Rosa de Saron

Há alguns anos, estava eu no carro de uma amiga, quando reparo uma música romântica tocando no CD-player. Apenas uma canção de amor… “É Ana Carolina?” Perguntei. “Não, é Rosa de Saron. É católico!” Só então me toquei que quem estava cantando era um homem, e não a famosa cantora de voz grave. Sempre admirei a voz da Ana Carolina, não só pelo timbre e pelos efeitos que ela faz, mas sobretudo pela energia que passa quando canta. Às vezes me ocorria como seria se ela ou outros grandes artistas usassem o seu talento para passar uma mensagem legal, que coadunasse com o que eu acredito. Não que não existam boas mensagens na música de hoje, há até muita gente sincera por aí, que canta o que acredita, mas sentia falta de algo mais profundo, que além de uma boa música conseguisse passar uma coisa bem cara nos dias de hoje: esperança. Uma boa mensagem numa bela voz, mas que fosse acessível a todos, não ficasse só restrito a algumas “alas” como Milton, por exemplo . Profundo, bonito e popular. Por que não?

Rosa de Saron - Depois do InvernoPois, enquanto ouvia aquelas músicas no carro da minha amiga, senti de cara que estava diante de algo diferente. Um rock bem feito, com uma voz que passava uma emoção sincera. Não ouvi muito, mas foi o suficiente para um mês depois, num encontro em Maringá, dar um tiro no escuro (no crepúsculo, talvez) e comprar um CD com um menininho triste e azul na capa. “Depois do Inverno” era o nome, e nem a arte nem as letras – e nem mesmo a sonoridade – lembravam qualquer coisa “de Igreja” que eu já tivesse ouvido. Estava eu justamente numa fase bem rockeira, mas buscando algo mais nas músicas que ouvia. E a voz daquele garoto, embora à primeira vista pudesse lembrar outras conhecidas do meio musical, era diferente. Não vinha simplesmente da garganta, tinha algo mais profundo ali. Vinha realmente do peito.

Virei fã, e contagiei muitos à minha volta, que após o estranhamento inicial (“Rosas de Sharon”? O que é isso?) logo passaram a admirar e se envolver também com aquelas músicas que não falavam só de améns e aleluias, mas de dualismos e sorrisos em meio a lágrimas…

Depois fui em alguns shows, e de forma gradual acompanhei o crescimento deles, o conhecimento, o reconhecimento – e o inevitável “histerecimento” de parte do público. No começo de 2006, num festival em BH, vi Rogério, o baixista, ser quase esmagado por uma legião de adolescentes em busca de sua assinatura num CD ou num papelzinho qualquer. Fiquei pasmo com a imagem. O segurança demorou uns 15 minutos para conseguir chegar onde ele estava e tirá-lo de lá, correndo. “Imagina se fosse o Guilherme, o vocalista?”, pensei. Naquela época ele já era motivo de berros tresloucados das meninas toda vez que subia ao palco, e mesmo assim todos eles faziam questão absoluta de estarem sempre disponíveis ao público depois dos shows, ter contato o mais próximo possível. Aquilo sempre me chamou muito a atenção.

DVD Rosa de SaronPor um período não fui um “fã” assim tão afoito, embora continuasse acompanhando e admirando o trabalho tanto quanto antes. A forma como falavam da vida, da eterna procura por Deus, aquele jeito missionário e simples de ser “artista”, chamavam mais atenção que o rock em si. Pois, em junho de 2008, estava passando por um momento complicado, término de namoro, desapontamentos com meus trabalhos na Igreja, mil inquietações quanto à carreira, ao futuro… O aguardado DVD “Acústico e ao Vivo” do Rosa acabara de ser lançado; um dia então saí do mestrado e fui decidido procurá-lo nas ruas da cidade; achei-o quase na hora da loja fechar. Tinha acabado de chegar, estava me esperando ainda dentro da caixa, ninguém ainda havia comprado naquela loja. Talvez na cidade inteira. Cheguei em casa afoito, apaguei a luz e assisti tudo de um fôlego só, sentado em almofadas no chão do quarto com o notebook no colo, o som na maior altura a me envolver. Me senti novamente um adolescente, emocionando-me com o cenário, com as filmagens, com cada música. Era uma verdadeira obra de arte, o melhor acústico que já tinha visto desde que descobri o gênero, com aquele CD sensacional dos Titãs em 1997… Mas o que mais me tocou no DVD do Rosa foi ver o depoimento da banda, contando da trajetória para chegar ali, a luta que foi conseguir realizar aquilo tudo. Me veio à mente tanta coisa, tanto trabalho, tantas pequenas “missões” que já encarei na vida, no fundo tão parecidas com aquela obra maravilhosa que eles tinham conseguido realizar, de forma tão inédita na música católica e talvez brasileira… Rock, Fé e PoesiaPouco tempo depois, ao ler, também de um só fôlego, o livro que conta a história da banda, pude constatar mais detalhes desse longo caminho que, na verdade, teve início há 20 anos atrás com a fundação do grupo, ainda algo inocente feito para tocar em grupos de oração. Com certeza naquela época eles já tinham um diferencial, talvez resumido na letra de “Chance”: “não deixe nunca de acreditar”…

Aquilo foi uma sacudida pra mim, um empurrão pra frente, uma alavancada pra enfrentar aquilo tudo que estava passando. A música do Rosa estava presente em minha vida, vivia pensando que o trabalho deles era feito para ser conhecido por todos os cantos, como qualquer outro artista de qualidade que faz sucesso por aí. Um dia, ao chegar cansado em casa, botei o DVD pra tocar enquanto constatava, triste, que já fazia tempo que ele tinha sido lançado, e por mais que tivesse alcançado muita gente, ainda não tinha extrapolado os muros da Igreja. Imaginava que o DVD era a grande chance, o tudo-ou-nada, a hora exata de tentar tal façanha. Minimizei a tela do show e, por um acaso, entrei no site da banda, coisa que não fazia há algum tempo. Tinham acabado de publicar a última notícia: Contrato fechado com a Som Livre. Sim, orações dão resultado… Outra boa alavancada.

Após o estado de êxtase inicial, minha euforia foi só crescendo, imaginando um futuro de glória para a banda. Cheguei a me preocupar com a demora pra passarem o comercial na TV aberta, com a falta freqüente do DVD nas prateleiras das lojas (enquanto nunca faltava nos camelôs). Mas bastou um pouco mais de divulgação para a banda ser a mais buscada nos sites de cifras da internet, algumas músicas começarem a bombar nas rádios e o DVD entrar na lista dos mais vendidos do país. Tudo indica que é questão de tempo para eles se tornarem plenamente conhecidos por todo mundo, ninguém mais perguntar “Quem??” quando você falar em Rosa de Saron. O sucesso chegou.

E, com ele, as dificuldades. Menos tempo para conversar com os fãs, para curtir as viagens, para dormir entre um show e outro. Toda situação nova gera stress, e alguns fazem questão de aumentá-lo com cobranças e xiliques, saudosos dos tempos em que sempre conseguiam ficar mais perto dos “ídolos”. Num show que fui há algumas semanas, uma senhorinha de igreja resmungava na volta, dentro do ônibus:  “triste é a gente viajar de longe pra chegar aqui, pagar o ingresso, comprar o CD, e não conseguir autografar o CD!” Gente reclamando da lotação, que não conseguiam chegar perto do palco – sendo que, a meu ver, estava até bem tranqüilo para um show cheio de adolescentes, com 4 mil pessoas num local fechado…

Show Rosa de SaronTalvez não tenham percebido a beleza que foi ver tantos e tantos jovens, de todos os tipos – desde aqueles que não tiram o terço do pulso até as que dançam “até o chão” com o trance que tava tocando antes, passando por aqueles que só entram no show após a segunda lata de cerveja – todos mergulhados nas canções, e vibrando de verdade a cada vez que eles falavam de paz, de Deus – coisas que todos, no fundo, pareciam buscar. Neste mês fazem exatos cinco anos que, no carro de minha amiga, ouvi pela primeira vez aquele forte verso:“não quero minha vida igual a tudo que se vê”. E pode parecer ingênuo, mas ao ver num show que fui ontem, aquele povo tão heterogêneo levantando as mãos e cantando com toda força essa mesma frase que tanto me marcou naquela época, me senti em meio a uma pequena revolução – ainda embrionária, talvez… mas bem real.

A música leva a reflexão ao fundo da alma, aonde a razão pura nem sempre consegue chegar. Poesia serve para gritar coisas que às vezes não conseguimos expressar com a devida lógica, mas que são reais, estão lá dentro. É isso o que fazem os grandes poetas. Pois imaginem se o Renato Russo, ao invés de se entregar à depressão e ao alcoolismo ao descobrir que estava com AIDS, depois de lançar o disco “As Quatro Estações”, tivesse conseguido se aprofundar ainda mais na mensagem traçada ali. Legião Urbana foi uma banda que fez uma geração inteira cantar “você me diz que seus pais não te entendem, mas você não entende seus pais”, em plena era de revolta dos anos 80. O grito de “é preciso amar como se não houvesse amanhã” está sob a pele de cada um, ecoa por toda parte, inclusive no DVD do Rosa. Desta vez, no entanto, o rock não serve somente para espantar os males de quem canta, dar um alívio enquanto a vida lá fora continua sufocando, como sufocou Renato. Ele traz a própria vida em si. Com suas cruzes, angústias e invernos, seus jogos de espelho e momentos de rara calma. Mas sempre olhando de frente.

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Feed dos comentários

  1. Karina’s avatar

    Poxa, Gabriel… Eu não conheço bem o Rosa de Saron, mas desde que ouvi, no comercial do DVD, aquela canção “Sem Você” (toca só uma frase), virou uma comichão querer comprar o DVD… sei lá, olha que não sou muito de música “gospel”, mas ouvir só aquela frase do Rosa me deixou tipo quando eu ouço Matchbox (adoro eles, tenho todos os CD´s)… aquela única frase me deixou convencida que será muito bom comprar o DVD. Como estou num período de vacas meio magrinhas (orçamento no 0 x 0, mas sem dever a ninguém, com a graça e providência divinas), estou contando centavinhos para comprá-lo. E ler as coisas que vc escreve sobre eles só faz aumentar minha vontade.

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    1. Gabriel Resgala’s avatar

      Bem, Karina… o q posso dizer é q não vai se arrepender.. vale a pena cada centavo!! rrsrs…
      ah, e eles não tem muito de “gospel” não… não lembra nada… hehe..

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  2. Thais’s avatar

    Sem dúvida um dos melhores posts que já li sobre o Rosa!
    Sou fã tbm! E Achei simplesmente incrível as palavras…
    Parabéns =]
    Beijos, paz e bem!

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  3. Flávia Regina Zanoti’s avatar

    Oi.. Nosaa muitoo bonitaa aa suaa história ao se tornar fã do Rosa de Saronnn. Gosteii muitoo.. aa minhaa nao foi muito parecidaa maiss foi um pouco. Já quee ouvii tipoo nao ligueii muitoo.. maiss nao passoo nem diass quee ja comeceiii a amaa ass musicas e a Bandaa..

    ee valee a penaa mesmo compraa sãoo mutoo Bonss..

    ee DEUS que prevalecee entre eles..
    eles passam uma energia pra gentih que nao tem explicaçãooo..

    Muitoo Bomm..

    Lindaa históriaa..

    Beijoooo amooooo Rosaa dee Saronn..

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    1. Gabriel Resgala’s avatar

      Flávia e galera, aproveitem e dêem uma olhada tbém nos outros textos do site que falam do Rosa, especialmente o último, baseado em Monte Inverno:

      http://vivopelavida.com.br/?s=rosa+de+saron

      bjo grande!!

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  4. Monyse’s avatar

    a sua história é incrivelmente linda queria poder te add no orkut como q te achuuu, abraços fica com DEUS e ROSA DE SARON *.*Mony

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    1. Gabriel Resgala’s avatar

      Oi Monyse!

      Entrarei em contato por e-mail.

      Abraços!

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  5. Ana Paula Ceolin’s avatar

    Oii Gabriel… A sua história me fez refletir… Nossa, como foi que eu comecei a ouvir o Rosa mesmo??? =D
    Eu me lembro bem… era aniversário da Diocese(Dourados, na época) e teria um show de comemoração com a banda em uma cidade próxima a minha… fui sem saber quem eram, de onde vieram e o que faziam… no caminho uma amiga foi me ensinando um trecho de uma música “Eu preciso tanto de você. O seu amor é o que me faz crescer…” E voltei pasma de tanta admiração… a partir daí comecei a procurar rastros desses seres maravilhosos e inspirados por Deus…
    Adoro Rosa de Saron! =)
    Foi legal ler a sua história!
    ;*

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    1. Gabriel Resgala’s avatar

      Valeu Ana Paula!

      Um feliz 2011!

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  6. gabriela’s avatar

    amo rosa de sarom escuto todo final de semana quando estou em casa com meus filhos eles são muito abençõados

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