Deus

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Infanticídio…

Essa é uma das coisas que eu não entendo como alguém possa defender. Talvez seja por me identificar um pouco com o Dexter, crianças são meu ponto fraco.

Daí vem a revolta quando vejo críticas e perseguições a projetos como o HAKANI e o ATINI, que se dedicam a salvar crianças indígenas. Coisa que deveria ser tarefa do Estado, mas este é mais um dos perseguidores.

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Neste último dia 04 de fevereiro, os criadores da ATINI receberam uma intimação para depor na Procuradoria Geral da República, devido a diversas acusações absurdas. Eles pediram nossas orações, mas eu quero pedir ainda mais.

Em respeito aos projetos e a luta que vem sendo empregada em favor da vida, peço que orem e divulguem o caso.

Este absurdo não pode continuar desta forma!

Para saber mais, acessem os sites:
http://www.atini.org/

http://www.hakani.org/pt/

“Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça”

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Está no ar o segundo número oficial do VIDA LOUCA CAST, o Podcast do Vivo Pela Vida.

Neste episódio (continuação deste aqui): Gabriel ResgalaLuis Nascimento e Pedro Júnior continuam conversando sobre o assunto “que não se discute“: RELIGIÃO!

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Descubra o segredos dos banheiros da UFJF, o que é laicidaderelativismo e veja se você também consegue fazer o impossível.

Nossos integrantes ainda batem um papo sobre as doutrinas que se dizem mais católicas que o catolicismo, sobre a engenharia cristã, ecumenismo, utopia e diálogo religioso.

..

Escute aqui!

 

ou clique aqui para fazer o Download
(clique com o botão direito e escolha “
Salvar como…”)

Duração: 50 min.  – Tamanho: 35 MB

Se não escutou, não deixe de escutar o nosso primeiro episódio! Pedimos desculpas pela demora em lançar este segundo episódio, mas temos certeza que vocês nos perdoarão… hehehe.

Escutem e comentem!

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presepio 2Estamos hoje celebrando um marco histórico no calendário cristão, repetido há 20 séculos no mundo todo, unindo povos, cores e línguas. É o nascimento de Jesus! O filho do justo carpinteiro José e da jovem e bela Maria.

Seu nascimento trouxe mudanças no mundo! Provavelmente, se Jesus não tivesse nascido, o mundo como conhecemos hoje, com sua cultura e costumes, não seria o mesmo.

A mensagem daquele menino, divulgada desde cedo em Belém, alcançou toda a Palestina:  Jerusalém, Caná, Jericó, Samaria, e até Betânia, um leprosário. Mesmo após a morte de Jesus, a mensagem chegou como luz em Damasco, e posteriormente iluminou a Ásia Menor, Grécia e Roma, estendendo-se para além do judaísmo convertido, alcançando toda a humanidade!

E que mensagem é essa? Em uma simples definição: A mensagem do Amor e da Vida. O cristianismo, nome dado à religião definida, traz um novo sentindo à existência humana e às relações sociais dos homens. É a ‘Boa Nova’ do Cristo Jesus! Sua mensagem expandiu pelo mundo inteiro não por forças políticas ou interesses econômicos. Claro que em algum momento da história pode ter havido interesse, pois tudo que é infinitamente belo, infelizmente, no nosso mundo, remete à lucratividade! Todavia, sua mensagem veio mostrar que vale a pena viver e amar! Vale a pena ser gente! Vale a pena acreditar no amor!

A mensagem do menino Jesus, ou do jovem nazareno ou do velho JC, continua a mesma! E como é interessante ver o Amor e Vida sendo celebrado no Natal em todo tipo de família, tanto as padronizadas (com papai, mamãe e filhinhos), quanto as “modernas” e já normais no século XXI, com vários modos e agrupamentos. Como é interessante ver o Amor e a Vida sendo celebrados em mansões com ceias fartas e presentes caros e ao mesmo tempo em favelas sem ceias e presentes, mas com presença! Como é interessante ver o Natal ser celebrado com Amor e Vida em todos os cantos da Terra, mesmo sabendo que o mundo em que vivemos e desejamos está longe do ideal de Amor e Vida pregado pelo aniversariante do dia!

cristo-redentor-e-sua-sombraMas é neste antagonismo que o menino nasce de novo. O Deus que escolheu ser homem constrange os homens que querem ser reis e os reis que querem ser Deus! Há muita beleza em ser homem, há muita dignidade em ser mulher. Uma pena que no mundo da política, o que importa não é a dignidade da pessoa humana ou o ecossistema do planeta, mas o desenvolvimento, a todo custo, da economia do meu país, independente da destruição da natureza e o que deixo para a posteridade!

Uma pena também que no cristianismo muitos querem ser anjos perfeitos e se esquecem que bom mesmo é ser gente! Como é estranho ver cristãos que destroem humanidades dizendo que a luz que existe dentro deles é fraqueza! Essa é a tática de pessoas cruéis que procuram destruir a bondade, a ternura, a fé nas pessoas em nome da ‘virtude perfeita’. Esqueceram-se que a mensagem do Mestre é o Amor e não há nada de errado em amar!

“Não é função do Cristianismo, antes de qualquer outra coisa, ensinar-nos doutrinas, mas sim como viver a VIDA! (…) doutrinas e práticas religiosas são úteis quando auxiliam minha capacidade de viver com autenticidade”. (Linn, Matthew. Abuso Espiritual & Vício Religioso. Ed. Verus. p. 23). E desconfio que aqui esteja a essência da mensagem daquele jovem que mudou o mundo! Mensagem antiga e tão nova! Por isso é sempre uma Boa Nova, principalmente no Natal, onde os sentimentos e emoções renascem de maneira nova em poemas velhos!

É neste espírito de Natal que desejamos a você uma celebração de Vida Pela Vida! Encha sua vida de novidades… Quem sabe a Vida de Jesus de Nazaré e sua mensagem não sejam uma!

UM FELIZ NATAL A TODOS!

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mãos(Veja a primeira parte aqui)

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Estrela Natal

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando)

PS: Devido a problemas de conexão, só agora consegui postar essa segunda parte do conto, que estava prevista para hoje de manhã. Peço desculpas, mas creio que ainda é tempo: afinal o “amanhã” de ontem ainda não acabou… rsrsrs…

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…


Veja a primeira parte aqui) [LINK])

Em pouco tempo José e Maria se casaram, e eis que, na época do nascimento da criança, eles estavam em plena viagem, por conta de um recenseamento ordenado pelos poderosos da época. Mas, ao chegar a Belém, José sentia-se um estrangeiro em sua própria cidade, em meio a antigos familiares:

_ Lamento, não há mais lugar na hospedaria.

_ Mas minha mulher pode dar a luz a qualquer momento…

_ Olhe, José, veja se alguém se dispõe a ceder-lhes o lugar. Por mim, não posso fazer nada…

Entristecia-lhe o coração, e o de Maria também. Que ironia, o Rei não tem casa mesmo antes de nascer…

Maria meditava sobre aquilo tudo, lembrando-se das profecias. Sabia que seu filho seria rejeitado, sabia que ele haveria de passar pelos piores momentos, desde a hora em que fora concebido em seu ventre. A salvação já estava no mundo, há nove meses. Era chegada a hora de o mundo a conhecer.

Então começaram as contrações. José, preocupado, procurava alguém que lhes cedesse um quarto, uma cama, ao menos por algumas horas. Mas a pequena vila estava em polvorosa, todos preocupados demais com as confusões que a burocracia do tal recenseamento provocava. Os próprios parentes lhe viravam a cara tão logo o avistavam, por saber que procurava alojamento.

_ É só por alguns instantes, o garoto está nascendo!

Mas seu grito se perdia em meio ao barulho da pequena multidão. Um bêbado riu da sua cara, perguntando se ele agora era mago, pois já sabia o sexo da criança antes de nascer. Foi o único que lhe escutou.

Voltou para onde estava Maria, amparou-a pelo ombro e saiu a caminhar com ela, decidido, em direção aos arredores da vila.

Encontraram um pequeno curral, onde alguns animais pastavam, tranqüilos. Catou algumas palhas e folhas de capim, e rapidamente arrumou um local limpo para a mulher deitar. Já anoitecia.

Os gemidos de Maria agora aumentavam, as contrações pareciam cada vez maiores. Segurou forte sua mão e afagou-lhe os cabelos, dizendo-lhe algumas palavras de consolo. Mas ela não parecia desconsolada; muito pelo contrário, parecia concentrar todas suas energias naquilo que estava para acontecer, no que seria o momento mais sublime de toda sua vida até então.

Sem tirar os olhos de Maria, José arrumava tudo, limpando o pequeno local com uma espécie de espanador que improvisou com folhas e galhos de um arbusto.

Uma chuva fina começou a cair. “Que bom!”, ele pensou. Saiu a procurar por folhas grandes, achou numa árvore a poucos metros. Usou uma pequena corda que alguém esquecera no curral para amarrar duas folhas em forma de concha, e atou-as na borda do teto da cabana, de modo que fossem recebendo pingos da chuva. Em pouco tempo tinha duas “canecas” d’água. Ofereceu-as a Maria, que exigiu que ele bebesse um pouco também.

_ José – disse ela, enquanto segurava sua cabeça e olhava-lhe nos olhos – O filho que Deus nos deu está vindo ao mundo!…

_ Bendito seja Deus, minha Maria! Bendito seja!…

Então ocorreu-lhe que precisariam de um lugar para repousar a criança. Olhou para um lado e para o outro, pensando no que poderia fazer; viu então um cocho onde os animais comiam. Estava vazio, e provavelmente só o abasteceriam no outro dia de manhã.

_ Me desculpem, bichinhos… mas hoje esse cocho vai ter outra utilidade…

Levou-o para perto de onde Maria estava, e começou a limpá-lo. Botou algumas palhas para amaciar, e forrou com folhas e pétalas de algumas flores que encontrou. Ficou um belo ninho.

_ José, pegue os panos que trouxemos na viagem… Para envolver o pequeno…

Separou então os panos, e foi para junto de Maria. Os gemidos aumentavam, ela começava a transpirar cada vez mais. José não cessava de enxugar sua testa com um dos panos e dar-lhe goles da água que pegava com as conchas.

Maria sentiu então que era chegada a hora, e pediu a seu esposo para ajudá-la. Apoiou as costas na parede, de modo a ficar um pouco inclinada, enquanto concentrava suas forças para o parto. Um pouco trêmulo, José pôde ver a cabecinha do bebê ir aparecendo, pouco a pouco, enquanto tentava ajudá-lo a sair…

De repente, um choro tímido cortou o ar, assustando os animais que se refugiavam no canto do estábulo. Era o pequeno Jesus.

José o pegou nos braços, enquanto, habilidoso, cortava o cordão umbilical com sua faca. Limpou-o, envolveu-o com os panos, e tratou de entregá-lo à mãe.

A cena que viu então não poderia ser descrita nem pelo mais inspirado dos oradores, nem pelo mais habilidoso dos pintores. Aquele olhar de Maria para seu filho, para o seu pequeno Jesus, foi a coisa mais maravilhosa que poderia contemplar em toda a sua vida. O menino parara de chorar, e abrira os pequenos olhos, fitando os da mãe, que correspondia com um olhar profundo, como se enxergasse a alma do pequeno ser que estava em suas mãos. Era como se já se conhecessem (e, na verdade, já se conheciam…).

Foi então que Maria, sorrindo, olhou para o marido, e estendeu-lhe o bebê. José, estremecendo um pouco, sorriu e o pegou no colo. Pôde então contemplar seus olhos, suas pequenas mãozinhas, cada pedacinho do corpo daquele pequenino milagre.

Nisso ouviram um ruído por trás das árvores. Viraram-se, e notaram uma criança a observar aquela cena. Provavelmente, o filho do dono do curral.

José, sereno, botou o dedo na boca, fazendo-lhe sinal de silêncio. O garoto correspondeu, como que entendendo que não devia contar para ninguém. Então virou-se, correu para dentro de casa, e rapidamente voltou com alguns figos na mão. Como adivinhara que eles tinham fome? Deixou-os ao lado de Maria, e botou novamente o dedo nos lábios, pedindo segredo. Ela correspondeu, sorrindo, e o garoto partiu correndo.

E assim foi o primeiro Natal. Sem uma família numerosa, sem comida farta, sem grandes presentes. Mas, para aquela pequena família, abandonada num pequeno curral, não havia momento mais feliz. Maria sorria como nunca, enquanto descansava e contemplava tudo em seu coração. Com Jesus nos braços, José balbuciava um salmo qualquer, agradecendo por poder vivenciar tudo aquilo. Estava maravilhado, sentia uma sensação indescritível de plenitude, como se tudo, enfim, já estivesse consumado. Diria até que poderia morrer feliz naquele momento, não fosse a vontade enorme de criar aquele filho com todo o amor do mundo, cumprir a maravilhosa missão que lhe havia sido concedida. A vida tinha sentido.

Notou então uma estrela a brilhar mais forte no céu. A chuva cessara, as nuvens aos poucos iam dissipando-se. Lembrou-se então daquela noite de angústia, ao sair da casa de Maria, e de repente, meio que sem saber por que, se viu a pensar sobre o que seriam as estrelas, as nuvens, a lua. Diziam que, no Oriente, havia magos capazes de desvendar o segredo dos astros, saber o significado de cada um.

Mas, naquele momento, não precisava ser um mago para saber o que dizia aquela estrela.

Bastava um coração de carpinteiro.

Gabriel Resgala – 20.12.08

(originalmente publicado no Humanando [LINK])

A você, nossos sinceros votos de um grandioso Natal – tão grandioso que seu espírito perdure para bem além desta data!…

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Pôr do sol

A garota corria radiante pelas ruas de pedra do pequeno vilarejo; quem a visse passar, nem que fosse por uma fração de segundo, certamente notaria o sorriso encantador que transfigurava-lhe todo o rosto, excedendo os limites dos lábios. Com certeza tinha algo muito bom a fazer, aonde quer que estivesse indo…

Chegou à pequena casa, bateu ansiosa à porta.

_ “Seu” Zé! “Seu” Zé!

José estava nos fundos, cortando pacientemente um duro pedaço de madeira, que parecia nunca ceder. Era daquelas madeiras enjoadas, difíceis de cortar, mas fáceis de lascar. Já lhe tomara boa parte da tarde, mas o pacato Zé não parecia angustiado; pelo contrário, mostrava-se excitado com o desafio de achar a dose certa de força a se aplicar. “Madeiras são como pessoas”, pensava. “Cada uma exige a habilidade certa para se lidar, o equilíbrio correto…”

Mas a notícia que receberia, ao abrir a porta assustado, lhe lembraria alguém capaz de lhe desconcertar por inteiro, fazendo-o se sentir sem habilidade alguma.

_ “Seu” Zé, a Maria chegou!

Imediatamente bateu na roupa para tirar o pó, pegou as sandálias e saiu afoito, andando o mais rápido que podia. A idade o impedia de correr como a pequena mensageira, mas não de sorrir como ela. Os observadores daquelas ruelas agora viam um jovem senhor a ir ansioso pelo caminho inverso ao da menina serelepe, num misto de encantamento e angústia.

Sim, aquele sereno coração de carpinteiro era capaz de se angustiar, como qualquer outro; mas a sensação agora era simplesmente aquela tênue angústia de quem não vê a hora de matar uma doce saudade.

_ Maria chegou! A minha Maria…

Chegou à casa, bateu na porta. Joaquim atendeu, jovial.

_ Ora, ora! Mas a noiva mal chegou e você já vem vê-la, heim? Não vai nem esperar a moça descansar da viagem?.Esse é o meu genro!…

Riu e o abraçou, caloroso. Não havia sogro mais bem-humorado.

_ Vamos entrando! Maria está no quarto com a mãe, arrumando suas coisas. Logo, logo aparece…

José sorriu, enquanto tentava segurar a ansiedade. Esse “logo, logo” poderia ser uma eternidade. Que remédio, teria mesmo que esperar! Mas paciência… pra quem já esperara mais de três meses…

Conversou longamente com Joaquim, até que chegou Ana.

_ Olá, José. Maria está lhe esperando. Ela quer muito falar com você.

Sorriu para os sogros, e foi ao tão aguardado encontro com a pequena noiva.

_ José, meu querido!

Abraçou-a forte, como se nunca mais a fosse largar. O coração disparado, os olhos brilhantes, quase transbordando, a denunciar a saudade contida. Nunca sentira aquilo por ninguém; Maria era capaz de desarmar-lhe, de fazê-lo render-se aos mais profundos sentimentos que lhe tomavam a alma. Com ela, ele tinha os sonhos mais encantadores, cheios de amor, de esperança; com ela, ele tinha .

Como sempre, ela estava linda. Aquela beleza encantadora, de quem comunica mais com um olhar do que com mil pergaminhos. “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me fascinam”, dizia Salomão em seu Cântico. Teria ele conhecido Maria?

_ Ah, José, como senti saudades suas enquanto estava na casa de Isabel! Nem pudemos nos despedir quando fui, pois você estava no campo e eu parti às pressas…

_ Sim, sim, eu soube!… Mas não importa, o que importa é que agora está aqui, comigo…

_ Ah, José…

E ria, radiante. Maria transmitia uma alegria serena, mas intensa. Estava, porém, diferente; não parecia mais aquela menina de quem José ficara noivo. O sorriso era o mesmo, mas não era o de sempre. Ela agora sorria como… como uma mulher.

_ Ah, José, quanta coisa linda vivi neste tempo… Quanta coisa maravilhosa! Acompanhei os três últimos meses de gravidez de Isabel, ela e Zacarias estão radiantes com o filhinho que Deus lhes deu, o pequeno João!…

_ Gravidez? Mas Isabel não era estéril?

_ Sim! Foi um grandioso presente de Deus, uma dádiva dos céus, José!…

Sorriu. Mas algo lhe dizia que Maria tinha uma coisa importante a lhe dizer. E não estava com cara de ser algo simples.

_ Maria…

_ Sim?

¬_ Sua mãe comentou que queria me contar algo…

Maria ficou séria. Continuava, contudo, serena, como se contemplasse algo.

_ Sente-se…

Sentaram-se. José a olhava fixamente.

_ Sim, José… tenho algo a lhe dizer. Algo muito importante, a transformar tudo… Tudo mesmo.

Silêncio. Mesmo sem perder a serenidade, por um instante os olhos de Maria vacilaram, desviando-se para o chão. Como contar? Como dizer o indizível? Não havia como explicar. Ele teria que sentir na pele, experenciar aquilo tudo.

_ José… me dê a sua mão.

Pegou a mão do noivo, com firmeza. Trouxe-a vagarosamente para junto de seu corpo, até que tocasse seu ventre, por cima do manto. José permaneceu alguns segundos ainda um pouco assustado, com a mão ali, tentando compreender do que se tratava. Notou que a barriga da noiva estava um pouco estufada e, de súbito, percebeu com o olhar que os seios estavam maiores, mais redondos – tirou então a mão num ímpeto, como se tivesse tocado uma chama ardente.

_ Maria!…

Os olhos estavam atônitos, a boca aberta, a mente ainda sem conseguir entender. Maria continuava serena, com um olhar compassivo.

_ Ah, minha pequena! – disse, enfim, enquanto a abraçava, lânguido. Como foi acontecer uma coisa dessas? Por Deus, quem foi lhe fazer uma coisa dessas?!

_ José…

Ele a olhava, transtornado.

_ Meu Senhor, quem teve a coragem de lhe fazer isso, minha Maria? Quem foi o homem sem coração que não teve piedade de ti?… Quem é este, que não ama a própria vida?…

_ José…

Parou, e olhou-a profundamente.

_ José, ninguém me fez mal algum.

Então o corpo de José paralisou-se. Entrou em estado de choque, não conseguia mover os olhos esbugalhados, a boca aberta, as mãos caídas ao lado do corpo. Sua face estava branca como de um cadáver, não conseguia sequer elaborar algum pensamento.

Aos poucos, porém, os movimentos foram voltando-lhe, conseguiu enfim balbuciar algo.

_ Maria… você…

Ela continuava séria, olhando-o com compaixão. Não parecia, de forma alguma, estar confessando um grave crime, que poderia custar-lhe a vida.

_ Não, não pode ser verdade. Você não, Maria. Não é possível!

O olhar mariano não mudava.

_ Maria, você seria a última mulher em toda a Terra a fazer isso algum dia. Você ama a vida, Maria. Não seria capaz de fazer algo assim…

Ela conhecia as regras para quem fosse apanhado em adultério – um provável apedrejamento.

_ José…

_ Não, minha amada, não é necessário proteger quem lhe fez isto desta forma, nós arrumaremos um jeito! Não é preciso sacrificar-se, nem a esta pobre criança que você carrega dentro de si! Por Deus, não será preciso derramar sangue algum!

_ José, você crê em Deus?

A pergunta o desconcertou. Ele temia profundamente a Deus, e Maria não só o sabia, mas era sua companheira de orações diárias. Por que lhe perguntava isso agora?

_ Maria, você sabe que minha vida é toda do de Deus. Do Deus de Abraão, de Jacó e do pai Davi. Sem Ele, sou como o pó da estrada… não sou nada.

_ Então, José, ore. Ore e creia que 0 Senhor cuidará de tudo.

Foi para casa ainda meio que em choque, olhando para o longe sem ver nada. Ainda não conseguia entender, enquanto milhares de pensamentos percorriam concomitantemente sua cabeça. Os passos lentos de agora em nada refletiam a ansiedade de quando viera, momentos antes, pelo mesmo caminho. Agora, sim, sentia angústia de verdade.

A tarde já se ia, a noite começava a despontar. O céu limpo ia tomando um azul cada vez mais escuro, enquanto estrelas iam surgindo aqui e a ali. No oeste, um vermelho-alaranjado denunciava que o sol ainda estava por perto, recém-escondido atrás do monte, enquanto a lua ganhava cada vez mais brilho no horizonte oposto. Ainda estava grande e amarela, insistindo em iluminar a escuridão que surgia.

O olhar de José foi se voltando para o céu, e sem perceber começou a contemplar aquela bela cena, que poderia tranqüilamente passar por corriqueira – e que, de certa forma, não deixava de sê-lo. Quando deu por si, estava parado no meio da rua, a olhar para o céu, sem pensar em nada. Por um instante, sentiu paz. Não estava sozinho.

Passou o resto da noite a meditar as escrituras, os preceitos que guardava com afinco na mente e no coração. Pensou nas penalidades aplicadas a cada caso, estupro, adultério, rejeição… A última coisa que queria era denunciar Maria, isso nunca! Morreria por ela, mesmo que tivesse cometido o pior dos pecados. Mesmo que fosse a última das pecadoras, aquela mulher merecia todo o perdão do mundo.

Sim, a lei era necessária, mas… Não seria justo! A lei servia para proteger o povo do pecado, e nisso era boa… mas como salvar a pobre alma que caísse em pecado? Quem salvaria a mulher pecadora, quem salvaria a todos?…

Pensou em abandoná-la em segredo. Fugiria para longe, sem nada dizer; assim pensariam que o filho era seu, e portanto dariam todo o amparo a ela e à criança. Toda a cidade iria amaldiçoá-lo para sempre, mas sabia que Deus seria sua testemunha, e lhe protegeria de qualquer desgraça.

Sim, era o melhor a fazer. Sangue algum seria derramado. Estava resolvido.

Mas… por que ainda algo não lhe parecia estar bem? Por que não sentia firmeza em seu coração?

Preparou-se para dormir. Já deitado, lembrou-se do pedido de Maria para que orasse. Dirigiu-se a Deus, já sem forças, entregando-lhe toda aquela situação. Agora tudo estava em Suas mãos, já não dependia da sua limitada inteligência humana, de simples carpinteiro. Que fosse feita a vontade divina, independente de qual fosse. Recitou alguns salmos, sussurrou profecias. Dormiu rezando.

Passou uma noite agitada, virando-se várias vezes na cama durante o sono. Até que uma luz fê-lo ir acordando aos poucos. Uma sensação misteriosa, então, foi apoderando-se de sua alma; arrepiou-se, sentindo um misto de temor e fascínio. Abriu os olhos devagar, distinguindo aos poucos uma figura difícil de descrever, só saberia dizer que, por algum motivo, sabia de onde aquela criatura viera. Sentia, naquele momento, que estava envolto ao sagrado.

_ José, filho de Davi!

Sim, era um anjo. Um anjo a falhar-lhe!

_ Não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o povo dos seus pecados.

Ele poria nome no menino!? Então Deus havia lhe escolhido como pai!

_ José, creia que tudo isto aconteceu para se cumprir o que Deus falou por meio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, Deus conosco!”

Sim, a profecia! Então ele fora o escolhido!

_ A profecia! – gritou, levantando-se num ímpeto. O anjo sumira, agora via seu quarto, e a manhã começando a despontar timidamente no céu ainda negro, lá fora.

Saiu correndo, do jeito que estava. Agora sim sentia-se um menino, a atravessas as ruas como um alazão, percorrendo o trajeto mais rápido do que nunca fizera.

_ Maria!!

Nem bateu na porta, foi direto à janela do quarto da noiva, assutando-a.

_ José!

_ Maria, não é preciso dizer nada, minha amada! Agora eu sei, agora eu vejo o que Deus realizou em ti! Eu sabia que seria incapaz de fazer algo assim, tu não tens pecado, minha doce Maria! Pelo contrário, és a mais pura das mulheres!

_ Eu nunca te trairia, meu José…

_ Nem a mim nem a Deus, minha Maria! Eu sempre soube disso. Por isso não conseguia entender… Mas Deus me iluminou a mente, e agora eu compreendo! E como me deixa feliz ver tudo que Ele está realizando em nós! Você alcançou graça diante de Deus, minha amada. Ele te escolheu entre todas as mulheres…

_ Ah, José! Te digo que meu espírito exulta de alegria pelas maravilhas que Deus está realizando! Deus se fez homem, e está aqui dentro de mim… Ele olhou para a nossa humildade, nós que somos simples servos, tão pobres… Veja, José: Ele retira o trono dos poderosos, dos gananciosos, e escolhe os puros e simples!…

_ E nós somos testemunhas disso, minha Maria. Nossa vida será um testemunho vivo das maravilhas que Deus realiza através do seu povo!

E assim foi…

Continua…

flor no deserto2 pb

PS: Como disse ontem, este conto não tem pretensão alguma de ser uma narrativa definitiva, de seguir algum rigor. Me inspirei nos Evangelhos, mas foi sobretudo uma liberdade que tomei, deixando a criatividade reinar no Natal, assim como deve ter reinado na cabeça daquele casal, ao preparar um berçário num curral…

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Tudo o que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo cuidado, meu amor

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Beto Guedes & Ronaldo Bastos

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O que sabemos de Deus são as pegadas da Sua ausência.

pegadas

São João da Cruz

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“Deus é o silêncio do universo, e o ser humano, o grito que dá sentido a esse silêncio”

o_grito_homerJosé Saramago


(Segundo o Gabriel, esta frase é um ótimo exemplo de como as palavras podem adquirir um novo sentido dependendo de quem fala… )
Imaginem a mesma frase sendo dita por algum grande místico… por que não?

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vlc01

Está no ar o primeiro número oficial do VIDA LOUCA CAST! O Podcast do Vivo Pela Vida.

Neste episódio: Gabriel Resgala, Luis Nascimento e Pedro Júnior se encontram em um lugar muito esquisito para falar de um assunto que, dizem por ai, não se discute… RELIGIÃO!

Se divirta conferindo as loucuras (e algumas reflexões sérias) de um grupo que possui um ex-xintoísta, um devoto do Imperador Constantino um cientista da religião que acha é minoria. Escute alguns dos absurdos que já ouvimos por aí, conheça a dogmática da doutrina corinthiana e participe da campanha: PAREM DE GRITAR!

religiao_variasAviso: Este não é um podcast teológico, apologético, dogmático, científico, ou qualquer outro “ico” que dê alguma casca de seriedade ao assunto… Este é um bate papo informal, ocorrido logo após uma sinuca, no qual expomos o que ACHAMOS sobre “religião”. Esse podcast é a primeira parte de uma longa conversa, a segunda parte será publicada em breve… aguardem…

Veja ainda:

Escute aqui!

 

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(clique com o botão direito e escolha “
Salvar como…”)

Duração: 45 min.  – Tamanho: 42 MB

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Depois de algumas greves computacionais recursivas, estamos de volta! Antes de continuar, respire fundo e mergulhe neste poema abaixo:

sabia

“A ciência pode classificar

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem
nos encantos de um sabiá.

Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.

Os sabiás divinam.

Manoel de Barros,  in: Livro Sobre Nada”

Manoel_Barros_fotoHoje gostaria de falar um pouco sobre um gênio da poesia mundial… Manoel de Barros. Sim, digo mundial pois o que a arte deste pantaneiro promove é simplesmente um atravessamento da poesia… uma topada com a vida… uma contorção da linguagem… uma gramática expositiva do chão.

“Quem anda no trilho é trem de Ferro
Sou água que corre entre as pedras:
- liberdade caça jeito

Manoel de Barros, In: Matéria de Poesia”

Alguns chegam a dizer que Manoel de Barros está para a Poesia assim como Guimarães Rosa está para a prosa… Outros dizem que “a poesia está para a prosa assim como ao amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior“…

borboletas_a
“…Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas

Manoel de Barros, In:Retrato do artista quando coisa”

gaiolaPartidarismos de lado, não há como negar a genialidade de Manoel, navegador dos deslimites da palavra…

“XIV
Poesia é voar fora da asa.
Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”

Deixo a dica para quem ainda não o conhecia…

“XXI
Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais ou
no Viterbo -
A fim de consertar a minha ignorância,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
ou no verso das folhinhas:
Conhece-te a ti mesmo.
ou na boca do povinho:
Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco.
Etc
Etc
Etc
Maior que o infinito é a encomenda.

Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”

E desejo a todos uma vida cheia de desconhecimentos e descobertas viventes!

pintando_musica“Prefiro as máquinas

Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo – elas
podem um dia milagrar de flores.

(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas.

(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!

(O abandono me protege.)

Manoel de Barros,  in: Livro Sobre Nada”

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