Dia desses, estava conversando pela rua com um novo amigo, que acabou de se mudar cá para Juiz de Fora. Estávamos falando sobre a cidade, quando ele comentou:
_ Outra coisa boa daqui é que a polícia de Minas é educada, trata a gente com respeito…
Ele estava vindo de uma cidade de outro Estado.
_ Lá era horrível, policial não respeitava mesmo. Nem pedia documento, já vinha tudo mal-encarado, tapinha na cara, mandava deitar no chão… Me abordavam sempre, eu tinha que andar fugindo de polícia, não gostava de ficar onde tinha policial por perto.
Olhei para ele. Não era, definitivamente, um sujeito mal-encarado, suspeito, mal-vestido. Pelo contrário, é uma pessoa simpática, alegre, passa uma boa impressão. Pelo pouco que o conhecia, via que não era de se meter em encrenca, andar com gente estranha; nem ao menos bebia. Ora, por mais imbecil que um policial seja, ele não sai revistando qualquer um na rua, tem que haver um motivo qualquer, por mais besta que seja, que o leve a suspeitar de alguém. Mas bastou um pouco mais de conversa para que a minha suspeita se confirmasse…
Era a pele. Meu amigo tem a pele morena, tem traços negros. “Motivo” mais que suficiente.
Embrulha o estômago imaginar que esse tipo de coisa acontece. Pior – imaginar que, infelizmente, não é um caso nada raro. Além de ser uma injúria sem tamanho, um crime, é uma atitude simplesmente burra. Pare pra imaginar quantos policiais, financiados pelos nossos suados impostos, estão neste exato momento “dando uma dura em cima de um nêgo” enquanto os verdadeiros marginais, de qualquer cor e classe, ainda circulam por aí. Aqui em Minas, no Rio, no Acre…
O fato é que a conversa me intrigou, e me fez ficar filosofando sobre as origens do preconceito. Como será que esse tipo de pensamento surge na cabeça de uma pessoa? O que o causa?…
Pois hoje acordei com a campainha tocando. Minha irmã atendeu, e me chamou.
_ Bom dia, senhor… Desculpe incomodar, eu moro aqui na redondeza…
O mesmo papo de sempre, pensei. Ontem mesmo fiquei um pouco chateado com um rapaz que nos abordou na rua, enquanto andava com minhas irmãs e minha cunhada, pedindo uns trocados. Não gostei da forma como insistia, e sobretudo como olhava para as meninas. O tipo de situação que nos força a ser um pouco mais ríspidos, algo do qual realmente não gosto.
Mas o homem de hoje continuava:
_ …é que eu tenho uma entrevista de emprego hoje, e estou passando nas casas pra ver se consigo um prestobarba usado, ou qualquer coisa…
_ Só um instante – eu disse da janela, enquanto pegava uma cartela com dois aparelhinhos novos e descia pra entregar. Mas fui ainda um pouco ressabiado, pensando que ao entregá-los ele pudesse pedir um também algum dinheiro, naquele estilo “dá a mão, quer o pé”. E qual não foi a minha surpresa pelo seu contentamento:
_ Mas são novos!
_ Sim.
_ Puxa, obrigado! Obrigado mesmo!!
E se foi.
E agora, relembrando uma gratidão tão sincera por algo tão simples, que me custa tão pouco, eu fico me perguntando porque raios não lhe dei também um sabonete, um pincel de barbear, ou algo que servisse como espelho. Acho que são os pequenos preconceitos do dia a dia, que infelizmente nos deixam tão “armados” nas situações, tão preparados para desconfiar das pessoas, evitando até perguntar se precisam de mais alguma coisa… Poderia ao menos ter-lhe desejado uma boa entrevista, e um “que Deus lhe abençoe”, além do meu tímido “de nada”…
Fico aqui me cobrando… Mas, ao mesmo tempo, agradeço a Deus por ter me dado essa pequena oportunidade de ajudar alguém com tão pouco, com meus prestobarba e meu simples sorriso. E rezo para que aquele homem tenha tudo o que merece na vida, enquanto eu vou aprendendo mais um pouquinho, a cada dia, a lidar com meus preconceitos, lembrando que as pessoas são diferentes. Como o rapaz de ontem e o de hoje. Como meu amigo e um marginal.
Como eu e você.
Dia desses, estava conversando na rua com um novo amigo, que acabou de se mudar cá para JF. Estávamos falando sobre a cidade, quando ele comentou:
_ Outra coisa boa daqui é que a política de Minas é educada, trata a gente com respeito…
Ele estava vindo de uma cidade de outro estado.
_ Lá era horrível, policial não respeitava mesmo. Nem pedia documento, já vinha tudo mal-encarado, tapinha na cara, mandava deitar no chão… Me abordavam sempre, eu tinha que andar fugindo de polícia, não gostava de ficar onde tinha policial por perto.
Olhei para ele. Não era, definitivamente, um sujeito mal-encarado, suspeito, mal-vestido. Pelo contrário, é uma pessoa simpática, alegre, passa uma boa impressão. Pelo pouco que o conhecia, via que não era de se meter em encrenca, andar com gente estranha; nem ao menos bebia. Ora, por mais imbecil que um policial seja, ele não sai revistando qualquer um na rua, tem que haver um motivo qualquer, por mais besta que seja, que o leve a suspeitar de alguém. Mas bastou um pouco mais de conversa para que a minha suspeita se confirmasse…
Era a pele. Meu amigo tem a pele morena, tem traços negros. “Motivo” mais que suficiente.
Embrulha o estômago imaginar que esse tipo de coisa acontece. Pior – imaginar que, infelizmente, não é um caso nada raro. Além de ser uma injúria sem tamanho, um crime, é uma atitude simplesmente burra. Pare pra imaginar quantos policiais, financiados pelos nossos suados impostos, estão neste exato momento “dando uma dura em cima de um nêgo” enquanto os verdadeiros marginais, de qualquer cor e classe, ainda circulam por aí. No Rio, aqui em Minas, no Acre…
O fato é que a conversa me intrigou, e me fez ficar filosofando sobre as origens do preconceito. Como será que esse tipo de pensamento surge na cabeça de uma pessoa? O que o causa?…
Pois hoje acordei com a campainha tocando. Minha irmã atendeu, e me chamou.
_ Bom dia, senhor… Desculpe incomodar, eu moro aqui na redondeza…
O mesmo papo de sempre, pensei. Ontem mesmo fiquei um pouco chateado com um rapaz que nos abordou na rua, enquanto andava com minhas irmãs e minha cunhada, pedindo uns trocados. Não gostei da forma como insistia, e sobretudo como olhava para as meninas. O tipo de situação que nos força a ser um pouco mais ríspidos, algo do qual realmente não gosto.
Mas o homem de hoje continuava:
_ …é que eu tenho uma entrevista de emprego, e estou passando nas casas pra ver se consigo um prestobarba usado, ou qualquer coisa…
_ Só um instante – eu disse da janela, enquanto pegava uma cartela com dois aparelhinhos novos e descia pra entregar. Mas fui ainda um pouco ressabiado, pensando que ao entregá-los ele pudesse pedir um também algum dinheiro, naquele estilo “dá a mão, quer o pé”. E qual não foi a minha surpresa pelo seu contentamento:
_ Mas tão novos!
_ Sim.
_ Puxa, obrigado! Obrigado mesmo!!
E se foi.
E agora, relembrando uma gratidão tão sincera por algo tão simples, que me custa tão pouco, eu fico me perguntando porque raios não lhe dei também um sabonete, um pincel de barbear, algo que servisse como espelho. Acho que são os pequenos preconceitos do dia a dia, que infelizmente nos deixam tão “armados” nas situações, tão preparados para desconfiar das pessoas, evitando até perguntar se precisam de mais alguma coisa. Poderia ao menos ter-lhe desejado uma boa entrevista, e um “que Deus lhe abençoe”, além do meu tímido “de nada”…
Fico aqui me cobrando… Mas, ao mesmo tempo, agradeço a Deus por ter me dado essa pequena oportunidade de ajudar alguém com tão pouco, com meus prestobarba e meu simples sorriso. E rezo para que aquele homem tenha tudo o que merece na vida, enquanto eu vou aprendendo mais um pouquinho, a cada dia, a lidar com meus preconceitos, lembrando que as pessoas são diferentes. Como o rapaz de ontem e o de hoje. Como meu amigo e um marginal. Como eu e você.


Comentários