O Fim do Silêncio… ou da lógica?

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Com forte aparato policial para vigiar ostensivamente possíveis “manifestações contrárias”, foi lançado nesta segunda-feira, no Rio, o documentário O Fim do Silêncio, que apresenta depoimentos de mulheres que fizeram aborto com o objetivo de promover a descriminalização do mesmo (veja aqui o trailer).

O filme é financiado pelo Governo Federal através da Fundação Fiocruz, ou seja, utiliza dinheiro público para divulgar sua ideologia. Segundo reportagem do jornal O Globo, a única exigência da Fiocruz foi incluir, nos extras do DVD, os comentários de especialistas contrários e favoráveis ao aborto que foram excluídos da edição final do filme, exibida nos cinemas.

A novidade deste documentário seria mostrar a “cara” de mulheres que praticaram aborto há mais de 5 anos, prazo em que o crime “expira”, não podendo mais serem condenadas pelo que fizeram (embora possa ser suscitada a existência de apologia ao crime, já que estariam defendendo um delito previsto no Código Penal). Sem restrição alguma, serão distribuídas gratuitamente duas mil cópias do filme para escolas e entidades feministas de todo o país.

Pois, em uma entrevista à TV Canção Nova, o repórter perguntou à diretora, Thereza Jessouroun, se, além de focar a saúde das mulheres, ela em algum momento também pensara na “saúde” das crianças no ventre delas. “É… olha só… é uma questão… Não é que eu não pense na saúde das… dos… das crianças, não é isso… Eu estou falando sobre o aborto. É outro tema – ela respondeu, claramente apreensiva.

Como a reportagem foi editada, enviamos um e-mail à cineasta, perguntando se ela teria algo a acrescentar em relação à sua “explicação” que foi divulgada. Ainda não obtivemos resposta, mas receio, com sincero pesar, que na verdade não haja uma resposta satisfatória – nem ao menos lógica…

Digo isso porque o documentário parece claramente abordar a questão a partir da ótica feminista. Feminismo, que fique bem claro, das “novas ondas”, surgidas a partir dos anos 60, quando algumas militantes decidiram que não era só necessário lutar a favor dos direitos igualitários para as mulheres, mas também pelo aborto, enquadrado no conceito de “direito ao próprio corpo”. O lamentável é terem esquecido uma lição básica de matemática: um (corpo) mais um (corpo) é igual a dois (corpos). Eu, que eu saiba, nunca fiz parte do corpo da minha mãe.

Tenho amigas feministas, apóio com fervor várias de suas causas. Mas, até hoje, confesso que ninguém conseguiu me explicar o porquê de, neste caso, usar um argumento tão… falso. Nunca vi, pelo menos no Brasil (parece que lá fora elas já abrem mais o jogo), uma feminista que tivesse coragem de abordar diretamente esse assunto, sem fugir pela tangente de que “não é o caso de entrar na questão do início da vida” (se essa questão filosófica fundamental não serve pro caso do aborto, fico imaginando pra quê ela serve…). Uma vez, num debate sobre o tema (tá no youtube, pra quem quiser ver), tentei perguntar a uma militante pró-legalização por que elas insistiam em falar sobre o tal “direito ao próprio corpo”, quando na verdade todos sabem que é outro corpo (até o mais materialista dos biólogos). Ela não entendeu muito bem, se enrolou e só conseguiu dizer, de forma semelhante à Jessouroun: “não é que a gente não defenda a vida das crianças…” (sem logicamente explicar em quê consistia essa defesa). E abriu caminho pra outra debatedora, contrária ao aborto, soltar depois: “o corpo da mulher não é formado de ‘cabeça, tronco, membros e criança’, não!…”. Óbvio.

Por isso, resolvemos dar nosso grito de BASTA!”. Basta do aborto ser tratado como discussão pequena. Basta de ignorar argumentos importantíssimos, só por serem supostamente defendidos por “religiosos”. Basta de nem sequer pensar em como responder dignamente a uma pergunta óbvia, a primeira que deveria ser feita em todos os debates sobre o tema.

O aborto clandestino é um problema grave de saúde e de segurança pública? Sim, e por isso precisa ser sanado.

Há graves problemas sociais e educacionais que geram a gravidez indesejada e, por fim, o aborto? Sim. E por isso precisamos pensar em como prevenir esses problemas.

A desinformação e/ou o desespero muitas vezes levam mulheres a praticarem o aborto, sem intenção alguma de cometerem um crime? É claro! Por isso os juízes nem sempre as botam na cadeia.

Há quem questione o momento de início do direito à vida? Pode até ser. Mas não significa que não haja uma resposta. No mínimo, estaríamos “correndo o risco” de matar vidas inocentes. No máximo, as estaríamos matando por acreditar em conceitos determinados unicamente por interesses. Ou você acredita na bondade suprema das organizações internacionais que vivem pressionando todos os países para que aprovem o aborto?

Pense como quiser, argumente como quiser. O que não dá é pra ficar omitindo o óbvio. Um mais um é igual a dois.

Pé bebê barriga

Goste ou não do dois.

UPDATE (08/10/09): Veja também o nosso vídeo “Fim do Silêncio ou Grito Silencioso II“, que levanta algumas questões de dois documentários de nomes bem singulares…

Gostou? Veja também:

  1. Fim do Silêncio ou Grito Silencioso – II
  2. Fim do Silêncio… ou Grito Silencioso?
  3. Operação Anjo: menos duas clínicas de aborto

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  1. Gu’s avatar

    vi esse comercial na tv e lembrei do VPV…
    http://www.youtube.com/watch?v=0U506k4ueCo

    calhou certo com a postagem de hoje

  2. Gabriel Resgala’s avatar

    Lindo esse comercial, Gu! é aquela coisa… o que há de “religioso”, de dogmático nisso?

    (se bem que… no fundo não deixa de ser um ato “religioso”, né… rs…)

  3. Patrícia Madeira’s avatar

    Olá, meu nome é Patrícia, tenho 34 anos, sou bióloga e cursei meu 2° grau na FIOCRUZ, fundação esta que eu orgulhava… porém, mediante o fato do financiamento de 80 mil reais para promover a morte de inocentes, hj eu me envergonho e me revolto, pois parte do dinheiro utilizado é meu e eu nunca compactuaria com tal idéia.
    Não consigo compreender como tal instituição que sempre promoveu pesquisas e produções para SALVAR VIDAS, hj promove um documentário que faz apologia ao crime do aborto.
    Assisti tb a entrevista dada pela Thereza Jessouroun ao canal Canção Nova e sinceramente, percebi que ela só quis se promover com um tema polêmico, pois a pobre nem soube responder aos questionamentos, aliás, tb pedi para que ela me respondesse e ela não o fez, assim como o setor da FIOCRUZ responsável pelo financiamento do documentário, que tb não me responderam. Será que fiz perguntas muito dificeis???
    Bom, estou muito feliz em ter encontrado vcs e quero que saibam que se precisarem da minha ajuda é só me chamar!
    Parabéns pelo belo trabalho!
    Patrícia Madeira

  4. Gabriel Resgala’s avatar

    Olá Patrícia!

    Muito obrigado pelo apoio, é muito bom ver isso, que há tantas pessoas por aí que também não engolem as coisas do nada!!

    Continuemos sempre defendendo a vida.. e vamos precisar da sua ajuda sim, ter uma bióloga no time é sempre necessário quando lidamos com bioética!! rsrsrs..

    Grande abraço!!

  5. karine’s avatar

    Oi
    E simplismente lamentavel, a maneira que é colocado o oborto neste documentario…
    Quando eu descobri que o meu bebe tinha anencefalia, apesar de eu
    na hora do desespeiro, da dor, e da má informação que o meu medico me passou,apesar de eu ter pensado na chance de interromper a minha gravidez(que Garaças a Deus no outro dia ja me arrependi), em nenhum momento, questionei, os motivos, de Deus, na minha vida.
    mas olhando agora este video que esta mulher louca fez, eu pela primeira vez me pergunto (sem chance de resposta)…por que Deus dá o direito dessas mulheres cruéis, serem chamadas de mães?
    os bebes delas eram perfeitos, as cristãs, que inacreditavelmente, acreditam em Deus,dizem que não conseguiriam dar o mehor para as crianças..
    melhor?
    que melhor?
    o que elas entendem de melhor?
    elas tiraram o MELHOR de Deus…….
    A VIDA..
    Elas dizem que o corpo é delas,
    alguem diz para essas ignorantes, que nós não somos de nós…
    nós não temos nada….
    nós somos de Deus.
    nosso corpo pertence a ele.
    como nós podemos ser donas de algo que nós não controlamos…
    os chutinhos, os movimentos, a respiração…
    eu me sinto absolutamente inutil, em não poder fazer nada…
    me sinto mais incapaz e indefeza, do que o meu proprio bebe….
    como alguem pode ser mae
    se nunca esperimentou, o amor incondicional…
    como alguem pode escolher o melhor momento?
    eu queria gritar
    para que todas essas ”maes” ouvissem…
    que elas nunca, mesmo que gerem outros filhos
    nunca, saberao o que é o amor de uma mae.
    porque deus deu a oportunidade de sentirem este amor
    e elas simplismente:
    MATARAM.

  6. Gabriel Resgala’s avatar

    Olá, Karine…
    você conhece o site “anencefalia.com”, da Mônica e do Marcelo? acho que o seu testemunho poderia enriquecer muito o material deles..

    grande abraço! força sempre!…

  7. Karina’s avatar

    Oi, pessoal! Gabriel, eu não conhecia esse site que vc indicou pra Karine… putz, tô aqui escondendo as lágrimas. Cada história linda… Quem defende que essas crianças não tem direito de viver o pouco tempo que lhes será dado esquece que ninguém sabe dizer quanto tempo iremos viver. Minha amiga teve gêmeas, e a que nasceu saudável faleceu com 10 dias de infecção hospitalar (era minha xará). A que nasceu com problema respiratório e teve que ficar na UTIN hoje está com 1 ano e meio. Eu só sei que cada segundo que vivo com meu filho é precioso, e se ele estivesse muito doentinho, seriam mais preciosos ainda e eu iria querer demonstrar ainda mais o meu amor por ele.

  8. Mauro Jr.’s avatar

    Se manifestar pela descriminalização de uma conduta, ou seja, desejar ou difundir a ideia que a conduta não seja mais crime não pode ser considerado apologia ao crime, Art. 286 do Código Penal. Pois diz o texto do artigo o seguinte: “Incitar, publicamente, a prática de crime:” Ou seja, apologia seria dizer: “Cometa o aborto, vc é dona do seu corpo” o que é diferente de “O aborto deve ser legalizado”.

    Bom, é claro que eu sou contra o aborto!! Só queria mostrar um pouco da diferença citada acima…

    É lamentável que as mulheres optem pelo aborto, mesmo que o ideal seja a mãe cuidar com amor de seu filho, é necessário que se mantenha a gravidez… Sei lá, deixe a criança pra alguém, pra adoção, qualquer coisa, mas não mate, a vida é esse dom supremo que todos sabemos…

    (Sabe aquele diabinho que fala no nosso ouvido tem vezes? O meu acabou de falar que a mãe dessa gente que defende o aborto é que deveria ter abortado.)

    Mas é claro que até a esses Deus ama e os quer vivos!!

  9. Gabriel Resgala’s avatar

    Mauro, o texto levanta a possibilidade de ser sucitada a exitência de apologia ao crime no documentário, não afirma que ela realmente existe. Segundo alguns juristas que assistiram ao filme, alguns trechos podem ser enquadrados como uma incitação ao próprio crime, e não somente à legalização. Mas, é claro, as interpretações variam.

    E não dê ouvidos ao seu diabinho! rs.

    Abraço!

  10. Mauro Jr.’s avatar

    Sim, certo, pode haver a possibilidade sim…

    Entendido!!

    Grande abraço!!

  11. Valéria’s avatar

    Olá,

    Não li todos os comentários, então desculpem se eu me repetir. Li a reportagem e fiquei com uma dúvida. Quando se fala “O aborto clandestino é um problema grave de saúde e de segurança pública? Sim, e por isso precisa ser sanado”, como o autor do texto (acho que é Gabriel) pensa em sanar essa questão? Há alguma ideia de combate a isso?

    Obrigada

  12. Gabriel Resgala’s avatar

    Olá Valéria!

    Obrigado pela pergunta, me fez pensar na necessidade de discutirmos mais sobre o assunto… Estou até preparando um post só sobre isto – não sou expert no assunto, mas pelo que vejo basta um pouco de vontade política, ao invés de tentar-se “tapar o sol com a peneira”…

    Bem, mas em resumo, creio que uma política preventiva eficiente é, sim, possível. Basta pensarmos no cigarro, um problema dificílimo de ser combatido, mas que está cada vez mais sendo domado pelas campanhas preventivas brasileiras, elogiadas internacionalmente. Por que não poderíamos investir em campanhas semelhantes contra o aborto? Se for preciso apelar para imagens chocantes, que façamos. Se deu certo contra o fumo (utilizando-se inclusive de imagens de fetos abortados em maços de cigarro), por que não?… Creio que basta espalhar cartazes de abortos por unidades de saúde para que o número de casos diminua consideravelmente…

    Mas acho que nem é preciso chegar a tanto. Até porque isto não resolveria todo o problema, que na verdade remonta à falta de um planejamento familiar adequado. O aborto é uma ponta do iceberg – a mais terrível de todas, mas não deixa de ser uma ponta. Temos de pensar em políticas eficazes para a sexualidade, ou então vamos continuar com gravidez indesejada, AIDS, e tantas outras “pontas”…

    E isto, a meu ver, por mais difícil que seja, é possível desde que não se trate apenas de políticas superficiais, que se contentem em distribuir camisinha e em tentar “convencer” todo mundo a usar. Sexualidade é algo intrínseco ao ser humano, deve ser tratado com toda a profundidade possível, e as políticas públicas deveriam abordá-lo com seriedade, trazendo reflexões responsáveis e não só vinhetinhas engraçadas no carnaval…

    É assunto que dá pano pra manga… falei um pouquinho sobre isso neste post: http://vivopelavida.com.br/2009/02/21/%e2%80%9cdeus-no-coracao-e-o-diabo-no-quadril%e2%80%9d/

    Bem, solução creio que há sim! O que não dá, penso, é pensar que legalizar o aborto possa ser uma “redução de danos” para a situação. Simplesmente porque o “dano” a ser reduzido, no caso, seria o bem mais precioso de todos: a vida humana. Como, numa sociedade justa, legalizar a morte de uns em detrimento de outros?…

    PS: Uma boa notícia é que, segundo as estatísticas, o número de abortos no país já vêm diminuindo a cada ano (assim como o de pessoas que o aprovam). Seria interessante investigar o porquê!