Em meio a tantas notícias, mal percebemos que ela chegou.
E todo ano é assim, ela vem e vai, deixando sempre uma alegre certeza de que a vida continua. Ela chega com suas cores, formas e perfumes que parecem ter sido feitos só para tirar essa sobriedade-pastel que, de vez em quando, veste o mundo.
Apareceu hoje aqui em casa, não tocou a campainha, não fez barulho, mas eu sabia que era ela.
Ela veio como quem não quer nada, pedindo somente uma nesga na janela. Mentirosa… Ela quer mais de mim, no fundo eu sei o que ela pede… Ela quer fé.
Fé, porque é difícil acreditar com tanta neblina, chuva e mil e uma loucuras que só podem ser descritas por aqueles que vivem sob as rédeas desse clima esquizofrênico que diz se chamar “tropical de altitude”.
Ela quer que eu acredite. Afinal de contas, vejamos ou não, ela está aqui, e veio me dizer docemente: Há uma primavera em cada Vida.
Quanto me falta para ser poeta, falta ver que as flores são poemas declamados em silêncio. É isso que ela veio me ensinar, e virá por mais não sei quantos anos, até que eu também possa dizer que aprendi com as primaveras a me deixar cortar para poder voltar inteiro.
Bem-Vinda Primavera.
(Com um agradecimento especial à Cecília Meireles, Florbela Espanca e Vanessa Marques)



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