“Deus no coração e o diabo no quadril”…

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Totó, pronto para o Carnaval

A expressão é da música “We are Carnaval”, de Nizan Guanães, que fez sucesso na década de 90 na voz do cantor Netinho e já foi regravada por tanta gente que pode ser considerada uma espécie de “hino” do carnaval baiano (veja aqui uma versão com a Banda Eva gravada no Festival de Verão 2008). A letra, que reclama o título de “mundo do carnaval” para a Bahia, diz a certa altura que “o baiano é um povo a mais de mil: ele tem Deus no seu coração e o diabo no quadril”.

Mais do que expressar um estranho sincretismo, a letra parece querer mostrar, com bom humor, uma certa espécie de pequena “relativização moral” que de certa forma virou símbolo não só da Bahia, mas do Carnaval em si. “Nada demais”, diriam, somente algumas pequenas “diabruras”: botar malícia na dança, beber “um pouco” mais, experimentar coisas diferentes, fazer coisas que você não faria em outra época, em outro lugar… Isto, para muitos, é o sentido do carnaval. Como nesta charge do Maurício Ricardo (muito boa, por sinal!):

(clique no PLAY para ver a charge)

A maioria curte umas noites de “muita alegria”, e no máximo acorda no outro dia de ressaca rezando para que nenhum amigo sacana tenha filmado algo no celular e jogado no Youtube. Mas, infelizmente, esse mesmo senso de falta de limites” que é o símbolo do carnaval de tanta gente pode acabar acarretando problemas graves: acidentes, violência, transmissão de doenças, gravidez indesejada, overdose, estupro, brigas, mortes… Converse com alguém da área de saúde que já fez plantão em emergência na noite de carnaval, e vai ver que não é exagero tudo isso que se diz do carnaval,  tem cada história escabrosa… Ninguém parece estar muito preocupado com isso (ao menos até que aconteça com ele), mas o governo e quem tem algum interesse no bem-estar da sociedade se preocupa, e muito. Aí vem o impasse: como tentar prevenir essas coisas, sem tirar a “magia” do carnaval, sem passar uma idéia moralista de que ninguém teria o direito de se divertir?

Aí vêm as fortes campanhas publicitárias veiculadas nessa época, do clássico “se beber não dirija” (cujo complemento, “se for dirigir não beba”, alguns fabricantes de cerveja trataram de esquecer), às polêmicas “faça de tudo, mas faça com camisinha”. Polêmicas porque, segundo alguns, só tentariam resolver um ponto da questão, a “ponta do iceberg”, enquanto poderiam na verdade estar estimulando ainda mais a promiscuidade sexual, principalmente em adolescentes – e abrindo a porta para tantos problemas por ela gerados, que vão além de um simples controle de doenças e de gravidezes indesejada. Para outros, o problema é também de ordem prática: só o foco no preservativo não funciona. Tanto, que fazem décadas que todos estão carecas de saber como prevenir a tão temida AIDS, e ela ainda é um problema longe de estar controlado.

Não, eu não gosto de moralismo. Acho que, além de ser uma enorme fonte de frustrações e repressões pra nossa sociedade  (Freud que o diga), ele simplesmente não funciona, hoje em dia. Diga pra alguém: “não faça isso”, sem lhe explicar e dar um bom motivo para isto, que você na verdade estará atiçando a curiosidade em sua mente para aquilo (quer ver? Não pense num elefante rosa. Com bolinhas brancas e um laço vermelho na orelha…). Mas acho que também não adianta nada tentarmos fazer o oposto, pregar a libertação total de toda e qualquer coisa que tenha cheiro de regra, estabelecer a moral do não-moral. Já repararam como é contraditória aquela clássica “É proibido proibir”? É como dizer que “tudo é relativo”. Nada menos relativo que a palavra “tudo”, não é?…

Caranaval de Salvador

Cena "típica" de carnaval de rua...

Enfim, filosofias à parte, o que me pergunto é o seguinte: será que a frase “faça de tudo, MAS faça com camisinha” não teria também um efeito contraditório, semelhante à  brincadeira do elefante? Primeiro dá-se uma ordem: fazer de tudo. Tudo, como todos sabemos, a princípio quer dizer tudo mesmo. Só depois é que esse “tudo” é relativizado, na segunda parte do apelo: não pode ser sem  camisinha. Imagine o cérebro de um adolescente no auge da euforia hormonal (que não estimula só a sexualidade, mas também todo um tipo de comportamento “aventureiro” – você se lembra, não é?…), ouvindo esses dois conselhos na TV em meio a imagens de mulheres, digamos, bem delineadas fisicamente e com um mínimo de vestimenta decorativa, sem nenhuma explicação maior, sem algo que o faça questionar o porquê de “fazer de tudo”, e os porquês de usar camisinha. O que você acha que ficará mais forte pra ele?

Sim, há como ficar as duas coisas, é óbvio que há muita gente que faz “de tudo” mas pensa nas conseqüências. O problema é que as conseqüências nunca são totalmente previsíveis. Camisinha não é totalmente segura. Todo mundo sabe que ela rasga. Ainda mais depois de muita cerveja (ou outras coisinhas mais), é difícil colocar o troço direito, isso quando não a lembrança de usá-lo só vem quando já é tarde… Se o carnaval é encarado como a hora de esquecer todos os limites, mais do que natural se esquecer também do limite que a camisinha representa. Por essa razão, a promiscuidade em si é muitas vezes considerada comportamento de risco, com ou sem o uso de preservativo. Ou estou mentindo?

A solução? Sei lá, só sei que desse jeito não dá. Se continuarmos tratando a sexualidade só como  fonte de preocupações quanto a doenças (incluindo a gravidez indesejada), creio que não vamos mais chegar a lugar algum. Há alternativas, ainda que um tanto “estranhas” à nossa mente brasileira: um dos programas de prevenção à AIDS que tem feito um grande sucesso é o de Uganda, curiosamente baseado em três mensagens, chamadas de “ABC”: A de abstinência (para adolescentes), B de “be faithful”, ou “seja fiel” (para casados), e C de condom, ou camisinha. O foco é nos dois primeiros, o C é pregado como  um recurso à parte. E, por incrível que possa parecer, dá certo - tanto que o método está sendo implementado também em alguns países de primeiro mundo. Veja aqui uma reportagem de um jornalista comum, nada conservador, comentando sobre os resultados que viu quando foi ao país. A título de comparação, dê uma olhada na campanha de carnaval que o Governo Federal está propagando por aqui…

Não, não precisamos ser moralistas. Basta incentivar uma discussão um pouco mais profunda sobre o sentido disso tudo, da sexualidade, da afetividade, das relações humanas. Basta encarar cada um como alguém que pode ter uma pretensão maior da vida do que sair “curtindo aventuras” no carnaval – mas que, se tiver vontade de fazer isso, tenha capacidade suficiente de pensar, de planejar sua vida e, com isso, chegar à conclusão de que deve fazer tudo com responsabilidade, de dirigir a passar a mão na bunda alheia.

Afinal, pra grande parte das pessoas, o carnaval continua sendo uma época saudável, curtida das mais variadas formas, mas sempre como um louvor à alegria. Né, Sorriso?…

Renato Sorriso

Renato “Sorriso”, o gari mais amado da Sapucaí

Um ótimo Carnaval a todos!!

UPDATE (03/03/09):  Como que pra confirmar magistralmente isso tudo que publicamos no primeiro dia de carnaval, eis que, após tantos anos sem um presidente ir assistir ao desfile da Sapucaí (lembram do que aconteceu ao Itamar, o único que tinha tido coragem pra isso, até então? pois é…), o Lula me aparece lá pra jogar camisinhas pro povo, algo inédito “na história desse país”…  Fiquei pensando no que comentar sobre isso, mas achei um cara que já fez isso por mim. E olha que nem conhecíamos o sujeito…

Gostou? Veja também:

  1. Mais um dia de carnaval…
  2. Coração Aberto
  3. A camisinha moralista

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  1. H K Merton’s avatar

    Aprovadíssimo! Só discordei da charge quando usa a expressão “fazer amor”… No carnaval, as pessoas fazem de tudo, menos Amor, esse sentimento tão sublime que significa uma outra coisa BEM diferente.

    Parabéns pelo blog. Considerem-se linkados no ‘a Arte das artes’.

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    1. Luis Vinicius’s avatar

      Olá Merton!
      Seja bem vindo e esteja sempre convidado para voltar e deixar mais comentários…
      Uma das coisas mais interessantes do blog é justamente essa. A possibilidade do texto crescer a partir dos comentários dos leitores!
      Muito Obrigado!
      Abraços!

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    2. Gabriel Resgala’s avatar

      Olá, Merton!!

      Pois é, “fazer amor” é uma expressão que “pegou”, talvez para soar de forma mais suave que “fazer sexo” ou outras menos publicáveis… Mas na verdade acho que a charge quis ser meio irônica’, quando se refere a “fazer amor” de formas tão, digamos, esquisitas.. rs. Sei lá, acho que o cara que a fez, assim como a gente, também não considera isso como “amor”…

      Mas enfim, que o carnaval seja uma época de todos “fazermos amor”, ou seja, termos atitudes que possam levar o Bem a todos os cantos, seja onde estivermos… que assim seja!

      Grande abraço! E parabéns pelo seu blog também, está muito bom! (depois quero trocar mais figurinhas contigo, também faço ciência da religião.. hehehe)

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  2. R. B. Canônico’s avatar

    É por aí.

    Porém, o foco das camapnhas, a meu ver, não está distorcido. Está copletamente equivocado.

    O Estado está impondo uma educação sexual, o que de per si é um absurdo. O papel da educação moral das pessoas é das famílias, não do Estado.

    Contudo, você aponta para uma linha interessante: apresentar argumentos, provocar discussões, ir contra o senso comum, mostrar que há um outro caminho melhor a se seguir.

    Não tenho dúvidas de que esse é sim o unico caminho a ser seguido.

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