Vida

Era um jovem de mais ou menos 18 anos que só tinha vontade de uma coisa: morrer. As coisas simples como sorrir, abraçar um amigo, olhar nos olhos, bater um papo, sonhar, não faziam parte da sua pessoalidade. Sorria somente com a desgraça dos outros; abraçava para tirar proveito; olhos nos olhos, jamais; trocar uma idéia com alguém era risco de perder sua moral. Sonhar? Preferia ficar acordado, bem acordado.

Um viciado sabe que para permanecer vivo tem que se vestir de uma armadura pesada todos os dias. No mundo do tráfico é ainda pior. A sensação é que até a sua respiração é vigiada, principalmente se está sob o efeito das drogas. Para ele cada despertar era um convite à guerra, onde o campo de batalha era sua mente. “Não existe paz interior, o desespero é constante, não pára!”, reclamou ele um dia. A armadura pesada servia para esconder o homem frágil que se refugiava ali dentro e o efeito das drogas servia para amenizar a angústia que nunca ia embora.

Ele conta que dos 13 aos 17 anos usava maconha para abrir a cabeça, viajar, rir do nada. A cocaína trazia a sensação de bem estar, de “tudo posso”, de poder. Sensações bem diferentes das que sentia depois, aos 18 anos. Neste tempo dizia que sua “onda” durava uns 5 a 10 minutos e que depois disso o medo o invadia subitamente. Para recuperar aquele tempo ínfimo de prazer, dava outra “bola” ou outro “teco” e assim repetidamente. Emagreceu 9 quilos: de 68 foi para 59. A cada dia sua fisionomia era deprimente.

Certo dia recebeu um convite para um encontro. Meio ressabiado ele foi e nunca mais voltou. Não, aquele jovem sem esperança nunca mais voltou! O que eu vi voltar foi uma criatura nova. Nesse encontro sentira algo parecido com saudade, um sentimento nunca vivido anteriormente, uma paz e um amor muito além de sua força e compreensão. As tentativas de suicídio, o desespero, a depressão, por um instante desapareceram… Parecia mágica! Deu um abraço e um beijo na sua mãe assim que chegou em casa. Um abraço gostoso de perdão que fez rolar aquelas lágrimas quentes sobre o rosto dos dois, fazendo renascer a esperança numa família destruída pelas drogas.

A partir daquele dia iniciou uma luta pela vida. As armaduras agora eram outras e o homem ali presente passou a ser grande em dignidade, porém, condicionado à força maior que é Deus. A decisão de ser limpo era do rapaz, não havia mágica (aliás, nunca houve). Houve, sim, um “encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” *.

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Foi um resgate de vida, em que, no início, Deus fez 99% e o jovem, dizendo seu sim, fez seu 1%. Só que depois, a cada dia, as coisas iriam se igualando: 98% para Deus e 2% para o jovem; 97% para Deus e 3% para o jovem e assim progressivamente até um dia ficar 50 a 50. Acredito nessa pedagogia da vida humana em Deus. Ele não quer marionetes em suas mãos. Deus não controla a vida de ninguém e nem resolve os problemas de ninguém – apesar dele ter suas surpresas. Mas creio que Deus concede a força, a paz interior, o impulso, as pistas, as inspirações e em contrapartida a colaboração do homem traz o pleno conhecimento de “ser pessoa”. A decisão continua sendo do homem, mediante a resposta que ele dá ao chamado que Deus lhe faz todos os dias. Um chamado à vida eterna, experimentada e saboreada aqui na Terra.

Não foi fácil para aquele rapaz livrar-se do vício e enfrentar a discriminação e as desconfianças da sociedade. Certa vez ele correu para o banheiro da escola e começou a comer folha de caderno para não fumar de novo. Teve que recuperar o tempo perdido na escola, voltou a estudar e começou a participar ativamente do grupo jovem da cidade, o mesmo que havia organizado o encontro. Fascinado com a Bíblia, pensou em um dia ser pregador. Alguns meses depois fez sua primeira pregação e contou sua história de vida. Logo estava pregando em todo canto da cidade, trazendo consigo muitos jovens.

Tudo estava indo de vento em popa até que o empolgado rapaz começou a ficar dependente da religião. Vivia um vício religioso e um fanatismo que o cegou e o fez refém de tabus e medos que retardaram sua consciência de jovem por muito tempo. Por conta do passado com as drogas, a radicalidade foi de início uma opção preferível. O problema é que ele parou naquele estágio espiritual deixando que a Lei fosse sua guia, anulando a liberdade que Deus lhe dava – que na sua cabeça era confundida com libertinagem. Vivia numa dimensão “céu – inferno” vinte e quatro horas por dia. Quando rezava, era somente para buscar a unção para pregar com poder, ou para testemunhar o Deus que ele passou a forjar na sua cabeça, ou então para não ir para o inferno numa luta frenética e sem inteligência contra pecados que achava que eram tão absurdos.

Muitos questionamentos, então, começaram a perturbá-lo a respeito da fé, da vida, da justiça social, da Igreja e do próprio Deus. Teve diversas oportunidades de voltar para o vício das drogas. Mas Deus o segurou! Mas mesmo assim o jovem pregador “chutou o balde”. Só que, se afastando um pouco, ele pôde analisar melhor toda a obra de arte da sua vida e pôde ver um novo tempo de descobertas: um novo chamado de Deus estava iniciando.

Descobriu que é possível sim ter amigos de fé mesmo que não sejam da Igreja. Buscou enxergar em outras filosofias e literaturas – outrora tão rechaçadas por ele – rastros de Deus e de vida. Percebeu que ler autores seculares, como José Saramago, Dostoievski, Enrique Dussel, Karl Marx (e alguns de seus seguidores), Mário Quintana, Adélia Prado, Machado de Assis, Lispector e outros não trazem perigo de perda de fé. Redescobriu a beleza nas letras de Renato Russo; a identidade escondida no samba de raiz e na música caipira; a irreverência poética de Cazuza e Cássia Eller; o progressismo e o misticismo de Pink Floyd e d’O Rappa e até mesmo na incoerência poética de Raul Seixas.

Descobriu dentro da Igreja a riqueza de outros movimentos e pastorais na maneira de viver a fé; e leu autores como Leonardo Boff, Frei Betto, Rubem Alves, entre outros – e se deixou tocar pela profundidade musical e literal de Pe. Zezinho e André Luna; a força libertadora na música de Zé Vicente; o equilíbrio espiritual de Pe. Joãozinho e Pe. Fábio de Melo (este hoje mais conhecido pela mídia).

E hoje, dia 21 de março de 2009, faz 10 anos que essa história de vida teve início. Uma história que não é melhor nem pior que a de ninguém. É a história de mais um fruto da misericórdia de Deus que com o tempo descobriu que religião e liberdade são mais bem vividas por pessoas que crêem, mas querem saber. E segue equilibrando sua porcentagem de humanidade com a porcentagem divina do Eterno.

O que eu sei é que esse jovem, dez anos mais velho, só tem vontade de uma coisa: VIVER!

Celebremos a vida, vibremos com essa vitória, rezemos por ele!

Pedro Junior

“só há uma chance pra viver”…

* Citação: Documento de Aparecida, § 12.

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  1. Drogas, Ciência e Fé

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7 comentários, Clique aqui para comentar!

Feed dos comentários

  1. Luis’s avatar

    Que lindo Pedrão… como o Gabriel tinha me falado,é pra ler com um lenço do lado…

    Acho que mais bonito é saber que essa história não segue sozinha, e nem para por ai… Tantas e tantas histórias para esse e para outros jovens viver…
    Tantas idéias pra trocar… tantos papos para bater… e tantas novas vidas a mudar….
    Muito bom!

  2. Gu’s avatar

    comentar? acho que não…
    ler, deixar que a reflexão te invada e então se emocionar… sim!

    “Quando a atitude de viver
    É uma extensão do coração
    É muito mais que um prazer
    É toda carga da emoção
    Que era o encontro com o sonho
    Que só pintava no horizonte
    E, de repente, diz presente
    Sorri e beija a nossa fronte
    E abraça e arrebenta a gente
    É bom dizer viver, valeu
    Ah! já não é nem mais alegria
    Já não é nem felicidade
    É tudo aquilo num sol riso
    É tudo aquilo que é preciso
    É tudo aquilo paraíso
    Não há palavra que explique
    É só dizer viver, valeu
    Ah! eu me ofereço esse momento
    Que não tem paga e nem tem preço
    Essa magia eu reconheço
    Aqui está a minha sorte
    Me descobrir tão fraco e forte
    Me descobrir tão sal e doce
    E o que era amargo acabou-se
    É bom dizer viver, valeu
    É bom dizer amar, valeu.
    Amar, valeu.”

    Gonzaguinha

  3. Gabriel’s avatar

    Acho que essa história traduz bem o sentido desse site, a esperança que surge mesmo quando parece que nada mais basta, a vida que sempre encontra um jeito… E, sobretudo, a luta que nunca é vã.

    Pedrão, meu amigo… Parabéns por conseguir traduzir tão bem essa saga que tanto nos sacode e joga pra frente, nos lembra que sempre há muito mais pelo caminho!… E, ao nosso querido jovem, parabéns.. por viver!

  4. Pedro’s avatar

    acho q essa história, como tantas outras, serve para mexer com a gente mesmo! Seguir, persistir e saber que a vida é uma aventura e nunca estaremos 100% prontos para encará-la. Resta-nos viver… haverá sempre uma nova descoberta – boa ou má – pra quem vive de verdade!

    Ahhh… e a música do Rosa traduziu bem essa história… Linda! vlw Gabriel. vlw Luís, vlw Gustavo!

  5. Pedro Barros’s avatar

    Me identifiquei muito com esse texto.
    Aos meus 13, 14 anos, lutei contra um vício e, com a graça de Deus, consegui vencê-lo. Tornei-me então católico praticante. No início foi tudo muito bom. Mas com o passar do tempo comecei a ficar meio fanático, e isso fez mal pra mim. Criei neurose de pecado (rs)…
    Só há pouco tempo que percebi isso e estou começando a reconhecer a liberdade do cristianismo humano, do “50% Deus, 50% eu”. De fato, o cristianismo é a religião mais humana. O Deus do cristianismo é o Deus que mais se identifica conosco. Ele próprio se encarnou em Jesus Cristo. Ele quis ser gente como nós.
    Agora, Ele está me libertando novamente.
    PAX!

  6. Josiane Dias’s avatar

    Parabéns moço!Pela sua fé que muitos apresentam,mas poucos são aqueles que querem dizer sim!

  7. Vanessa’s avatar

    Nossa que história.. De um extremo ao outro. Rezemos por este jovem e por outros jovens para que possamos nos manter nos 50%. E como diria um amigo: “Viva a vida!”