propiciatorio

Estudando um pouco sobre a cultura e a religião judaica descobri, dentre outras coisas, um objeto interessante usado nas celebrações do Templo. É um instrumento parecido com uma bacia, usado nos rituais de sacrifício com a finalidade de conservar o sangue dos animais ofertados pelo povo que eram imolados pelos sumo-sacerdotes. Esse sangue era depois aspergido sobre os fieis como sinal de purificação do homem e expiação dos pecados.

Esse material “litúrgico” dos judeus era chamado de Propiciatório, que vem de propiciar, estar propício, favorável. Ou seja, a “bacia” estava ali para servir, para ser solícita; na prática, para guardar o sangue que era a “salvação” de muitas pessoas que sofriam diversos males. Essa era a crença daquele povo que buscava o conforto para suas almas fatigadas, suas mentes perturbadas e seus corpos oprimidos. Sintomas não muito diferentes dos de hoje – psicólogos e religiosos que o digam…

Não é verdade que o ser humano está em constante busca de um sentido pra vida? Buscamos e às vezes achamos… Seja na religião, nas filosofias, nas ideologias, nas magias ou qualquer outra manifestação. O importante é o encontro da integração do corpo, da mente, com o espírito. Daí então oferecemos em sacrifício o carneirinho ou boizinho – comprado com desconto com alguns cambistas do “Templo” (Jo 2, 14) – para recebermos em troca a tão desejada felicidade. Mas o que há de errado nisso?! Vou ser direto: Poucos, bem poucos, querem propiciar a alegria dos outros. Esquecem que isso é um dos maiores deveres de ser feliz. O propiciatório dos judeus, aos olhos de um leigo, não tinha validade. O sangue dos animais poderia ser derramado em qualquer tigela ou vaso porque, o atraente mesmo, era o rubro líquido salvívico que trazia o alívio.

O perigo na busca da felicidade pode ocorrer na concepção que temos dela. Talvez, na ânsia de possuí-la e de abrandar depressa nossos sofrimentos, damos espaço para um vírus microscópico, típico do homem moderno chamado egoísmo. O mercado do mundo fácil das religiões e as quimeras das ideologias (que se dizem desalienantes das classes) fazem o homem refém de ciclos viciantes de ilusão.

Muitos querem a paz, a revolução, a fama, o dinheiro, o conforto, a alegria, as soluções a qualquer preço. Ingressam num clube ou numa igreja e logo saem se essas não lhes garantir mais a prosperidade que queriam. E assim continuam vagando à procura de um jeito mais fácil de viver. Almejamos a salvação, mas não queremos ser o propiciatório da salvação.

Ser um propiciatório é ser um servidor. As luzes do mundo nem sempre apontam para o servente. Mas qual a verdadeira luz que precisa iluminar o nosso mundo? Deve ser por isso que o saudoso João Paulo II disse numa oração: “Francisco, o mundo tem saudades de ti”. O pobre de Assis, assim como tantos outros protagonistas da verdadeira alegria, descobriu que é dando que se recebe – mesmo que seja uma punhalada pelas costas – mas é também morrendo (para si mesmo) que ganhamos a vida eterna.

Como disse E. J. Hardy, citado outro dia neste site: “A felicidade se faz, não se acha”. Então, vamu que vamu!

Pedro Barbosa Lima Junior

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  1. PodCast: Vida Louca Cast 01 – Religião (1ª parte)

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2 comentários, Clique aqui para comentar!

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  1. Josiane Dias’s avatar

    Muito Bem Pedrão!As vezes nosso propiciatório que é impregnado por esse vírus microscópico que é o egoísmo deixa o homem cego e sem tato para as coisas.Fazer o bem para si mesmo, busacar a felicidade individual é cair em uma lama de tristeza.Concordo com vc quando fala que devemos ser servidores,servidores em todas as instâncias da vida, servidores da disseminação da alegria, da crença que podemos resgatar algo melhor para a nossa vida e é claro para a vida de todos.

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  2. Ana’s avatar

    Não sei se esse comportamento egoísta é atual, mas que isso é uma constante, com certeza! A constatação se dá no cotidiano, pois infelizmente são poucos aqueles que sabem ser altruístas ao pensar num bem comum e tomar essa “utopia” como benéfica pra si próprio também, sem vislumbrar um benefício futuro que não seja somente a satisfação de ser útil, de ajudar. Seja por egoísmo, seja por imaturidade, ou por falta de consciência é lamentável, mas esse pensamento corrente “dane-se o mundo, o que importa é que eu me dê bem” está tão enraizado que se alguém vai de encontro é tido como “trouxa” ou “falso-bancando-bonzinho”. =/
    Ainda bem que existe uma parcela da humanidade que não é assim e faz a nossa raça valer, a despeito da parcela apática e da [felizmente] minoria ruim.

    Que continuem a publicar ideias tão bem elaboradas como sempre!

    Beijos!

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