(Segundo o Gabriel, esta frase é um ótimo exemplo de como as palavras podem adquirir um novo sentido dependendo de quem fala… )
Imaginem a mesma frase sendo dita por algum grande místico… por que não?
Está no ar o primeiro número oficial do VIDA LOUCA CAST! O Podcast do Vivo Pela Vida.
Neste episódio: Gabriel Resgala, Luis NascimentoePedro Júnior se encontram em um lugar muito esquisito para falar de um assunto que, dizem por ai, não se discute… RELIGIÃO!
Se divirta conferindo as loucuras (e algumas reflexões sérias) de um grupo que possui um ex-xintoísta, um devoto do Imperador Constantinoe um cientista da religião que acha é minoria. Escute alguns dos absurdos que já ouvimos por aí, conheça a dogmática da doutrina corinthiana e participe da campanha: PAREM DE GRITAR!
Aviso: Este não é um podcast teológico, apologético, dogmático, científico, ou qualquer outro “ico” que dê alguma casca de seriedade ao assunto… Este é um bate papo informal, ocorrido logo após uma sinuca, no qual expomos o que ACHAMOS sobre “religião”. Esse podcast é a primeira parte de uma longa conversa, a segunda parte será publicada em breve… aguardem…
Depois de algumas greves computacionais recursivas, estamos de volta! Antes de continuar, respire fundo e mergulhe neste poema abaixo:
“A ciência pode classificar
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem
nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
Manoel de Barros, in: Livro Sobre Nada”
Hoje gostaria de falar um pouco sobre um gênio da poesia mundial… Manoel de Barros. Sim, digo mundial pois o que a arte deste pantaneiro promove é simplesmente um atravessamento da poesia… uma topada com a vida… uma contorção da linguagem… uma gramática expositiva do chão.
“Quem anda no trilho é trem de Ferro
Sou água que corre entre as pedras:
- liberdade caça jeito
“…Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas
Manoel de Barros, In:Retrato do artista quando coisa”
Partidarismos de lado, não há como negar a genialidade de Manoel, navegador dos deslimites da palavra…
“XIV
Poesia é voar fora da asa. Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”
Deixo a dica para quem ainda não o conhecia…
“XXI
Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais ou
no Viterbo -
A fim de consertar a minha ignorância,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
ou no verso das folhinhas:
Conhece-te a ti mesmo.
ou na boca do povinho:
Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco.
Etc
Etc
Etc
Maior que o infinito é a encomenda.
Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”
E desejo a todos uma vida cheia de desconhecimentos e descobertas viventes!
“Prefiro as máquinas
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo – elas
podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
Citar o Pe. Zezinho no último “Pensamento do Dia” me fez ficar pensando um pouco nele… Verdadeira lenda vida da comunicação cristã, ou melhor, da música popular brasileira (quem mais teria ganho 25 discos de ouro, um de platina e um de diamantesem nunca ter aderido à grande mídia?) e mundial (é tido como “o padre cantor mais conhecido do mundo”), o cara é do raro tipo que consegue ser respeitado por todas as “alas” da Igreja Católica (e fora dela também) – com excessão, é claro, daqueles que não respeitam ninguém… E, apesar de tantos superlativos, é daquelas pessoas com quem vale a pena bater um bom papo, quem sabe tomar uma cervejinha (ou um vinhozinho, o que é mais provável…).
Pois ontem acordei lembrando, não sei por que, de uma musiquinha dele que ouvi apenas uma vez, há muito tempo, mas que ficou gravada na memória… Com as graças da Internet, achei-a. É de 1998, se chama “Canção ao Deus Cantor”:
Canção ao Deus cantor
(Pe Zezinho, scj)
Eu acredito
Que Deus existe e fez o mundo e tem amor
Eu acredito
Que o céu existe e lá no céu se canta e dança
Eu acredito
Que Deus faz versos e canções que os anjos cantam lá no céu.
Se Deus existe, ele é amor,
Se Deus existe, ele é cantor.
Eu acredito
Em fazer versos e poemas e canções.
Eu acredito
Em quem se senta a uma varanda e canta e canta.
Eu acredito
Que Deus faz versos e canções que anjos cantam lá no céu.
Por isso quando é nuvem negra eu canto paz
Por isso quando é céu azul eu canto mais
E quando escuto o mar cantar me chamar
Eu canto com o mar.
O universo é uma canção…
Por isso eu sei que Deus existe… e é cantor!
Uma canção simples, mas que pela credibilidade do autor tem certo “peso teológico”.“Se Deus existe, ele é cantor”. É o que ele acredita, e por vezes me pego pensando nisso também. Fala a verdade: a música é algo muito louco para ser simplesmente uma invenção humana. A mais universal das artes, o jeito mais globalizado de fazer desabrochar uma emoção, seja ela qual for. Acho que não tem forma melhor de pensar no conceito de “alma” do que imaginar alguém totalmente mergulhado, absorto, ao interpretar ou escutar uma música qualquer…
Pois essa musiquinha do Pe. Zezinho me remete a outra, de um doido manso lá do Maranhão,que atende pelo nome de Zeca Baleiro.
Heavy Metal Do Senhor
Zeca Baleiro
O cara mais underground que eu conheço é o diabo
Que no inferno toca cover das canções celestiais
Com sua banda formada só por anjos decaídos
A platéia pega fogo quando rolam os festivais…
Enquanto isso Deus brinca de gangorra no playground
No céu com santos que já foram homens de pecado
De repente os santos falam “Toca, Deus, um som maneiro!”
E Deus fala “Agüenta, vai rolar um som pesado!”
A banda cover do diabo acho que já tá por fora
O mercado tá de olho é no som que Deus criou
Com trombetas distorcidas e harpas envenenadas
O mundo inteiro vai pirar com o heavy metal do Senhor…
Do Senhor! Do Senhor!
Deus fazendo Heavy Metal, e o diabo copiando. Estranho? Bem, Rogério Feltrin, fundador do primeiro grupo de heavy-metal católico de que se tem notícia, o Rosa de Saron, escreveu no livro de memórias dos 20 anos da banda sobre a suposta “origem demoníaca do rock”:
“‘A arte é uma forma de expressão propriamente humana, nascendo de um talento dado pelo Criador e do esforço do próprio homem’ (Catecismo da Igreja Católica, nº 2501).” Ou seja, “o demônio nada cria, no máximo destrói”.
E ora vejam: este livro, chamado “Rock, Fé e Poesia“, tem o prefácio de ninguém mais, ninguém menos que ele – o Pe. Zezinho, que, apesar de não fazer mais músicas “antenadas” com o mundo jovem já há algum tempo, afirma sua admiração por um rock’n roll bem feito: “Chego a imaginar uma ópera-rock baseada no Dives in Misericórdia. João Paulo II bem que o merecia! Ele viu valor nesse gênero de música”.
Ok, ok… Mas daí a imaginar Pe. Zezinho cantando “Heavy Metal do Senhor” seria demais, não é?
Não é?…
Pois…
Eis que, no longíquo ano de 2005, num congresso em São Paulo, eu recebo um folhetinho com programações culturiais da cidade e, ao folhear, me deparo com uma foto do bom e velho padre com a seguinte legenda: “A série ‘Encontros Improváveis’ reúne Pe. Zezinho e o cantor e compositor Zeca Baleiro no palco do CCBB”.
Sim. Esses dois já dividiram o mesmo palco. Cantando, contando casos e jogando conversa fora. Era um projeto que reunía as parcerias mais inusitadas, como Falcão & Zé do Caixão, Zé Rodrix & João Gordo, Lucinha Lins & Elke Maravilha… Mas, buscando pelo Google, o único comentário que achei sobre o encontro entre Baleiro & Zezinho foi que o Zeca, assim como o idealizador do projeto, “foi muito influenciado na infância” pela música do Pe. Zezinho, fato que justificou a escolha da dupla.
O que aconteceu naquele palco? Como não pude ir, só me resta alimentar a curiosidade mórbida. Se você, caro leitor, por um acaso qualquer, assistiu a esse encontro improvável, por favor atenda nossa súplica: descreva-nos como foi o Heavy Metal do Senhor. Sim, porque essa não pode ter ficado de fora do repertório. Nem que tenha sido numa versão mais light… Aliás, light? Não, obrigado. Assim como o Zeca, eu destesto Coca – e música – light. Seja música sacra, heavy metal ou bossa nova banquinho-e-violão, tem que vir de dentro.
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