Depois de algumas greves computacionais recursivas, estamos de volta! Antes de continuar, respire fundo e mergulhe neste poema abaixo:
“A ciência pode classificar
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
existem
nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação perde o condão de
adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
Manoel de Barros, in: Livro Sobre Nada”
Hoje gostaria de falar um pouco sobre um gênio da poesia mundial… Manoel de Barros. Sim, digo mundial pois o que a arte deste pantaneiro promove é simplesmente um atravessamento da poesia… uma topada com a vida… uma contorção da linguagem… uma gramática expositiva do chão.
“Quem anda no trilho é trem de Ferro
Sou água que corre entre as pedras:
- liberdade caça jeito
Manoel de Barros, In: Matéria de Poesia”
Alguns chegam a dizer que Manoel de Barros está para a Poesia assim como Guimarães Rosa está para a prosa… Outros dizem que “a poesia está para a prosa assim como ao amor está para a amizade. E quem há de negar que esta lhe é superior“…

“…Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas
Manoel de Barros, In:Retrato do artista quando coisa”
Partidarismos de lado, não há como negar a genialidade de Manoel, navegador dos deslimites da palavra…
“XIV
Poesia é voar fora da asa.
Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”
Deixo a dica para quem ainda não o conhecia…
“XXI
Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais ou
no Viterbo -
A fim de consertar a minha ignorância,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
ou no verso das folhinhas:
Conhece-te a ti mesmo.
ou na boca do povinho:
Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco.
Etc
Etc
Etc
Maior que o infinito é a encomenda.
Manoel de Barros, In: O livro das ignorãças”
E desejo a todos uma vida cheia de desconhecimentos e descobertas viventes!
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo – elas
podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)
Manoel de Barros, in: Livro Sobre Nada”




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