
Foi segunda. Estava eu chegando em Juiz de Fora, voltando de viagem do Rio, carregando uma mala de rodinhas pelas calçadas esburacadas do bairro, além de uma mochila com um peso considerável nas costas. Foi um daqueles dias cheios, mas um dia bom. Por isso mesmo, decidi economizar no dinheiro do táxi e pegar um ônibus pra vir da rodoviária pra casa, só teria que andar um pequeno pedaço à pé. Estava animado, cheio de coisas na cabeça… Voltando da primeira visita à casa da namorada, que mora em terras fluminenses. Um misto de entusiasmo e incerteza, saudade do que deixara pra trás, mas com esperança do que vinha pela frente…
Por isso o cansaço, apesar de grande, não me impediu de carregar aquele pequeno peso mais um pouco até em casa. Estava um começo de noite bonito, tranqüilo… o que custava andar um pouco?
Foi quando eu pude relembrar o lado cômico de São Pedro.
Começou com uns pingos d’água, aqui e ali. Procurei marquises, algo bastante improvável num bairro residencial. Correr não podia; andar rápido era o máximo que meu corpo cansado e as rodinhas da mala suportavam. Os pingos rapidamente engrossaram, percebi que o Pedrão tava a fim de curtir uma chuva de verão básica, daquelas “visita de sogra”: surgem do nada, fazem um estrago danado e depois vão embora tranqüilas, como se nada tivesse acontecido. Era preciso pensar rápido.
Procurei uma pequena árvore na calçada, raciocinei que pelo menos por alguns minutos eu ali estaria abrigado. Foi eu me esconder da chuva, que ela de repente foi ficando mais violenta, como se quisesse me pegar de qualquer jeito. Logo depois, porém, estiou um pouco. Pensei: “é agora, falta pouco pra chegar em casa, acho que se eu for rápido não me molho muito”. Mas caí que nem um patinho: a chuva só estava esperando eu sair pra engrossar de novo.
Corri até a próxima árvore, e a bendita chuva estiou de novo. Então esperei ela ficar ainda mais fraca, pra assegurar, e ameacei enfrentá-la mais uma vez. Juro: foi eu botar o pé pra fora da segunda árvore, e a chuva voltou a engrossar. Juro pela sogra do Pedrão (aquela que Jesus curou, lembra? – pois é, e dizem que papa não tem sogra…).
Só me restou correr pra baixo da terceira árvore, e esperar. Não havia mais onde me abrigar, e a chuva engrossando, as folhas logo não iriam mais segurar a água… Nisso vieram uns adolescentes correndo pra debaixo da árvore também. Ficaram alguns segundos, perceberam que não ia adiantar muita coisa ficar ali, e então tomaram coragem e saíram correndo e rindo pela rua, debaixo daquele aguaceiro todo. Ah, que inveja. E eu que tinha acabado de rever Cantando na chuva, na casa da namorada. Se não estivesse com tanta bolsa…
Nisso ouço uma vozinha me chamar: “Quer entrar aqui?” Era um garotinho de uns 8 ou 9 anos, na varanda da casa em frente a mim. Como bom mineiro, minha primeira resposta foi automática: “Não, ’brigado, vou ficar aqui mesmo, logo a chuva passa!” Mas logo constatei que a última oração da minha frase era uma inverdade. E acabei cedendo ao convite do menininho simpático, ante sua insistência.
Entrei e fiquei ali na varanda/garagem. Era grande, deviam caber uns três carros, mas não havia nenhum. Não ouvi barulho de gente lá dentro. Estaria o menino sozinho em casa?
_ Quer um cafezinho? – perguntou.
_ Não, ’brigado!
_ Quer uma água? Quer entrar?
_ Não, valeu! Eu fico por aqui mesmo…
_ Tem certeza?
Imaginei a cena: eu, um rapaz nos seus quase 26 anos, entrando na casa do garoto, pingando água pelo chão, me apresentando pra sua mãe: “Boa noite, seu filho me achou perdido aí fora na chuva. Hum… tem Toddy, ou só café mesmo?”
Nisso me lembrei de ligar pro meu irmão. Eu estava só a uma esquina de casa, não custava ele vir me pegar, de guarda-chuva.
_ Não quer nem uma água, não?
_ Não, valeu!
_ Você tá vindo de onde?
_ Do Rio.
_ Do Rio? Poxa, lá é quente, né?
_ É, bem quente.
_ Eu estive lá uns dias atrás… fiquei uns 15 dias lá. Na casa da minha tia Inês. Conhece?
_ Ela mora aqui no bairro?
_ Não, lá no Rio! É uma de cabelo curtinho.
_ Não, não conheço…
Liguei pro meu irmão, enquanto prendia o riso. Que bom, ele estava em casa, e já estava vindo!…
_ Não quer água mesmo não?
_ Não, valeu…
_ Um dia ainda quero morar no Rio.
_ Você gosta de lá?
_ Lá é muito bom! É quente, tem praia… é bonito…
Não resisti a provocar o esteriótipo:
_ Mas é violento também, né…
_ Ô! Rapaiz… lá, se você colocar a cabeça na janela e não ouvir tiroteio, você não tá no Rio… Quando eu tava lá, minha tia foi buscar a filha na escola um dia, e aí…
“Que garoto!”, ri por dentro. Será que eu era assim na sua idade? Não, eu era bem mais tímido… Com certeza…
_ …por que será que as pessoas são tão violentas assim? Por que elas matam, roubam?…
Pronto. Uma pergunta de criança, daquelas que deixam qualquer adulto sem saber o que dizer. Sim, já fiz muitas delas. Mas agora eu era o adulto. E fiquei pensando no que sei sobre o assunto… Já fiz vários trabalhos sobre violência quando era bolsista de psicologia social, gosto de ficar filosofando pelos cantos sobre a natureza humana, brincando de formular conceitos antropológicos, éticos, teológicos. Mas eis que vem uma pergunta simples, feita por alguém a quem deve-se dar uma resposta simples… E agora?
Ele foi mais rápido:
_ Não sei por que… Eles não ganham nada com isso. Só dinheiro.
Taí. Naquela hora entendi por que Jesus botava as crianças no colo e dizia que o Pai revelava-lhes grandes segredos, ocultando-os dos sábios e entendidos…
Meu irmão chegou, com dois guarda-chuvas. O garoto ainda nos ofereceu mais um copo d’água, antes de nos despedirmos:
_ A gente se esbarra por aí!
Fomos embora cantando na chuva, agora um pouco mais fraca. O filho da minha mãe não consegiu proteger a mala embaixo do guarda-chuva enquanto dava seus passinhos de dança no meio da água (“Poxa, que pena que você tava pertinho de casa, nem deu pra eu me molhar direito!”). O que molhou foram uns certificados de congressos – alguns que nem eram meus -, textos do mestrado, um CD-Rom e um livro de capa bonita que eu tinha acabado de comprar. Ficou tudo com as pontas amassadas, enrugadas por causa da água que entrou no bolso lateral da mala, naquele curto trajeto entre a esquina e a nossa casa. Depois de tanta luta pra não molhar nada, Pedrão finalmente venceu.
Tudo bem. Só pra não dizer que o dia foi perfeito…

Gabriel Resgala
08.11.08
(crônica originalmente publicada no Humanando)
Gostou? Veja também:
Tags: cantando na chuva, chuva, criança, crônica, são pedro, vida
-
sensibilidade!
-
quato anos vc tem


3 comentários, Clique aqui para comentar!
Feed dos comentários
Trackback link: http://vivopelavida.com.br/2009/02/13/eu-pedrao-e-o-menino/trackback/