Artigo de Pedro Júnior

Pedrão, que para os pais não tem jeito, será sempre o Juninho.

Nordestino de nascimento, cosmopolita por herança, mineiro de coração! (só não se aventurou no Calypso). Historiador, curioso em história do cristianismo e religiosidade popular (e apesar de tanto estudo, até hoje não descobriu o porque que as mulheres vão juntas ao banheiro).

Gosta de ler, ver filmes e trocar uma idéia. É introspectivo também. Observa o mundo e o compara com a proposta e estilo de vida de um jovem galileu. (quanta contradição!) Crê portanto que a misericórdia fala mais alto que a condenação.

Conjuga mística com ação; paz com inquietação; terno com tênis All Star; Rage Against com Pe. Zezinho. Deve ser por isso que curte essa de “fé e razão”. Aceitou recentemente o desafio de ser Ministro da Palavra (ao estilo Cor Iesu).

E agora está dando uma de colunista de blog, é mole?!

Contato: pedro@vivopelavida.com.br

presepio 2Estamos hoje celebrando um marco histórico no calendário cristão, repetido há 20 séculos no mundo todo, unindo povos, cores e línguas. É o nascimento de Jesus! O filho do justo carpinteiro José e da jovem e bela Maria.

Seu nascimento trouxe mudanças no mundo! Provavelmente, se Jesus não tivesse nascido, o mundo como conhecemos hoje, com sua cultura e costumes, não seria o mesmo.

A mensagem daquele menino, divulgada desde cedo em Belém, alcançou toda a Palestina:  Jerusalém, Caná, Jericó, Samaria, e até Betânia, um leprosário. Mesmo após a morte de Jesus, a mensagem chegou como luz em Damasco, e posteriormente iluminou a Ásia Menor, Grécia e Roma, estendendo-se para além do judaísmo convertido, alcançando toda a humanidade!

E que mensagem é essa? Em uma simples definição: A mensagem do Amor e da Vida. O cristianismo, nome dado à religião definida, traz um novo sentindo à existência humana e às relações sociais dos homens. É a ‘Boa Nova’ do Cristo Jesus! Sua mensagem expandiu pelo mundo inteiro não por forças políticas ou interesses econômicos. Claro que em algum momento da história pode ter havido interesse, pois tudo que é infinitamente belo, infelizmente, no nosso mundo, remete à lucratividade! Todavia, sua mensagem veio mostrar que vale a pena viver e amar! Vale a pena ser gente! Vale a pena acreditar no amor!

A mensagem do menino Jesus, ou do jovem nazareno ou do velho JC, continua a mesma! E como é interessante ver o Amor e Vida sendo celebrado no Natal em todo tipo de família, tanto as padronizadas (com papai, mamãe e filhinhos), quanto as “modernas” e já normais no século XXI, com vários modos e agrupamentos. Como é interessante ver o Amor e a Vida sendo celebrados em mansões com ceias fartas e presentes caros e ao mesmo tempo em favelas sem ceias e presentes, mas com presença! Como é interessante ver o Natal ser celebrado com Amor e Vida em todos os cantos da Terra, mesmo sabendo que o mundo em que vivemos e desejamos está longe do ideal de Amor e Vida pregado pelo aniversariante do dia!

cristo-redentor-e-sua-sombraMas é neste antagonismo que o menino nasce de novo. O Deus que escolheu ser homem constrange os homens que querem ser reis e os reis que querem ser Deus! Há muita beleza em ser homem, há muita dignidade em ser mulher. Uma pena que no mundo da política, o que importa não é a dignidade da pessoa humana ou o ecossistema do planeta, mas o desenvolvimento, a todo custo, da economia do meu país, independente da destruição da natureza e o que deixo para a posteridade!

Uma pena também que no cristianismo muitos querem ser anjos perfeitos e se esquecem que bom mesmo é ser gente! Como é estranho ver cristãos que destroem humanidades dizendo que a luz que existe dentro deles é fraqueza! Essa é a tática de pessoas cruéis que procuram destruir a bondade, a ternura, a fé nas pessoas em nome da ‘virtude perfeita’. Esqueceram-se que a mensagem do Mestre é o Amor e não há nada de errado em amar!

“Não é função do Cristianismo, antes de qualquer outra coisa, ensinar-nos doutrinas, mas sim como viver a VIDA! (…) doutrinas e práticas religiosas são úteis quando auxiliam minha capacidade de viver com autenticidade”. (Linn, Matthew. Abuso Espiritual & Vício Religioso. Ed. Verus. p. 23). E desconfio que aqui esteja a essência da mensagem daquele jovem que mudou o mundo! Mensagem antiga e tão nova! Por isso é sempre uma Boa Nova, principalmente no Natal, onde os sentimentos e emoções renascem de maneira nova em poemas velhos!

É neste espírito de Natal que desejamos a você uma celebração de Vida Pela Vida! Encha sua vida de novidades… Quem sabe a Vida de Jesus de Nazaré e sua mensagem não sejam uma!

UM FELIZ NATAL A TODOS!

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Um dia fui mergulhado, batizado no amor.

Amor Trindade, comunidade, verdade!

Mistério insondável na dinâmica da vida.

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Só o primogênito poderia chamar o Adonai de Abá.

Porém, a Trindade perfeita resolveu me alcançar.

No mergulho me refez e me convidou ao profundo.

As águas do Espírito geram o coração do Filho que vê o Pai.

Torno-me templo, irmão e outro filho.

Nessa comunhão, agora ouso dizer: Abá Pai: Papaizinho…

(Solenidade da Santíssima Trindade)

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Senhor,

Quero ser grito,

O grito do oprimido, do excluído, dos sem voz!

Quero ser silêncio,

O silêncio do perseguido por causa da justiça e da paz.

Quero ser paz,

No sonho de ver transformada uma Terra

Quero ser guerra,

Num mundo de conformismos, cantar a Libertação.

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Senhor,

Que o TER nunca substitua o SER.

Como seria esquisito um “Ter-Humano”,

Prefiro ser humano!

Senhor… Essa é a minha oração…

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Coração Aberto

misericordia4Não quero mais crer, me escondo do mundo
Você está nas escondidas comigo.
Vou procurando desculpas pra morrer
Na sua morte encontro razões pra viver.

misericordia2Todos me condenam e desistem de mim
Só você não vai embora.
Sou culpado, não há o que contestar
Seu coração permanece aberto.

Posso voltar
Rever minha essência
Sempre em ti
Saberei quem sou eu.

Seu Coração aberto que ensina a ficar descalço.
É quando tiro minhas sandálias,
Que percebo do que sou feito:
Sou solo santo em mentalidade tímida.

filho_prodigo1Não tenho respostas para tantas interrogações,
Você me olha nos olhos e sorri.
Não, é muito difícil, não quero saber mais do amor
Sinto-me encabulado com o seu Amor

Vou aprendendo a viver
Caminhos de misericórdia vão se abrindo
A relação vai se refazendo
Estou voltando, o abraço é inevitável.
Preparo discursos, invento desculpas, olho para o chão
Não queres ouvir palavras, levantas minha cabeça.
Desejas meu coração

Há um amor maior que tudo
Do qual faço parte e sou imagem e semelhança.
E quando também desejo ser bom

Meu coração se assemelha ao seu
Ele está aberto
Já estou amando!

misericordia1

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Passagem

Acho que inventei uma tese: A Páscoa é o Reveillon do Cristianismo. Esta palavrinha que vem do hebraico Pessah e que significa “passagem” tem muito a nos dizer. Já o reveillon é o tempo onde muitos renovam a esperança, fazem inúmeros desejos, adquirem bons propósitos para a vida e criam-se deliciosas quimeras para o mundo.

Sem querer ser cético, mas, se pensarmos bem, dia 1º de janeiro é simplesmente um dia depois do outro. Até concordo com Drummond que disse que Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Confesso que também faço minhas mandingas para que novas realizações aconteçam a cada ano. Sem dúvida é bom recomeçar, porém, não só com propósitos novos, seria bom também recomeçar com uma vida nova!

A Páscoa nos traz essa reflexão, mas, nem sempre lembramos disso. Como um livro velho, antiquado e comido pelas traças, nós esquecemos o sentido real da Páscoa, dando mais atenção aos símbolos do mercado que, em tempo de crise, luta para que o doce não se torne tão amargo e o coelhinho fofinho não vire um bichinho aterrorizante.

Mas pode a Páscoa mudar a vida de alguém? Ela nada mais é do que uma simples festa que se repete todo ano, sempre com as mesmas coisas e ritos? Concordo que a Páscoa é Festa das festas¹ e não simplesmente uma festa entre outras. Você pode até discordar de mim, amigo leitor, mas permita-me mostrar meu ponto de vista.

O período que antecede a Páscoa é um momento forte e privilegiado onde temos a oportunidade de refletir sobre a nossa vida. São 40 dias de quaresma em que, se levados a sério, numa constante busca de renovação e transformação, perceberemos claramente que a Páscoa possui um significado todo especial e diferenciado das demais datas da liturgia e das datas civis.

Pensar sobre nossa vida, atitudes, opções, opiniões, nos fará descobrir muitas coisas boas e coisas más também. A cada descoberta damos um passo em direção dessa grandiosa Festa, tornando-a diferente a cada ano, pois minha vida e concepções estarão mudadas à medida que, sem medo, me permito mudar.

Dessa forma, dependendo de minha condição espiritual, emocional e psicológica no momento, a Páscoa nunca será uma simples festa que se repete todo ano, sempre com as mesmas coisas e ritos, pois os sentimentos vivenciados nos darão uma nova visão e percepção. Nos damos conta também que, como Cristo, precisamos ressuscitar. Primeiramente devemos morrer para as coisas ruins que descobrimos durante todo o percurso reflexivo, que nos impedem de sermos felizes, para então ressuscitarmos para as coisas que realmente nos tornam mais felizes e mais humanos, indo além dos bons propósitos de uma mágica e fugaz festa de Reveillon.

A cada ano a Páscoa terá um brilho diferente, uma surpresa agradável se, sem medo, nos abrirmos para o novo. E o Novo mora em você, mora em mim e em todos nós. Só precisamos rolar a pedra que nos impede de sair e de ver o Sol e o seu brilho escondido em cada pessoa; de sentir o cheiro das flores e de um gostoso bolo de fubá da vovó; de ouvir os cantos dos pássaros, cachoeiras e de uma boa e velha música; de tocar em toda criação divina e humana também, para assim declaramos bem alto que existe uma Vida Nova.

A passagem, portanto, acontece neste momento. Em poucas palavras, passamos da morte à vida. Se de repente você se deu conta que não aproveitou nada da quaresma para refletir sobre sua vida, não percebeu que precisava mudar certas atitudes, morrer para certos vícios e ressuscitar para alguns valores, não temas! Experimente fazer essa passagem no dia de hoje. Não tenha medo… Coragem!

Sisifo

Garanto que os chocolates e os ovos de páscoa terão um sabor diferenciado neste domingo, não porque o chocolate seja de uma outra marca, mas porque você estará diferente, isso se você se permitir. Pois lembre-se, a decisão de rolar a pedra continua sendo sua!

Nós do “vivopelavida” desejamos a todos os amigos e amigas

UMA FELIZ PÁSCOA, UMA FELIZ PASSAGEM!

Forte abraço,

Pedro Jr.

¹ C.I.C., parágrafo 1169

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duvida2

Decisão nem sempre é uma coisa tão simples. Requer coragem! É comum sentirmo-nos angustiados com receio de estar tomando o caminho errado. Mas o pior é quando não tomamos caminho nenhum e permanecemos imóveis e estáticos por causa do medo e do descaso.

Lembro-me das palavras do mestre de Nazaré que disse mais ou menos assim: se o grão de trigo caído na terra não morrer, ele continua sendo um grão de trigo, e nada mais. O fim é nele mesmo! Ele pode até assegurar sua existência, mas sua finalidade será limitada! Contudo, se o grão de trigo morre, ele produz muito fruto.

Soaria estranha essa aparente contradição se não soubéssemos o sentido real do grão e da semente, que é a morte. Quem nunca plantou um feijãozinho no algodão na escola e observou curioso, a cada dia, o grão perdendo sua forma – morrendo – e se transformando numa plantinha de feijão. O estranho é ouvir essa referência como analogia à vida humana. Morrer para se ter a vida e para produzir fruto realmente gera certo desconforto na gente.

Se a vida é resultado das decisões tomadas durante minha história, sei que os sofrimentos e as alegrias surgidas durante o percurso são resultado de uma opção que eu fiz! Se eu for convicto das decisões tomadas, os sofrimentos e alegrias terão um sabor diferenciado porque terão um sentido maior. Todavia, se eu deixo que a vida decida por mim, os sofrimentos futuros, que são normais à todos, serão mais difíceis de serem encarados e a alegrias serão fugazes.

Então, se eu não decido o que devo fazer da minha vida, será ela quem decidirá por mim. Quando existe uma decisão, o sacrifício do grão de trigo (ou do feijãozinho) é celebrado, vigiado e esperado. Mas quando a vida é quem decide, eu fujo da responsabilidade de morrer e de dar frutos e deste modo significarei pouco: Pouco pra mim e pouco para os outros.

Não estou dizendo que devemos ter de antemão a certeza nas nossas decisões para não nos arrependermos depois. Certeza é o tempo quem dará. Estou, a priori, refletindo sobre as decisões que devem ser tomadas com lucidez, compromisso e responsabilidade. Nas encruzilhadas não temos certeza de qual caminho a tomar, temos somente a convicção de que estamos dando um rumo novo, e escolhemos, mesmo com os riscos e desafios dessa decisão, sofrendo a dialética existencial da vida humana. Feliz aquele que sabe decidir e que ao contrário da música não “deixa a vida me levar”.

Uma boa dica seja talvez ouvir a voz do coração… Deus aí está! Nas encruzilhadas, ele pode ser um sinal, não para um caminho mais fácil e nem para o mais difícil, mas, quem sabe, para o caminho que me fará ser mais eu mesmo.

Mas não se iluda a decisão ainda continua sendo sua!

“Agora sinto-me angustiado. O que direi? Pai, livra-me dessa hora?? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Então, Pai, glorifica o seu nome.”

(Jo 12, 20-33)

Pedro Junior

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Vida

Era um jovem de mais ou menos 18 anos que só tinha vontade de uma coisa: morrer. As coisas simples como sorrir, abraçar um amigo, olhar nos olhos, bater um papo, sonhar, não faziam parte da sua pessoalidade. Sorria somente com a desgraça dos outros; abraçava para tirar proveito; olhos nos olhos, jamais; trocar uma idéia com alguém era risco de perder sua moral. Sonhar? Preferia ficar acordado, bem acordado.

Um viciado sabe que para permanecer vivo tem que se vestir de uma armadura pesada todos os dias. No mundo do tráfico é ainda pior. A sensação é que até a sua respiração é vigiada, principalmente se está sob o efeito das drogas. Para ele cada despertar era um convite à guerra, onde o campo de batalha era sua mente. “Não existe paz interior, o desespero é constante, não pára!”, reclamou ele um dia. A armadura pesada servia para esconder o homem frágil que se refugiava ali dentro e o efeito das drogas servia para amenizar a angústia que nunca ia embora.

Ele conta que dos 13 aos 17 anos usava maconha para abrir a cabeça, viajar, rir do nada. A cocaína trazia a sensação de bem estar, de “tudo posso”, de poder. Sensações bem diferentes das que sentia depois, aos 18 anos. Neste tempo dizia que sua “onda” durava uns 5 a 10 minutos e que depois disso o medo o invadia subitamente. Para recuperar aquele tempo ínfimo de prazer, dava outra “bola” ou outro “teco” e assim repetidamente. Emagreceu 9 quilos: de 68 foi para 59. A cada dia sua fisionomia era deprimente.

Certo dia recebeu um convite para um encontro. Meio ressabiado ele foi e nunca mais voltou. Não, aquele jovem sem esperança nunca mais voltou! O que eu vi voltar foi uma criatura nova. Nesse encontro sentira algo parecido com saudade, um sentimento nunca vivido anteriormente, uma paz e um amor muito além de sua força e compreensão. As tentativas de suicídio, o desespero, a depressão, por um instante desapareceram… Parecia mágica! Deu um abraço e um beijo na sua mãe assim que chegou em casa. Um abraço gostoso de perdão que fez rolar aquelas lágrimas quentes sobre o rosto dos dois, fazendo renascer a esperança numa família destruída pelas drogas.

A partir daquele dia iniciou uma luta pela vida. As armaduras agora eram outras e o homem ali presente passou a ser grande em dignidade, porém, condicionado à força maior que é Deus. A decisão de ser limpo era do rapaz, não havia mágica (aliás, nunca houve). Houve, sim, um “encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” *.

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Foi um resgate de vida, em que, no início, Deus fez 99% e o jovem, dizendo seu sim, fez seu 1%. Só que depois, a cada dia, as coisas iriam se igualando: 98% para Deus e 2% para o jovem; 97% para Deus e 3% para o jovem e assim progressivamente até um dia ficar 50 a 50. Acredito nessa pedagogia da vida humana em Deus. Ele não quer marionetes em suas mãos. Deus não controla a vida de ninguém e nem resolve os problemas de ninguém – apesar dele ter suas surpresas. Mas creio que Deus concede a força, a paz interior, o impulso, as pistas, as inspirações e em contrapartida a colaboração do homem traz o pleno conhecimento de “ser pessoa”. A decisão continua sendo do homem, mediante a resposta que ele dá ao chamado que Deus lhe faz todos os dias. Um chamado à vida eterna, experimentada e saboreada aqui na Terra.

Não foi fácil para aquele rapaz livrar-se do vício e enfrentar a discriminação e as desconfianças da sociedade. Certa vez ele correu para o banheiro da escola e começou a comer folha de caderno para não fumar de novo. Teve que recuperar o tempo perdido na escola, voltou a estudar e começou a participar ativamente do grupo jovem da cidade, o mesmo que havia organizado o encontro. Fascinado com a Bíblia, pensou em um dia ser pregador. Alguns meses depois fez sua primeira pregação e contou sua história de vida. Logo estava pregando em todo canto da cidade, trazendo consigo muitos jovens.

Tudo estava indo de vento em popa até que o empolgado rapaz começou a ficar dependente da religião. Vivia um vício religioso e um fanatismo que o cegou e o fez refém de tabus e medos que retardaram sua consciência de jovem por muito tempo. Por conta do passado com as drogas, a radicalidade foi de início uma opção preferível. O problema é que ele parou naquele estágio espiritual deixando que a Lei fosse sua guia, anulando a liberdade que Deus lhe dava – que na sua cabeça era confundida com libertinagem. Vivia numa dimensão “céu – inferno” vinte e quatro horas por dia. Quando rezava, era somente para buscar a unção para pregar com poder, ou para testemunhar o Deus que ele passou a forjar na sua cabeça, ou então para não ir para o inferno numa luta frenética e sem inteligência contra pecados que achava que eram tão absurdos.

Muitos questionamentos, então, começaram a perturbá-lo a respeito da fé, da vida, da justiça social, da Igreja e do próprio Deus. Teve diversas oportunidades de voltar para o vício das drogas. Mas Deus o segurou! Mas mesmo assim o jovem pregador “chutou o balde”. Só que, se afastando um pouco, ele pôde analisar melhor toda a obra de arte da sua vida e pôde ver um novo tempo de descobertas: um novo chamado de Deus estava iniciando.

Descobriu que é possível sim ter amigos de fé mesmo que não sejam da Igreja. Buscou enxergar em outras filosofias e literaturas – outrora tão rechaçadas por ele – rastros de Deus e de vida. Percebeu que ler autores seculares, como José Saramago, Dostoievski, Enrique Dussel, Karl Marx (e alguns de seus seguidores), Mário Quintana, Adélia Prado, Machado de Assis, Lispector e outros não trazem perigo de perda de fé. Redescobriu a beleza nas letras de Renato Russo; a identidade escondida no samba de raiz e na música caipira; a irreverência poética de Cazuza e Cássia Eller; o progressismo e o misticismo de Pink Floyd e d’O Rappa e até mesmo na incoerência poética de Raul Seixas.

Descobriu dentro da Igreja a riqueza de outros movimentos e pastorais na maneira de viver a fé; e leu autores como Leonardo Boff, Frei Betto, Rubem Alves, entre outros – e se deixou tocar pela profundidade musical e literal de Pe. Zezinho e André Luna; a força libertadora na música de Zé Vicente; o equilíbrio espiritual de Pe. Joãozinho e Pe. Fábio de Melo (este hoje mais conhecido pela mídia).

E hoje, dia 21 de março de 2009, faz 10 anos que essa história de vida teve início. Uma história que não é melhor nem pior que a de ninguém. É a história de mais um fruto da misericórdia de Deus que com o tempo descobriu que religião e liberdade são mais bem vividas por pessoas que crêem, mas querem saber. E segue equilibrando sua porcentagem de humanidade com a porcentagem divina do Eterno.

O que eu sei é que esse jovem, dez anos mais velho, só tem vontade de uma coisa: VIVER!

Celebremos a vida, vibremos com essa vitória, rezemos por ele!

Pedro Junior

“só há uma chance pra viver”…

* Citação: Documento de Aparecida, § 12.

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propiciatorio

Estudando um pouco sobre a cultura e a religião judaica descobri, dentre outras coisas, um objeto interessante usado nas celebrações do Templo. É um instrumento parecido com uma bacia, usado nos rituais de sacrifício com a finalidade de conservar o sangue dos animais ofertados pelo povo que eram imolados pelos sumo-sacerdotes. Esse sangue era depois aspergido sobre os fieis como sinal de purificação do homem e expiação dos pecados.

Esse material “litúrgico” dos judeus era chamado de Propiciatório, que vem de propiciar, estar propício, favorável. Ou seja, a “bacia” estava ali para servir, para ser solícita; na prática, para guardar o sangue que era a “salvação” de muitas pessoas que sofriam diversos males. Essa era a crença daquele povo que buscava o conforto para suas almas fatigadas, suas mentes perturbadas e seus corpos oprimidos. Sintomas não muito diferentes dos de hoje – psicólogos e religiosos que o digam…

Não é verdade que o ser humano está em constante busca de um sentido pra vida? Buscamos e às vezes achamos… Seja na religião, nas filosofias, nas ideologias, nas magias ou qualquer outra manifestação. O importante é o encontro da integração do corpo, da mente, com o espírito. Daí então oferecemos em sacrifício o carneirinho ou boizinho – comprado com desconto com alguns cambistas do “Templo” (Jo 2, 14) – para recebermos em troca a tão desejada felicidade. Mas o que há de errado nisso?! Vou ser direto: Poucos, bem poucos, querem propiciar a alegria dos outros. Esquecem que isso é um dos maiores deveres de ser feliz. O propiciatório dos judeus, aos olhos de um leigo, não tinha validade. O sangue dos animais poderia ser derramado em qualquer tigela ou vaso porque, o atraente mesmo, era o rubro líquido salvívico que trazia o alívio.

O perigo na busca da felicidade pode ocorrer na concepção que temos dela. Talvez, na ânsia de possuí-la e de abrandar depressa nossos sofrimentos, damos espaço para um vírus microscópico, típico do homem moderno chamado egoísmo. O mercado do mundo fácil das religiões e as quimeras das ideologias (que se dizem desalienantes das classes) fazem o homem refém de ciclos viciantes de ilusão.

Muitos querem a paz, a revolução, a fama, o dinheiro, o conforto, a alegria, as soluções a qualquer preço. Ingressam num clube ou numa igreja e logo saem se essas não lhes garantir mais a prosperidade que queriam. E assim continuam vagando à procura de um jeito mais fácil de viver. Almejamos a salvação, mas não queremos ser o propiciatório da salvação.

Ser um propiciatório é ser um servidor. As luzes do mundo nem sempre apontam para o servente. Mas qual a verdadeira luz que precisa iluminar o nosso mundo? Deve ser por isso que o saudoso João Paulo II disse numa oração: “Francisco, o mundo tem saudades de ti”. O pobre de Assis, assim como tantos outros protagonistas da verdadeira alegria, descobriu que é dando que se recebe – mesmo que seja uma punhalada pelas costas – mas é também morrendo (para si mesmo) que ganhamos a vida eterna.

Como disse E. J. Hardy, citado outro dia neste site: “A felicidade se faz, não se acha”. Então, vamu que vamu!

Pedro Barbosa Lima Junior

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Hoje é domingo… dia de pensarmos um pouco mais sobre as heranças cristãs que todos nós carregamos, com  o  nosso amigo Pedro Barbosa. É com você, Pedrão!…

Bebê rezando

Lembro-me quando criança desse tempo de quaresma e das procissões da semana santa numa outra cidade de Minas em que morei.

Era sempre assim: quarta-feira de cinzas toda família ia à Missa receber as cinzas. Eu não gostava de ficar com a testa marcada de cinza, parecia um bobo. Mas era engraçado ver os adultos se entreolhando para ver a marca que o padre deixou na testa do vizinho. Já sabia que, daquela data em diante, durante 40 dias, eu ficaria sem comer carne em casa. O Sr. Durval, dono do açougue do bairro, ficava com raiva e sempre resmungava com quem passasse na rua, pois, sendo ele Testemunha de Jeová e açougueiro, achava toda aquela abstinência de carne um desperdício espiritual (e financeiro).

A capelinha do bairro ficava feia, sem vida, desolada e triste. As imagens bonitas do Sagrado Coração de Jesus e de São Francisco de Assis ficavam cobertas por panos roxos desbotados. No presbitério não havia flores nem anjos, nas missas omitia-se os momentos festivos, não se cantava o louvor, o “Glória”, e era proibido cantar músicas que tinham a palavra “Aleluia” na letra. Como componente do Coral da Igreja eu achava tudo aquilo estranho, mas, chato mesmo, era ensaiar às pressas as músicas da Campanha da Fraternidade e perceber que na verdade só estaríamos bem afinados quando a Quaresma já estivesse findando.

Flor no DesertoTempo quaresmal é um tempo de deserto, recordando os 40 dias que Jesus permaneceu no deserto passando provações e fome e que, depois de lá, saiu para anunciar a Boa Nova do amor de Deus!

Eu acho que para os adultos essa percepção de deserto nas Igrejas é mais difícil de entender. As crianças podem até não entender de Teologia e Liturgia, mas elas notam com mais facilidade que esse é um tempo de transição, mudança e conversão. Percebe que algo está acontecendo. Afinal de contas, aquilo tudo tem que ter um sentido!

Minha educação religiosa conservou durante tempos essa noção de que algo precisa mudar em mim no tempo da Quaresma. Porém, vou descobrindo com o tempo que uma nova oportunidade de mudar e de encarar a vida surge a cada novo olhar para a essa mesma vida. Ninguém vai descobri-la por mim, ninguém pode viver os desertos que essa vida reserva pra mim; os perigos, as tentações, as desolações, as tristezas, os medos… Sou eu mesmo que terei que vivenciá-los.

Viver a vida é ter sempre a surpresa de que, muitas vezes, as mudanças, as revelações, as novidades e as respostas que queríamos surgem – assim como acontece nas histórias da Bíblia – nos desertos. É engraçado que toda vez que saímos de um deserto, é como se nascesse uma flor no meio da rua de asfalto. Já disse Drummond: É feia. Mas é uma flor!”.

Acho que nem precisaríamos de tempo de Quaresma (pelo menos daquela forma), apesar de achar que esta seja oportuna na educação do fortalecimento do espírito e nas vitórias das fraquezas da carne. Mas é que hoje, um pouco mais velho, prefiro o deserto da liturgia quaresmal com a percepção poética de quando era uma criança, para assim perceber que esse misto de quaresma e solenidade, de privação e festa, é a Vida nela mesma!

Pedro Barbosa Lima Júnior

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