um assunto bem mais complexo e importante do que se diz por aí. É questão de existência, e isso vai além de ser direitista, religioso ou do sexo masculino. É questão de princípios.

E arremata: “acho que devíamos errar em favor da vida, não em favor da escolha”. Pois foi com esse pensamento que eu comecei essa luta toda pela vida. E, a cada dia, chego mais à conclusão de que, na verdade, estamos acertando.

Mas se o que te resta, leitor, após tudo isso, é somente uma dúvida, não tenha medo de parecer conservador, reacionário ou o que quer que seja. Seja fiel aos seus princípios! Na dúvida, não mate, e não colabore com a morte. Sempre há uma solução.

Tem de haver!

Feto segurando a mão do médico

PS: Como o texto que citei é de 2004, dei uma olhada em algumas postagens mais recentes do blog do Alex, para ver se ele havia mudado de idéia sobre o tema. Pelo visto, não. Se se interessar, dê uma olhada na introdução e nas três historinhas (“O Anti-aborto preventivo”, “O Aborto Retroativo” e “O Aborto Compulsório”) que ele escreveu no ano passado. Pode ser interessante – é claro, se você gosta de humor irônico e não se ofende fácil com tiradas anti-religiosas…

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Passagem

Acho que inventei uma tese: A Páscoa é o Reveillon do Cristianismo. Esta palavrinha que vem do hebraico Pessah e que significa “passagem” tem muito a nos dizer. Já o reveillon é o tempo onde muitos renovam a esperança, fazem inúmeros desejos, adquirem bons propósitos para a vida e criam-se deliciosas quimeras para o mundo.

Sem querer ser cético, mas, se pensarmos bem, dia 1º de janeiro é simplesmente um dia depois do outro. Até concordo com Drummond que disse que Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Confesso que também faço minhas mandingas para que novas realizações aconteçam a cada ano. Sem dúvida é bom recomeçar, porém, não só com propósitos novos, seria bom também recomeçar com uma vida nova!

A Páscoa nos traz essa reflexão, mas, nem sempre lembramos disso. Como um livro velho, antiquado e comido pelas traças, nós esquecemos o sentido real da Páscoa, dando mais atenção aos símbolos do mercado que, em tempo de crise, luta para que o doce não se torne tão amargo e o coelhinho fofinho não vire um bichinho aterrorizante.

Mas pode a Páscoa mudar a vida de alguém? Ela nada mais é do que uma simples festa que se repete todo ano, sempre com as mesmas coisas e ritos? Concordo que a Páscoa é Festa das festas¹ e não simplesmente uma festa entre outras. Você pode até discordar de mim, amigo leitor, mas permita-me mostrar meu ponto de vista.

O período que antecede a Páscoa é um momento forte e privilegiado onde temos a oportunidade de refletir sobre a nossa vida. São 40 dias de quaresma em que, se levados a sério, numa constante busca de renovação e transformação, perceberemos claramente que a Páscoa possui um significado todo especial e diferenciado das demais datas da liturgia e das datas civis.

Pensar sobre nossa vida, atitudes, opções, opiniões, nos fará descobrir muitas coisas boas e coisas más também. A cada descoberta damos um passo em direção dessa grandiosa Festa, tornando-a diferente a cada ano, pois minha vida e concepções estarão mudadas à medida que, sem medo, me permito mudar.

Dessa forma, dependendo de minha condição espiritual, emocional e psicológica no momento, a Páscoa nunca será uma simples festa que se repete todo ano, sempre com as mesmas coisas e ritos, pois os sentimentos vivenciados nos darão uma nova visão e percepção. Nos damos conta também que, como Cristo, precisamos ressuscitar. Primeiramente devemos morrer para as coisas ruins que descobrimos durante todo o percurso reflexivo, que nos impedem de sermos felizes, para então ressuscitarmos para as coisas que realmente nos tornam mais felizes e mais humanos, indo além dos bons propósitos de uma mágica e fugaz festa de Reveillon.

A cada ano a Páscoa terá um brilho diferente, uma surpresa agradável se, sem medo, nos abrirmos para o novo. E o Novo mora em você, mora em mim e em todos nós. Só precisamos rolar a pedra que nos impede de sair e de ver o Sol e o seu brilho escondido em cada pessoa; de sentir o cheiro das flores e de um gostoso bolo de fubá da vovó; de ouvir os cantos dos pássaros, cachoeiras e de uma boa e velha música; de tocar em toda criação divina e humana também, para assim declaramos bem alto que existe uma Vida Nova.

A passagem, portanto, acontece neste momento. Em poucas palavras, passamos da morte à vida. Se de repente você se deu conta que não aproveitou nada da quaresma para refletir sobre sua vida, não percebeu que precisava mudar certas atitudes, morrer para certos vícios e ressuscitar para alguns valores, não temas! Experimente fazer essa passagem no dia de hoje. Não tenha medo… Coragem!

Sisifo

Garanto que os chocolates e os ovos de páscoa terão um sabor diferenciado neste domingo, não porque o chocolate seja de uma outra marca, mas porque você estará diferente, isso se você se permitir. Pois lembre-se, a decisão de rolar a pedra continua sendo sua!

Nós do “vivopelavida” desejamos a todos os amigos e amigas

UMA FELIZ PÁSCOA, UMA FELIZ PASSAGEM!

Forte abraço,

Pedro Jr.

¹ C.I.C., parágrafo 1169

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Vida

Era um jovem de mais ou menos 18 anos que só tinha vontade de uma coisa: morrer. As coisas simples como sorrir, abraçar um amigo, olhar nos olhos, bater um papo, sonhar, não faziam parte da sua pessoalidade. Sorria somente com a desgraça dos outros; abraçava para tirar proveito; olhos nos olhos, jamais; trocar uma idéia com alguém era risco de perder sua moral. Sonhar? Preferia ficar acordado, bem acordado.

Um viciado sabe que para permanecer vivo tem que se vestir de uma armadura pesada todos os dias. No mundo do tráfico é ainda pior. A sensação é que até a sua respiração é vigiada, principalmente se está sob o efeito das drogas. Para ele cada despertar era um convite à guerra, onde o campo de batalha era sua mente. “Não existe paz interior, o desespero é constante, não pára!”, reclamou ele um dia. A armadura pesada servia para esconder o homem frágil que se refugiava ali dentro e o efeito das drogas servia para amenizar a angústia que nunca ia embora.

Ele conta que dos 13 aos 17 anos usava maconha para abrir a cabeça, viajar, rir do nada. A cocaína trazia a sensação de bem estar, de “tudo posso”, de poder. Sensações bem diferentes das que sentia depois, aos 18 anos. Neste tempo dizia que sua “onda” durava uns 5 a 10 minutos e que depois disso o medo o invadia subitamente. Para recuperar aquele tempo ínfimo de prazer, dava outra “bola” ou outro “teco” e assim repetidamente. Emagreceu 9 quilos: de 68 foi para 59. A cada dia sua fisionomia era deprimente.

Certo dia recebeu um convite para um encontro. Meio ressabiado ele foi e nunca mais voltou. Não, aquele jovem sem esperança nunca mais voltou! O que eu vi voltar foi uma criatura nova. Nesse encontro sentira algo parecido com saudade, um sentimento nunca vivido anteriormente, uma paz e um amor muito além de sua força e compreensão. As tentativas de suicídio, o desespero, a depressão, por um instante desapareceram… Parecia mágica! Deu um abraço e um beijo na sua mãe assim que chegou em casa. Um abraço gostoso de perdão que fez rolar aquelas lágrimas quentes sobre o rosto dos dois, fazendo renascer a esperança numa família destruída pelas drogas.

A partir daquele dia iniciou uma luta pela vida. As armaduras agora eram outras e o homem ali presente passou a ser grande em dignidade, porém, condicionado à força maior que é Deus. A decisão de ser limpo era do rapaz, não havia mágica (aliás, nunca houve). Houve, sim, um “encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” *.

pe-pai-2

Foi um resgate de vida, em que, no início, Deus fez 99% e o jovem, dizendo seu sim, fez seu 1%. Só que depois, a cada dia, as coisas iriam se igualando: 98% para Deus e 2% para o jovem; 97% para Deus e 3% para o jovem e assim progressivamente até um dia ficar 50 a 50. Acredito nessa pedagogia da vida humana em Deus. Ele não quer marionetes em suas mãos. Deus não controla a vida de ninguém e nem resolve os problemas de ninguém – apesar dele ter suas surpresas. Mas creio que Deus concede a força, a paz interior, o impulso, as pistas, as inspirações e em contrapartida a colaboração do homem traz o pleno conhecimento de “ser pessoa”. A decisão continua sendo do homem, mediante a resposta que ele dá ao chamado que Deus lhe faz todos os dias. Um chamado à vida eterna, experimentada e saboreada aqui na Terra.

Não foi fácil para aquele rapaz livrar-se do vício e enfrentar a discriminação e as desconfianças da sociedade. Certa vez ele correu para o banheiro da escola e começou a comer folha de caderno para não fumar de novo. Teve que recuperar o tempo perdido na escola, voltou a estudar e começou a participar ativamente do grupo jovem da cidade, o mesmo que havia organizado o encontro. Fascinado com a Bíblia, pensou em um dia ser pregador. Alguns meses depois fez sua primeira pregação e contou sua história de vida. Logo estava pregando em todo canto da cidade, trazendo consigo muitos jovens.

Tudo estava indo de vento em popa até que o empolgado rapaz começou a ficar dependente da religião. Vivia um vício religioso e um fanatismo que o cegou e o fez refém de tabus e medos que retardaram sua consciência de jovem por muito tempo. Por conta do passado com as drogas, a radicalidade foi de início uma opção preferível. O problema é que ele parou naquele estágio espiritual deixando que a Lei fosse sua guia, anulando a liberdade que Deus lhe dava – que na sua cabeça era confundida com libertinagem. Vivia numa dimensão “céu – inferno” vinte e quatro horas por dia. Quando rezava, era somente para buscar a unção para pregar com poder, ou para testemunhar o Deus que ele passou a forjar na sua cabeça, ou então para não ir para o inferno numa luta frenética e sem inteligência contra pecados que achava que eram tão absurdos.

Muitos questionamentos, então, começaram a perturbá-lo a respeito da fé, da vida, da justiça social, da Igreja e do próprio Deus. Teve diversas oportunidades de voltar para o vício das drogas. Mas Deus o segurou! Mas mesmo assim o jovem pregador “chutou o balde”. Só que, se afastando um pouco, ele pôde analisar melhor toda a obra de arte da sua vida e pôde ver um novo tempo de descobertas: um novo chamado de Deus estava iniciando.

Descobriu que é possível sim ter amigos de fé mesmo que não sejam da Igreja. Buscou enxergar em outras filosofias e literaturas – outrora tão rechaçadas por ele – rastros de Deus e de vida. Percebeu que ler autores seculares, como José Saramago, Dostoievski, Enrique Dussel, Karl Marx (e alguns de seus seguidores), Mário Quintana, Adélia Prado, Machado de Assis, Lispector e outros não trazem perigo de perda de fé. Redescobriu a beleza nas letras de Renato Russo; a identidade escondida no samba de raiz e na música caipira; a irreverência poética de Cazuza e Cássia Eller; o progressismo e o misticismo de Pink Floyd e d’O Rappa e até mesmo na incoerência poética de Raul Seixas.

Descobriu dentro da Igreja a riqueza de outros movimentos e pastorais na maneira de viver a fé; e leu autores como Leonardo Boff, Frei Betto, Rubem Alves, entre outros – e se deixou tocar pela profundidade musical e literal de Pe. Zezinho e André Luna; a força libertadora na música de Zé Vicente; o equilíbrio espiritual de Pe. Joãozinho e Pe. Fábio de Melo (este hoje mais conhecido pela mídia).

E hoje, dia 21 de março de 2009, faz 10 anos que essa história de vida teve início. Uma história que não é melhor nem pior que a de ninguém. É a história de mais um fruto da misericórdia de Deus que com o tempo descobriu que religião e liberdade são mais bem vividas por pessoas que crêem, mas querem saber. E segue equilibrando sua porcentagem de humanidade com a porcentagem divina do Eterno.

O que eu sei é que esse jovem, dez anos mais velho, só tem vontade de uma coisa: VIVER!

Celebremos a vida, vibremos com essa vitória, rezemos por ele!

Pedro Junior

“só há uma chance pra viver”…

* Citação: Documento de Aparecida, § 12.

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propiciatorio

Estudando um pouco sobre a cultura e a religião judaica descobri, dentre outras coisas, um objeto interessante usado nas celebrações do Templo. É um instrumento parecido com uma bacia, usado nos rituais de sacrifício com a finalidade de conservar o sangue dos animais ofertados pelo povo que eram imolados pelos sumo-sacerdotes. Esse sangue era depois aspergido sobre os fieis como sinal de purificação do homem e expiação dos pecados.

Esse material “litúrgico” dos judeus era chamado de Propiciatório, que vem de propiciar, estar propício, favorável. Ou seja, a “bacia” estava ali para servir, para ser solícita; na prática, para guardar o sangue que era a “salvação” de muitas pessoas que sofriam diversos males. Essa era a crença daquele povo que buscava o conforto para suas almas fatigadas, suas mentes perturbadas e seus corpos oprimidos. Sintomas não muito diferentes dos de hoje – psicólogos e religiosos que o digam…

Não é verdade que o ser humano está em constante busca de um sentido pra vida? Buscamos e às vezes achamos… Seja na religião, nas filosofias, nas ideologias, nas magias ou qualquer outra manifestação. O importante é o encontro da integração do corpo, da mente, com o espírito. Daí então oferecemos em sacrifício o carneirinho ou boizinho – comprado com desconto com alguns cambistas do “Templo” (Jo 2, 14) – para recebermos em troca a tão desejada felicidade. Mas o que há de errado nisso?! Vou ser direto: Poucos, bem poucos, querem propiciar a alegria dos outros. Esquecem que isso é um dos maiores deveres de ser feliz. O propiciatório dos judeus, aos olhos de um leigo, não tinha validade. O sangue dos animais poderia ser derramado em qualquer tigela ou vaso porque, o atraente mesmo, era o rubro líquido salvívico que trazia o alívio.

O perigo na busca da felicidade pode ocorrer na concepção que temos dela. Talvez, na ânsia de possuí-la e de abrandar depressa nossos sofrimentos, damos espaço para um vírus microscópico, típico do homem moderno chamado egoísmo. O mercado do mundo fácil das religiões e as quimeras das ideologias (que se dizem desalienantes das classes) fazem o homem refém de ciclos viciantes de ilusão.

Muitos querem a paz, a revolução, a fama, o dinheiro, o conforto, a alegria, as soluções a qualquer preço. Ingressam num clube ou numa igreja e logo saem se essas não lhes garantir mais a prosperidade que queriam. E assim continuam vagando à procura de um jeito mais fácil de viver. Almejamos a salvação, mas não queremos ser o propiciatório da salvação.

Ser um propiciatório é ser um servidor. As luzes do mundo nem sempre apontam para o servente. Mas qual a verdadeira luz que precisa iluminar o nosso mundo? Deve ser por isso que o saudoso João Paulo II disse numa oração: “Francisco, o mundo tem saudades de ti”. O pobre de Assis, assim como tantos outros protagonistas da verdadeira alegria, descobriu que é dando que se recebe – mesmo que seja uma punhalada pelas costas – mas é também morrendo (para si mesmo) que ganhamos a vida eterna.

Como disse E. J. Hardy, citado outro dia neste site: “A felicidade se faz, não se acha”. Então, vamu que vamu!

Pedro Barbosa Lima Junior

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Mulher azul

Todo mundo já assistiu a alguma palestra anti-drogas – seja na escola, num movimento religioso ou onde for. Há aquelas excelentes, que te fazem sair pensando na vida – e há aquelas em que você sai se lamentando de ter visto. Me lembro de uma que assisti na adolescência, com um policial até bem intencionado, mas que insistia em tratar o usuário de drogas como um delinqüente, um sujeito sempre envolvido com a criminalidade, quase sem distingui-lo de um traficante. E eu, chato como sempre, não resisti em lascar a pergunta: “mas e aquele carinha ‘paz e amor’ que planta a maconhinha dele, e diz não atrapalhar ninguém?” Ele leu o artigo que qualifica o plantio dessas substâncias como crime, e arrematou: “Ele está tão errado quanto o outro que compra. Isso é papo dele pra levar você pra onda dele!”

E o problema não é só o preconceito. Falar de drogas em geral (incluindo o álcool e o cigarro), seja em palestras ou de qualquer outra forma, é sempre algo complexo, que exige o bom senso de conhecer a realidade do público que se quer atingir, como eles já vivenciam o assunto. Por exemplo, o testemunho de um ex-toxicômano pode comover e demonstrar as alternativas que a vida pode oferecer, mas pode também incitar a curiosidade de quem vê um cara saudável e feliz falando que já experimentou de tudo – especialmente em adolescentes que, digamos, já têm um “potencial” para entrar nesse mundo. É um trabalho bastante melindroso, nem sempre fácil de se fazer…

Fé na prevenção

É isso que faz com que iniciativas como esta, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), em parceria com o PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) e a UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), sejam tão louváveis. Sabendo do potencial de instituições religiosas e movimentos afins para tratar do assunto das drogas (afinal, além de sempre promoverem ações sobre o tema, a religião é muitas vezes o lugar onde a pessoa ou a família procuram refúgio ao depararem-se com situações de risco), eles elaboraram um curso à distância, visando capacitar pessoas com papel de liderança em tais movimentos para que saibam lidar um pouco melhor com isso tudo, unindo os conhecimentos médicos e psicológicos aprendidos ao amparo da sua fé (seja ela qual for).

O curso, que terá a duração de 2 meses (abril e maio/2009), possui o sugestivo nome de “Fé na prevenção” e estará abrindo nada menos que 5000 vagas, para interessados de todo o Brasil. O melhor de tudo? É gratuito! Isso mesmo: você participa no conforto da sua casa, não paga nada e ainda recebe um certificado de Extensão Universitária pela UNIFESP, que é referência absoluta no assunto.

O público-alvo são pessoas envolvidas em algum movimento religioso, de preferência que participem de alguma atividade na área de saúde e que estejam com a “mente aberta” para discutir sobre o tema. Como fazer para se inscrever? Basta preencher o formulário do site www.fenaprevencao.org.br (onde também estão as demais informações do curso) e aguardar a confirmação da seleção. As inscrições vão só até o final do mês de março, portanto não demore – e divulgue o máximo possível, afinal não é todo dia que se vê uma oportunidade dessas!…

E, pra refletir, vamos com o meu xará Pensador: “Tem alguém aí?”

UPDATE (11/04/09): Foram prorrogadas as inscrições para o curso!! Segundo o site, as inscrições poderão ser feitas ainda neste mês de abril, e a data de início do curso ainda será confirmada.

Aproveitem!!

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perdao23

Me lembro da minha primeira aula de História das Religiões, no mestrado, em que o professor (um padre, por sinal), sugeriu não que não abordássemos o Cristianismo durante o curso, por ser um assunto sobre o qual “todo mundo já sabia” um pouco, já que haviam tantas outras grandes religiões a serem estudadas. A turma, naturalmente, começou a debater tal decisão, e só naqueles poucos minutos de discussão já deu pra perceber o quanto o assunto era controverso. Pedi a palavra, então, e questionei se o fato de temos naquela sala visões tão diferentes sobre uma religião tão importante para a formação de todos nós, não seria um bom argumento para discutirmos sobre ela durante o curso. E então o padre-professor concordou em dedicar duas aulas do programa para falar mal tratar dos primórdios da sua própria religião.

Este episódio, assim como tantos outros vivenciados por aí, me fazem pensar em como temos os ensinamentos cristãos como coisas “que já sabemos”, já trazemos de berço, independente da nossa religião. Perdi a conta de quantos ateus vi se dizerem mais entendedores da bíblia que os próprios cristãos; de quantos crentes divergirem sobre questões fundamentais de sua crença, de quantas pessoas se acharem capacitadas para debater sobre o cristianismo baseado apenas no que aprenderam na catequese que fizeram para receber a primeira comunhão.

Buscando, pois, uma forma de desenvolver não só o conhecimento de estilo acadêmico, mas sobretudo possíveis aproximações dos ensinamentos evangélicos para os dias de hoje, que inauguramos hoje uma nova sessão do blog, apresentada pelo nosso novo colaborador (mas já velho amigo) Pedro Barbosa Júnior. Pedro é formando em História pela UFJF, e um grande curioso na arte de ver além através dos escritos bíblicos. Mais do que um estudioso do assunto, ele é um amante do que faz – o que o capacita grandemente para fazer parte do nosso time.

Seja você cristão ou não, com toda certeza carrega um grande peso do cristianismo em sua história. Encare como bom ou mau este peso, é preciso conhecê-lo para viver a vida. E, acredite, ele não é do tipo da coisa que se vê somente “com os olhos“…


A dignidade de Deus

Por: Pedro Barbosa Júnior

Certo dia eu li uma frase na agenda de uma amiga que dizia: todo homem quer ser Rei, todo rei quer ser Deus, mas só Deus quis ser homem”.

Frase inquietante que me fez pensar que essa pretensão do homem de situar-se no lugar de Deus não traz consigo o mérito de possuir a “dignidade de Deus”.

Por exemplo: Vejo essa questão no caso de perdoar pecados. Não estou aqui a definir teologicamente o que seja pecado, mas vamos entendê-lo como ações que alguém realiza que atinja negativamente o próximo, no qual esse alguém ou esse próximo pode ser você, leitor, ou eu mesmo.

Se perdoar pecados é uma questão exclusiva de Deus (assim é a doutrina judaica e cristã) é estranho quando um homem ou uma mulher assuma pra si essa função. Talvez fosse por isso o estranhamento dos escribas aos ouvir Jesus dizer a um paralítico: “Filho, teus pecados estão perdoados”. (Mc 2, 5)

Seria mais fácil ouvir Jesus dizer ao paralítico: “levanta e anda”. Assim o show da fé seria menos blasfêmico que perdoar pecado… Aliás, esse negócio de perdoar quem gosta e quem entende é Deus!

Analisando a divindade de Cristo, observamos que Jesus de Nazaré sendo Deus – e um Deus que escolheu ser homem – Ele sem dúvida assumiu a pretensão divina que leva à compaixão, ao amor, à ternura, à bondade…

Contudo, se Jesus não fosse Deus, ele, com certeza, teria sido um homem nobre, um Rei (dos judeus e de quem quisesse ser seu súdito) que fazia escolhas divinas nos sentimentos do seu coração, preferindo a bondade ao invés da crueldade, a misericórdia à condenação, a amabilidade ao egoísmo, a ternura ao ódio, a esperança ao desespero, enfim, a Vida à morte!

todo-poderoso-poster01O filme “O Todo Poderoso”, encenado pelo ator Jim Carrey, mostra, entre outras coisas, o quanto que o poder desmedido nas mãos humanas toma caminhos desastrosos. Mesmo que o sucesso do filme de comédia tenha sido mostrar o poder sobrenatural de Deus nas mãos de um simples sujeito e, a partir daí, as confusões que o personagem criou (que, aliás, são hilárias) não posso deixar de observar que, ao contrário do filme, foi o poder “sobrenatural” de amar e perdoar que Jesus copiou de Deus – e quis mostrar ao homem que este consegue viver a “dignidade de Deus” a partir de sua personalidade comungada com pequenos fragmentos do céu!

Deste modo, acredito que o extraordinário se torna ordinário através de pequenos-grandes atos, como a capacidade de perdoar e dar o perdão, mesmo sabendo que essa é uma tarefa exclusivamente divina, e por isso tão difícil – mas não impossível a gente como nós!…

P.S. (do Luis): Um banco, para ficar em pé e cumprir sua função, necessita de pelo menos 3 pernas. É com muita ALEGRIA que recebemos o Pedrão no time, que além de todas as características já citadas pelo Gabriel, também tem uma série de outras afinidades conosco: A intermitente falta de  parafusos, o bom gosto, um senso de humor particular e a busca ousada da vida.

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