Poesia

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Nesta semana recebi um daqueles inúmeros emails encaminhados. Mais um texto (ou power point) bonitinho que seria sumariamente deletado se não fosse a importância da pessoa que me enviou.

Dei o crédito e não me arrependi… A notícia, que diz ter sido publicada em 04/01/2006 e não possui o nome do autor, ganhou o título de “O caso do poema roubado” no jornal “O Globo“, coisa que não consegui conferir, mas também não tenho motivos para duvidar…

O caso do poema roubado

poema_roubadoHá coisa de dois ou três meses apareceu, no portão do sítio, um pacote grande, embrulhado num saco de lixo preto. Ninguém viu quem trouxe. Amanheceu e estava lá. Assim que foi notado, ficaram todos da casa, bípedes e quadrúpedes, muito cabreiros com a sua presença. Nos dias de hoje, ninguém vê com confiança ou simpatia pacotes grandes, embrulhados em sacos de lixo pretos.

Os cachorros cheiraram e latiram, os gatos mantiveram distância, o Dirceu olhou de longe, cutucou com uma vareta, chamou Mamãe. O conteúdo parecia ser duro, sólido, como madeira. Não era nada morto, com certeza. E não parecia ser bomba, muito embora ninguém da família tenha a mais remota idéia de como seja uma bomba, salvo pelo que se vê no cinema e nos desenhos animados.

Finalmente, depois de mais cutucadas e de muita hesitação, o pacote foi trazido para dentro, e aberto com o cuidado que a desconfiança recomendava. Quando o conteúdo se revelou, surpresa total: quem poderia imaginar que um poema roubado há 30 anos voltasse ao lar daquela maneira?!

Quando o sítio ficou pronto, em princípios dos anos 60, uma das primeiras providências dos meus pais foi espalhar pelo jardim e pela floresta uma dúzia de poemas. Papai os selecionava, Mamãe os pintava em tabuletas e ambos escolhiam juntos, com capricho, as árvores e os cantinhos onde seriam expostos. Passear pelo sítio era como entrar numa pequena antologia sentimental.

Com o tempo, as tabuletas foram sumindo. Algumas queimaram junto com as suas árvores nos incêndios que, há alguns anos, eram comuns na região e que, apesar dos esforços do pessoal lá de casa, eventualmente atingiam partes do terreno. Outras foram vítimas do tempo. A maioria, porém, desapareceu sem deixar vestígios.

O poema devolvido chama-se “Casa antiga”, foi escrito em 1964 por minha madrinha Cecília Meireles e dedicado a Nora e Paulo Rónai:

Forrarei tua casa já tão antiga
Com um papel que imita as paredes de tijolo.
Ficará tão lindo como se estivéssemos na Holanda.

Forrarei tua casa assim, mas por dentro,
De modo que, longe de todas as vistas,
Será como se estivéssemos ao ar livre, no jardim.

E deixarei uma parede quebrada ? não uma porta, não uma janela:
Uma parede quebrada por onde passe um ramo de goiabeira
Carregado de flores e vespas.

Parecerá que estamos sonhando,
E estamos sonhando mesmo,
E parecerá que estamos vivendo,
E a vida não é mesmo um sonho impossível?

Dentro do pacote, junto com a tabuleta, veio um bilhete escrito em letra pouco cultivada, na folha arrancada de um caderno. Dizia o seguinte: “Quando era menino achei este quadro lindo, pelo poema. Peço perdão por ter roubado este quadro. Hoje me converti a Jesus e sinto necessidade de devolvê-lo. Sinto-me envergonhado pela minha atitude. Mais era só um menino. Peço perdão a Deus e a vocês. E que vocês também consigam perdoar.”

Não havia nome, assinatura, nada. Ficamos com muita pena, pois teríamos gostado de conhecer e abraçar o menino antigo que roubou o poema e o homem correto que o devolveu, passados tantos anos. Mal sabe ele que nos deu um presente muito maior do que o que levou: um mundo onde crianças roubam poemas e adultos os devolvem é um mundo de beleza e de esperança.
(O Globo, Segundo Caderno, 4.1.2006)

P.S.: Achamos a autora do texto! É a cronista Cora Ronai. Que ela receba a nossa gratidão por ter nos presenteado com essa maravilha…

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Ano passado, voltando de uma viagem, passei em frente a um teatro em Belo Horizonte e vi o cartaz: Hoje – Mercedes Sosa – 21hs.


Gracias a la vida

Na mesma hora pensei em saltar da Van que me levava de volta para casa, ficar ali mesmo, comprar um ingresso e voltar de ônibus. Por educação não o fiz, e o mais estranho é que fiquei com um pensamento na cabeça: Nunca mais vou poder ver um show da Mercedes Sosa.


Todo Cambia

Infelizmente eu estava certo, pois hoje faleceu uma das maiores cantoras da história, na minha modesta opinião.

Tentei explicar a um amigo a importância de La Negra (como Mercedes era conhecida), dizendo: Ela é como o Milton Nascimento da Argentina, ou melhor, ela talvez seja como o Chico Buarque. Esquece, ela é como se fossem Chico, Elis, e Milton misturados.


Solo le pido a Dios

Na verdade eu errei, pois ninguém é igual a ninguém; e Mercedes era a prova máxima disso, ela era única.

Fica aqui um Na Música da Vida, um pouco triste pela perda de Haydée Mercedes Sosa, mulher de garra, mulher do povo, mulher que sabia tocar os corações através de sua voz inigualável.

Espero um dia ainda me encontrar com Mercedes, e pedir: Canta-me algo que me hace volver a los 17.

Volver a los 17

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Em meio a tantas notícias, mal percebemos que ela chegou.

E todo ano é assim, ela vem e vai, deixando sempre uma alegre certeza de que a vida continua. Ela chega com suas cores, formas e perfumes que parecem ter sido feitos só para tirar essa  sobriedade-pastel que, de vez em quando, veste o mundo.

Apareceu hoje aqui em casa, não tocou a campainha, não fez barulho, mas eu sabia que era ela.

Ela veio como quem não quer nada, pedindo somente uma nesga na janela. Mentirosa… Ela quer mais de mim, no fundo eu sei o que ela pede… Ela quer .

, porque é difícil acreditar com tanta neblina, chuva e mil e uma loucuras que só podem ser descritas por aqueles que vivem sob as rédeas desse clima esquizofrênico que diz se chamar “tropical de altitude”.

Ela quer que eu acredite. Afinal de contas, vejamos ou não, ela está aqui, e veio me dizer docemente: Há uma primavera em cada Vida.

Quanto me falta para ser poeta, falta ver que as flores são poemas declamados em silêncio. É  isso que ela veio me ensinar, e virá por mais não sei quantos anos, até que eu também possa dizer que aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar inteiro.

flores

Bem-Vinda Primavera.


(Com um agradecimento especial à Cecília Meireles, Florbela Espanca e Vanessa Marques)

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murilomendes_guignardSemana passada estive na casa dos meus pais. Ao entrar no meu velho quarto, que hoje sustenta um acolhedor vazio, me deparei com páginas e mais páginas coladas nas paredes.

No tempo em que eu efetivamente poderia chamá-lo de meu, as paredes eram decoradas com fotos, poemas, post-its, e uma série de resquícios de uma adolescência passada entre   Rodrigo Cambará e Rodrigo S. M, eternos amigos.

Mas um poema em especial me chamou a atenção, trata-se da produção do mais ilustre dos juizforanos, o poema “O Utopista” de Murilo Mendes.

Eu não acredito que a utopia seja algo impossível. Mas se fosse, esse poema cairia como uma luva, ele trata sobre essas teorias impossíveis que não se verificam na prática.

O Utopista

Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

Murilo Mendes

A Vida me mostra que o solo é fértil, que a liberdade é bela, e muitas outras alegrias que vou descobrindo com o passar dos dias…

A Vida mostra, mas enxergar depende de mim.

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Com a ajuda do nosso amigo Saulo, encontrei estes vídeos do show da Elba Ramalho na 3ª Marcha da Cidadania pela Vida. A qualidade deixa a desejar, mas dá pra ter uma idéia de como foi:

Na abertura, o  deputado Luiz Bassuma apresenta o show declamando dois poemas: um de Mário Quintana sobre o aborto, ressaltando que ele “não tinha nada de religioso”:

Mario Quintana


“O aborto não é, como dizem, simplesmente um assassinato.

É um roubo… Nem pode haver roubo maior.

Porque, ao malogrado nascituro, rouba-se-lhe este mundo, o céu, as estrelas, o universo, tudo.

O aborto é o roubo infinito.

(Mário Quintana)


E, em referência às dificuldades da luta, a bela Sonho Impossível, de Chico Buarque (que ficou conhecida na voz de Maria Bethânia):

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Chico BuarqueQuantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

(Chico Buarque)


A seguir, Elba inicia declamando “Oração de S. Francisco”, emendando-a à empolgante “Tu Vens”:

Em outros vídeos, Elba aparece cantando Bate Coração e Asa Branca. Pelo visto, foi um show realmente muito bom!

Que os frutos deste ato ainda possam ser colhidos por bastante tempo! E que o direito de defender a vida seja sempre respeitado neste país…

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Monte José, José.

Olhou para trás?
Viu sonhos antigos?
Chorou por eles?
(saudades do que era
e de quem tinha…)

Você mudou, José.
Nem sente nem vê as coisas como via antes
Os amigos cresceram, mudaram, ficaram distantes
E seu choro é sincero.

Pois basta, José!
Encare a verdade, aceite a mudança!
Agora o sentir depende do agir
A vida depende dos olhos
os novos, que ainda não aprendeu a usar…

É preciso saber
É preciso sofrer
É preciso sorrir
É preciso viver.

É preciso acreditar no tempo.
É preciso esperar o sol
Buscar um brilho novo
Que um dia saberá enxergar…

Mas, agora, é preciso fechar os olhos.
É hora de ouvir.

Referências:
José (Carlos Drummond de Andrade)
Monte Inverno (Eduardo Faro / Guilherme de Sá)

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Depois de algumas greves computacionais recursivas, estamos de volta! Antes de continuar, respire fundo e mergulhe neste poema abaixo:

sabia

“A ciência pode classificar

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

Manoel de Barros,  in: Livro Sobre Nada”

Manoel_Barros_fotoHoje gostaria de falar um pouco sobre um gênio da poesia mundial… Manoel de Barros. Sim, digo mundial pois o que a arte deste pantaneiro promove é simplesmente um atravessamento da poesia… uma topada com a vida… uma contorção da linguagem… uma gramática expositiva do chão.

“Quem anda no trilho é trem de Ferro
Sou água que corre entre as pedras:
- liberdade caça jeito

Manoel de Barros, In: Matéria de Poesia”

Alguns chegam a dizer que Manoel de Barros está para a Poesia assim como Guimarães Rosa está para a prosa… Outros dizem que “a poesia está para a prosa assim como ao amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior“…

borboletas_a
“…Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas

Manoel de Barros, In:Retrato do artista quando coisa”

gaiolaPartidarismos de lado, não há como negar a genialidade de Manoel, navegador dos deslimites da palavra…

“XIV
Poesia é voar fora da asa.
Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”

Deixo a dica para quem ainda não o conhecia…

“XXI
Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais ou
no Viterbo -
A fim de consertar a minha ignorância,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
ou no verso das folhinhas:
Conhece-te a ti mesmo.
ou na boca do povinho:
Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco.
Etc
Etc
Etc
Maior que o infinito é a encomenda.

Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”

E desejo a todos uma vida cheia de desconhecimentos e descobertas viventes!

pintando_musica“Prefiro as máquinas

Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo – elas
podem um dia milagrar de flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

Manoel de Barros,  in: Livro Sobre Nada”

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Um dia fui mergulhado, batizado no amor.

Amor Trindade, comunidade, verdade!

Mistério insondável na dinâmica da vida.

foto1

Só o primogênito poderia chamar o Adonai de Abá.

Porém, a Trindade perfeita resolveu me alcançar.

No mergulho me refez e me convidou ao profundo.

As águas do Espírito geram o coração do Filho que vê o Pai.

Torno-me templo, irmão e outro filho.

Nessa comunhão, agora ouso dizer: Abá Pai: Papaizinho…

(Solenidade da Santíssima Trindade)

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“A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados”
gombrowicz1Witold Gombrowicz

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Senhor,

Quero ser grito,

O grito do oprimido, do excluído, dos sem voz!

Quero ser silêncio,

O silêncio do perseguido por causa da justiça e da paz.

Quero ser paz,

No sonho de ver transformada uma Terra

Quero ser guerra,

Num mundo de conformismos, cantar a Libertação.

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Senhor,

Que o TER nunca substitua o SER.

Como seria esquisito um “Ter-Humano”,

Prefiro ser humano!

Senhor… Essa é a minha oração…

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