solidaomomentos na vida em que parece não nos restar mais nada.
Mesmo que ainda haja algo a se apegar – e sempre há – esses apegos parecem não surtir o mesmo efeito de antes, não ter a mesma graça, o mesmo sabor. Nada mais é como era, e parece só nos restar uma pergunta: “E agora, José?”

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?

Buscamos segurança, amor, admiração… e tantas vezes conseguimos, nos vemos artistas, poetas, humoristas, transformadores do mundo… mas sem base pra sustentar as próprias pernas.

Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Pois há momentos em que a muleta cai. Crenças, prazeres, fugas, vícios… Nada mais funciona. Não há mais fantasia, não há mais Pasárgada, Éden ou Pirlimpimpim. Só a realidade.

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

luz_camimhoE agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Nunca tentamos de tudo, mas há momentos em que tudo o que tentamos parece ser, realmente, tudo. E tudo já era.

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Por um instante tudo perde a cor, não sentimos, não agimos… não vivemos.

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

“Viver é foda, morrer é difícil”, dizia alguém. Mas ninguém quer a morte, queremos é viver de verdade, gritar, gemer, dançar até morrer de cansaço! Mas viramos pedra…

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia, sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Não dá pra continuar. Não dá mais pra marchar sem rumo. Não dá pra ser mais um José.

alone
(continua…)


Referências:
José (Carlos Drumond de Andrade)
Vamos fazer um filme (Renato Russo)
O que é, o que é? (Gonzaguinha)

Gostou? Veja também:

  1. Uma semana “Vivendo pela Vida” (e agora também no Orkut)!
  2. José e o Monte
  3. Pensamento do Dia

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2 comentários, Clique aqui para comentar!

Feed dos comentários

  1. André Luiz’s avatar

    Parabéns Gabriel, por esta realista demonstração do ser que ao “encontrar” o verdadeiro caminho da paz interior, também encontra um vazio deixado pelo passado sofrido e incompreendido. Então este ser encontrado deve encontrar forças no “além” dele mesmo e se reencontrar com novos valores que irão direcioná-lo para um caminho no mínimo diferente, mais próximo de uma realidade de amor, afeto, esperança, mudança, coerência e sabedoria em lidar com a própria vida e no tratamento com seu o semelhante e a sua natureza humana.

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    1. Gabriel Resgala’s avatar

      Obrigado André! É gostoso quando alguém encontra sentido no que fazemos… Muito bom mesmo!

      Grande abraço!

      Responder