Zilda Arns e seu Deus

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Hoje está sendo um dia triste pra mim. Me lembro de poucas notícias de morte, dentre pessoas que não conhecia pessoalmente, que me deixaram assim. Morreu Zilda Arns, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança. Uma pessoa que fez muita coisa pela vida. E nos ensinou a viver.

Poderia aqui fazer uma bela homenagem, comentar sobre a tragicidade de sua morte junto aos militares, numa missão que buscava levar um pouco de paz a um lugar já tão massacrado como o Haiti – sem falar na própria tragédia de um terremoto tão grande para um povo que imaginávamos não poder sofrer mais do que já sofre. Mas creio que ao mistério da morte já basta o aperto no peito ao ver tantas homenagens pelos meios de comunicação afora, do Twitter a várias igrejas espalhadas pelo país. À morte, em si, não cabe sentido. Cabe o sentir.

Falemos, pois, de sua vida. Eu, particularmente, me emocionei ao ver o quanto era uma pessoa amada e conhecida, o quanto tanta gente de tantos credos – e tantos sem-credos – se comoviam de verdade com sua história. Não sabia que era tão conhecida, achava que eram poucos os que, como eu, gostavam de lembrar seu exemplo em inúmeras situações em que me diziam: “não tem jeito”. Os números são impressionantes: a Pastoral da Criança chega a reduzir pela metade a mortalidade infantil nos locais em que atua, a um custo de menos de R$1,00 por mês por criança. Zilda não fez tudo sozinha, mas fez mais que isso: soube levar centenas de milhares de pessoas a lutarem pela vida, levando-a a milhões de outras pessoas.

zilda arnsQual o seu segredo? Talvez soe simplório dizer que foi sua fé. Mas não há outra forma de dizer: Zilda, e tantos e tantos outros voluntários que realmente fazem a diferença por onde passam, o fazem por fé. Fé na vida, fé em algo melhor, fé que o mundo pode ser mudado – senão o mundo todo, ao menos o “mundo” de uma criança. Esse é o Deus de Zilda: um Deus que não acha que o Amor universal é algo demasiadamente abstrato, bonito em palavras mas longe da realidade. Um Deus que é o Amor em si, e nos dá força para amarmos também.

Talvez ainda tenhamos que esperar muito pelo dia (se é que ele vai chegar) em que o Estado faça realmente o que lhe pagamos para fazer, trabalhando com o devido respeito e dedicação por todos, sem por a culpa na falta de recursos (que, cá pra nós, são bem maiores que R$1,00 por pessoa) ou no que quer que seja. Talvez um dia todos consigamos fazer do nosso sustento uma forma de ser sustento para quem está ao nosso lado; façamos o que deve ser feito. Mas, enquanto isso, aprendamos com quem faz sem ter a obrigação de fazer. Aprendamos a amar!

Bela reportagem de 2000 que mostra o trabalho da Pastoral da Criança e sua luta pela conscientização nas eleições: “Educação é mais importante que cesta básica.”

Gostou? Veja também:

  1. Zilda Arns: “O aborto é um retrocesso à Saúde Pública”
  2. Pensamento do Dia
  3. VPV de Luto

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  1. Karina’s avatar

    Quando eu estava na 6ª série, o Salesiano recebeu a visita do pessoal da Pastoral. Não teve quem não se emocionasse, ainda mais com a história do garoto de 17 anos, deficiente, que, quando elas começaram a atender, era pesado numa balança de bebê! E elas resgataram o menino da desnutrição.

    “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”… Zilda Arns e as voluntárias da pastoral entenderam essa mensagem. Pena que tenha gente que acha que a “abundância” é pré-estabelecida e segue padrões rígidos, cabendo a nós apenas matar, ops, “evitar o sofrimento” dessas pessoas.

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