Ela diz não saber. Finge não saber. Na verdade já não mais sabe se o sabe… mas não quer saber. “A ignorância é uma bênção”, dizia um personagem de Matrix. A verdade é cruel, é triste, é sofrida. Não vale a pena.
E ele se vê encurralado, preso, sem chão. Quer amar mas não o deixam, quer viver mas o sufocam. Como amar quem não o quer? Como fazer brotar a flor do amor onde tudo parece infértil?
Mas ele sabe a verdade.
Sabe que ela mente.
Sabe que no fundo da alma o medo de amar é o medo de ser, de sentir, de viver. Chega a pensar em tudo o que fez, no que não fez, no que poderia ter feito. Como se o amor fosse os próprios atos, e não o que os move. Mas não adianta. Não há culpas. Não há culpados.
E ele reza. Reza com todas as suas forças para que a força do amor seja maior que as suas próprias, que não seja ele a sufocá-lo. Que seja maior do que ele.
E ela chora. Chora por sentir que ama, por saber que ama mas não querer saber amar, que se entrega mas não quer se entregar.
Ano passado, num debate sobre aborto promovido numa universidade na época da Campanha da Fraternidade de 2008 (que evocava as posições da Igreja Católica em relação a questões bioéticas e, portanto, era contrária ao aborto), vi um rapaz do DCE se levantar e lançar o seguinte questionamento: “Por que a Igreja não se preocupa também com as questões sociais do país? Por que a Campanha da Fraternização [sic] não poderia tratar, por exemplo, da Saúde Pública, da Reforma da Previdência?…”
Aquele jovem rapaz, que por sinal logo depois se candidatou a prefeito da cidade, provavelmente só tinha parado pra prestar a atenção numa Campanha da Fraternidade naquele ano, quando ela tomou uma posição que era claramente o oposto do que o seu partido pregava. A Igreja, naquele momento, era só uma instituição (palavra que por si só já trás arrepio a alguns) “reacionária”, que não pensava na situação das mulheres “negras e pobres” sem direito a um aborto “seguro”. Ou seja, “Campanha da ‘Fraternização’? Soy contra!”
Bem, mas talvez a CF do ano passado, provavelmente uma das que mais fez barulho na sociedade (nem tanto por abordar um tema polêmico, algo que não é raro nestas campanhas, mas talvez por contrariar um pouco a posição “de esquerda” que geralmente é esperada delas), tenha colaborado para que as pessoas se lembrassem do papel das Campanhas da Fraternidade de incitar a reflexão não só da Igreja, mas da sociedade em geral, sobre as realidades existenciais do povo brasileiro – e isso desde a década de 1960, beeem antes daquele rapaz ler o seu primeiro livro de Trotsk. Assuntos “sociais” já foram abordados aos montes nas CFs; só temas que falam sobre violência e paz, como o deste ano, já houve uns cinco. Mas, é claro, nunca é demais repetir, tem-se que ir cada vez mais fundo, e este é um tempo mais do que propício…
Tendo como tema “Fraternidade e Segurança Pública”, e como lema “A paz é fruto da Justiça”, a Campanha da Fraternidade de 2009, que se iniciou hoje e vai até a Páscoa, apresenta como objetivo principal “suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos”.
(vídeo da CF veiculado na TV)
Dando uma olhada no texto-base, percebemos que, em síntese, a campanha pretende combater a violência com uma cultura de paz, ou seja, pensar além do simples “bota o bandido na cadeia que tudo se resolve”. Considera a negação de direitos como “raiz da violência” e rompe com a visão do combate à violência com estratégias violentas, procurando fomentar “a implementação de ações educativas, penas alternativas e fóruns de mediação de conflitos para superar os problemas e de segurança”. Luta contra a redução da maioridade penal, a pena de morte e a noção de justiça que diz que “todo mundo deve pagar pelo que fez”.
Essa visão (que num primeiro olhar também pode parecer um pouco ingênua) contrasta com a posição de alguns setores mais conservadores da Igreja, que defendem uma moralização maior da sociedade (garantia do cumprimento da lei e da ordem a qualquer custo) e da punição severa, proporcional à gravidade do delito, como meio de retaliação do crime. Pode parecer “reacionário” demais pensar assim, mas é o que vem à cabeça quando se depara com um crime hediondo como o estupro infantil, por exemplo… Ainda mais se acontecido na família. Não é?…
Os “conservadores” evocam o Catecismo; os “liberais” citam o Documento de Aparecida – ambos textos de grande valor para a Igreja, autorizados pelo papa. Eu, na minha modesta opinião, acho que quem quer se dizer cristão tem que pensar, antes disso tudo, na novidade que aquele cara chamado Jesus trouxe (não que ele tenha sido o único a falar disso, mas pelo menos é o que todos parecem mais dispostos a ouvir…).
Naquela bonita parábola do filho pródigo, o pai faz mais do que simplesmente perdoar os pecados do filho, que fez uma presepada danada com o dinheiro dele. Ele nem ouve os pecados. Antes, salta de alegria porque o filho voltou para casa (“e sempre tem a cama pronta e rango no fogão”…). Depois, certamente, como era um bom pai, deve ter conversado com ele sobre o que viveu, sobre a comida dos porcos que comeu, sobre como reparar a culpa que sentia… Pode até ter dado uma boas palmadas. Mas, naquela hora, era momento de festejar.
Vai, então, uma mensagem: não sejamos, pois, como o filho mais velho, que só se preocupou com o que o irmão FEZ. Antes de tudo, tentemos ser como o pai, que olhou para o quem o filho ERA.
Primeiro é hora de lembrar que quem erra, por incrível que pareça, também é humano. Depois, com isso em mente, a gente pensa em como reparar o erro, inclusive se lembrando de quem foi lesado (que, é claro, é tão humano quanto o outro). Sim, é difícil… mas é assim que se faz a vida. Pelo menos, pra quem acredita que o que gera a paz, antes mesmo da justiça, é o Amor…
PS: Um dos objetivos específicos da CF deste ano é denunciar “a injustiça presente na imunidade parlamentar para crimes comuns, o instituto da prisão especial e foro privilegiado”. No fim da década de 1990, uma Campanha da Fraternidade originou um movimento de combate à corrupção eleitoral, que entre suas conquistas, conseguiu implementar a 1ª lei de iniciativa popular da história do país, aquela que melhora a punição para o crime da compra de votos. Quem sabe, dessa vez, não surjam também leis que acabem com tantos “privilégios” para estes criminosos “especiais”?? Difícil, mas não impossível!…
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